O velho homem voador

O texto “O novo homem voador” recebeu alguns bons elogios.

Escrevi um texto semelhante, porém muito mais simples, há uns 15 anos atrás. Na época, eu estava me desatando de algumas amarras – e me atando a outras – e me imaginei como seria alguém totalmente livre. Provavelmente poderia voar, de tão livre que seria. Então, do alto, veria que todas as pessoas estão presas por amarras.

Recentemente pensei em reescrever a história após ler uma frase de Nietzsche.

O pensador alemão Friedrich Nietzsche tem um estilo poético, aliado a ideias demolidoras, o que o faz ter citações memoráveis.
Não consigo reproduzir o estilo poético, mas ele disse algo mais ou menos assim.

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Na nossa vida, temos que atravessar um rio. Na beira do rio, há a oferta de várias barcaças e várias pontes guardadas por semi-deuses. Mas o preço da passagem é a sua alma.

A conclusão de Nietzsche. Não siga por ponte alguma. Você é responsável por construir a sua própria ponte.

Para fechar, um comentário espontâneo do meu amigo Diego Piva, ao ouvir esta história: “Mas atravessar o rio, no braço, também é osso, hein”. Pura verdade…

 

 

O novo homem voador

Um homem passou a vida inteira preso a correntes. Não correntes de ferro prendendo o corpo, mas correntes de ar, prendendo a mente. Correntes tênues, finas, que permitiam que ele fosse para qualquer lugar, mas de vez em quando elas se tensionavam, impedindo que ele fizesse seus desejos. Era como um cão preso a uma coleira, ele poderia andar livremente dentro de um círculo, mas as amarras o impedem de ir além.

Na verdade, não era apenas uma corrente. Eram diversas, prendendo-o de várias direções, limitando a sua liberdade sob vários aspectos, travando a sua potência, amarrando a sua vontade.

O homem tinha um plano. Libertar-se de todas as correntes, e se tornar um Novo Homem.

Não era fácil quebrar essas amarras. Se fossem feitas de um material físico seria muito mais simples: algumas marretadas, e pronto. Porém, correntes mentais necessitam de outro tipo de marreta, uma marreta metafísica.

O homem foi se libertando das correntes, uma a uma, ao longo de vários anos. Quando, finalmente conseguiu se libertar de todas as amarras, ele descobriu-se tão leve que podia voar!


Agora, ele era o Novo Homem Voador. Do alto, ele via todas as outras pessoas.

Ele descobriu uma verdade terrível: Todas as pessoas deste mundo estão presas a correntes! Homens, mulheres, jovens, velhos, feios e bonitos, todos estão atados.

O Novo Homem Voador viu um homem com correntes vermelhas, grossas, vociferando palavras fortes contra o capital. Mas ele viu também outro homem, com correntes azuis, respondendo ao de vermelho.

Ele viu uma pessoa com amarras feitas de terços, falando sobre deuses, anjos e paraíso. Outra falando de Alá, Talmud, Alcorão.

Pessoas atadas a outras pessoas, com obrigações familiares e religiosas.

Pessoas atadas a corporações, perseguindo lucro, EBITDA, e fugindo de punições financeiras.

Pessoas atadas a dívidas crescentes como uma bola de neve.

Pessoas atadas ao nacionalismo, orgulhosas de terem nascido em algum país específico, criticando imigrantes. Correntes morais dos mais diversos tipos, algumas mais flexíveis, outras extremamente rígidas: bem e mau, certo e errado, valores e transvaloração dos valores.

Desde o nascimento, as correntes são atadas às mentes dos pobres bebês, normalmente as mesmas correntes à que os pais estão presos. Os bebês vão crescendo.

Na adolescência e na idade adulta conseguem se libertar de algumas, somente para se prender a outras correntes, oferecidas por outras pessoas.

Não há pessoas totalmente livres. 

O Novo Homem Voador percebeu que, embora as correntes o prendessem, também davam uma certa segurança. Pensou, do alto de seu voo: “Para onde vou, uma vez que sou totalmente livre? E agora? E agora…?”

A resposta encontrada: “Agora que não tenho correntes, ninguém pode me dar esta resposta. Somente eu mesmo posso saber”. E pôs-se a voar. 

Trilha sonora: Vivaldi, Primavera

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2017/05/24/o-velho-homem-voador/