Séries, Podcasts e Quadrinhos sobre Ditadores

Segue uma indicação bastante interessante de podcast sobre história: a série “Ditadores”, no Spotify. É excelente para quem gosta de áudiolivros, como eu.

Ela narra a história de alguns dos piores ditadores da história recente, de maneira bastante didática e em português:

  • Adolf Hitler
  • Benito Mussolini
  • Joseph Stálin
  • Kim Il Sung
  • Kim Jong Il

Para cada um, há dois episódios de uns 45 minutos. A série ainda está em andamento, com um lançamento por semana, sempre às terças-feiras.


Outras indicações:

Sobre Hitler, há inúmeros filmes, documentários e livros.
Sobre os demais, há um número bem menor de fontes.

1) O documentário Hitler, uma carreira, disponível na Netflix, se destaca por conter vídeos da época.

Muito interessante é ouvir o discurso real de Hitler. Mesmo sem saber alemão, é possível ler a linguagem corporal e o tom de voz da figura.

Apesar do discurso ter palavras fortes, Hitler tem um jeito afeminado. É paradoxal. A imagem que eu tinha era de um ditador tosco, um valentão – mas a imagem das filmagens é a de um político, não muito diferente dos políticos que conhecemos. Talvez por isso, muita gente não tenha levado a sério o discurso, e tenha votado nele apenas como um protesto contra a ordem vigente.


2) Hitler’s Circle of Evil.

O foco aqui é no círculo interno de Hitler, as pessoas que o ajudaram a chegar e a manter o poder. Alguns deles viriam a ser figuras chave no Terceiro Reich: Hermann Göring, Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e outros menos conhecidos, como Dietrich Eckart (escritor que lançou as bases ideológicas do nazismo).

São 10 episódios, e conta com detalhes a história deste período.


3) Vale indicar também a propaganda mais sensacional de todos os tempos, da Folha de São Paulo de 1987.

“Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo…


4) A série “Trótski”, na Netflix, mostra a trajetória de Leon Trótski e seu papel na Revolução Russa de 1917.

A série retrata Tróstski como alguém impiedoso, disposto a sacrificar a tudo e a todos – e é o que acaba ocorrendo, a todos à sua volta.

É uma obra controversa.


5) A morte de Stálin. É uma obra em quadrinhos. Mostra episódios das últimas horas de Stálin. Retrata fortemente o medo que as pessoas ao redor sentiam.

6) Sobre a Coreia do Norte, há pouca informação. Uma fonte surpreendente é o romance gráfico PyongYang.

O desenhista Guy Deslile viveu por um tempo na Coreia do Norte. Ele era o desenhista chefe de um grupo de desenhistas norte-coreanos, na produção de animações para a TV francesa. A razão de contratarem desenhistas norte-coreanos era o custo baixo.

Guy descreveu inúmeras situações que viveu na Coreia. O fato de todas as paredes terem retratos dos grandes líderes Kim Il Sung e Kim Jong Il. Um tradutor coreano o acompanhar para todos os lugares que ia (e ele não poderia ir para qualquer lugar, somente os lugares autorizados). O fato de quase não haver iluminação nas ruas.

Ele era um dos pouquíssimos estrangeiros no país. Havia somente dois hotéis para estrangeiros, e no que ele estava, somente um dos andares funcionava.

São ilustrações belíssimas. Vale muito a pena.
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Maus, a história de um sobrevivente

Maus é a autobiografia de Art Spielgelman e a relação complicada com seu pai, Vladek Spielgelman.
Vladek era judeu na Alemanha de Hitler, e viveu na pele todas as dificuldades do holocausto.
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Os judeus foram desenhados como ratos (daí o título: maus em alemão = mouse = rato), os nazistas como gatos, os americanos como cachorros, os poloneses como porcos.
São muitas e muitas histórias contadas em detalhes impressionantes, algumas com rancor, outras mostrando as dificuldades que Vladek viveu, outras com os traumas que deixaram sequela.
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Tentarei descrever rapidamente algumas histórias.
  • A família de Art tinha boas condições financeiras antes da Segunda Guerra. Com a ascenção de Hitler, as coisas foram piorando: perseguições, restrições, fechamento de empresas judias.

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  • Uma das primeiras vítimas foram os mais velhos. Os avôs de Art tinham sido convocados pelos nazistas a ir para uma “casa de repouso” nazista. O panfleto mostrava velhinhos alegres vivendo uma vida em paz, digna. Os avôs se negaram a ir, e se esconderam até serem descobertos.

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  • Após os avôs serem pegos, a família de Vladek fugiu de um lado para outro. Se esconderam no teto de uma casa abandonada, e depois numa casa de poloneses. Teve um amigo de Vladek que ficou meses escondido num buraco debaixo de uma lixeira.

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  • Um primo de Vladek (Haskel) convidava oficiais judeus amigos, oferecia muita bebida, jogava e perdia muito dinheiro com cartas. Era a forma dele sobreviver.

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  • Um soldado nazista uma vez pegou o chapéu de um judeu e jogou para longe. Mandou ele buscar. Fuzilou o coitado, dizendo que evitou a fuga deste. Com isto, foi premiado com um fim de semana de descanso.
  • A família de Art tentou fugir para outro país, com a ajuda de atravessadores. Vladek era muito desconfiados, mas o que o convenceu foram cartas de parentes, que supostamente tinham fugido para a Polônia. Mas as cartas eram apenas um engodo, e todos foram presos pelos nazistas – e levados a campos de concentração.
  • Saber falar alemão e inglês representou a diferença entre a vida e a morte para Vladek. Com o decorrer da guerra, ficou evidente que os EUA iriam vencer. Um dos oficiais do campo de concentração começou a ter aulas de inglês com Vladek, oferendo proteção e privilégios em troca.

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  • Vladek é extremamente pão duro. Não joga fora nada, nem um copo de plástico descartável velho. Conta todo dia cada centavo que tem. Conta até o número de palitos de fósforo que tem.
  • Uma vez, Art deu carona a um negro. Vladek começou a xingar (em polonês) o negro (schwarzer) de tudo o que era jeito, e só parou quando este desceu no destino. Mas como pode alguém que sofreu discriminação racial fazer o mesmo?

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Os relatos acima são 1% do livro. Nem citei a mãe (Anja) e nem o irmão mais velho (Richieu) que viveram o holocausto com Vladek. Art Spielgeman está nu nesta obra. Não pelado no sentido físico, mas no sentido de que põe para fora todos os seus segredos mais íntimos.
Maus não é um livro político, nem foca Vladek como heroi. Muito pelo contrário: Art e Vladek cometem erros, ações incompreensíveis e comportamentos contraditórios, como todo ser humano.
Arnaldo Gunzi
Jun/2015