A Associação dos Burros Esforçados

Um burro esforçado

 

Hoje, no trabalho, um colega disse que eu era inteligente. Não concordei, disse que era um “burro esforçado”, embora bastante esforçado. E que era melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

 

 

Ele não entendeu, então estou escrevendo para explicar melhor a história.

 

No Instituto Tecnológico de Aeronáutica, onde fiz a graduação, existe a “Associação dos Burros Esforçados”.

 

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Segundo o estatuto da associação:

 

“Gloriosa associação daquelas infelizes criaturas de inteligência normal mas que, por se esforçarem muito, acabam passando no vestibular do ITA e tendo que conviver com os gênios da escola”.

 

Isto fica mais claro exemplificando o que significa “gênios da escola”.

 

  • Tinha um sujeito que era a perfeita definição de “sleep learning”. Chegava atrasado, dormia metade da aula. Mas, no pouco tempo em que estava acordado, apontava erros lógicos do professor e fazia perguntas não triviais. Mas isto só acontecia quando ele tirava a soneca. Quando prestava atenção na aula, não tinha ideias geniais.
  • Tinha um outro, que ficava o tempo todo jogando bola. Ou fazendo alguma outra atividade extra-curricular, como dar aulas no cursinho da cidade. Começava estudar para as provas meia-noite do dia anterior à mesma. E, como sempre, cravava o “L” habitual (nota máxima).
  • Tinha um que fazia a prova inteira de cabeça. Não escrevia uma linha. Só escrevia a resposta final. Até que, um dia, um professor implicou, e ele passou a registrar no papel os passos intermediários de seu raciocínio, para o pobre professor entender o que se passava em sua cabeça privilegiada.

 

Mas nem todos era assim. Tinham as pessoas normais, que estudavam muito. Que estudavam todos os dias. Que liam a teoria, faziam os exercícios, reliam a teoria, à exaustão. Que levavam livros para casa no final de semana para estudar. Todo este trabalhão para tirar uma nota um pouco acima do mínimo necessário, e olha lá. A gloriosa “Associação dos Burros Esforçados” era para estas infelizes criaturas. Segue a página com uma explicação oficial sobre o assunto.

 

http://www.aeitaonline.com.br/wiki/index.php?title=ABE

 

Também tinha o burro preguiçoso, mas este em raros casos ia para frente.

 

E também tinha o gênio esforçado… aí, sai de baixo.

 



 

A lebre e a tartaruga

 

Mas, passados muitos e muitos anos, finalmente sinto que é melhor ser a Tartaruga do que a Lebre do conto de Esopo.

 

Isto ocorreu ao acompanhar uma aula do prof. Clóvis de Barros Filho, sobre Ética. Há várias disponíveis no Youtube.

 

Na antiga Grécia, a ética aristotélica dizia que o ser humano deveria atingir a Virtude. Uma pessoa de grande habilidade num determinado campo deveria atingir o seu máximo potencial, seja em música, em política, matemática, etc. Os pobres coitados que não tinham tal privilégio deveriam ajudar os iluminados a atingirem os seus objetivos. Isto significava que o lugar do escravo era como um escravo mesmo. O aristocrata era o aristocrata, não deveria fazer algo mundano como trabalhar.

 

 

Isto mudou com o pensamento de Imannuel Kant. Na moral kantiana, que é a visão moderna do mundo, cada ser humano deve se empenhar em fazer o melhor possível dentro de seus limites.

 

 

 

Barros compara alguns futebolistas. No São Paulo de uns anos atrás, havia o Paulo Henrique Ganso no meio-campo. Extremamente talentoso. Elegante no domínio da bola, e com passes primorosos. Cabeça erguida, grande visão de jogo. Genial. Mas preguiçoso. Ficava parado olhando a vida passar… Não corria, não marcava, nada. Era o talento sem esforço.

 

Já outro jogador, o Aloísio “Boi Bandido”, era grosso que só. Ruim de bola, talento zero, caneludo. Porém, corria atrás da bola sem parar, dava carrinho, ajudava na defesa depois corria para o ataque, azucrinava os adversários. O talento nulo compensado pelo esforço total.

 

 

Se fosse para o técnico Muricy Ramalho tirar alguém, ele tirava o Ganso. E, se fosse para a torcida idolatrar alguém, o “Boi Bandido” era o mais popular. O esforço predominava sobre o talento.

 

Esta é a vitória de Kant sobre Aristóteles.

 

 

E também porque é melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

 


 

Veja também:

Gênios idiotas e Idiotas gênios

 

Confesso que colei – sobre a Disciplina Consciente no ITA.

 

Sobre Marcos Pontes, o ministro-astronauta-aviador-iteano.