A estratégia de sobreviver aos inimigos

No Japão da época dos grandes samurais, os três nomes listados abaixo se destacavam. Há uma piada antiga, que mostra a diferença de estratégia entre eles:

Tenho um passarinho que não quer cantar. Como você faria ele cantar?

  • Oda Nobunaga: Vou bater até fazer ele cantar
  • Toyotomi Hideyoshi: Vou fazê-lo cantar
  • Tokugawa Ieyasu: Vou esperar até ele cantar.

Este texto é sobre o terceiro, que utilizou habilidade, muita inteligência e paciência, para criar uma das dinastias mais bem sucedidas da história do Japão.

Mas, primeiramente, o contexto geral.

O Japão feudal dos anos 1500 e pouco era dividido em diversos feudos (daimyo), cada qual com um clã político militar que o controlava independente dos demais. Existia a figura do Imperador, mas era apenas figurativa / espiritual – algo parecido com o papa, no ocidente.

Oda Nobugawa, por volta de 1560, começou uma campanha brutal de unificação do Japão, conquistando militarmente os outros feudos. Ele foi o primeiro grande unificador, apelidado de “Rei-demônio”, por sua força militar. Porém, Nobunaga foi emboscado numa rebelião liderada por um ex-aliado, e morreu antes de terminar a campanha de unificação do país.

Oda Nobunaga – imagem da Wikipedia

Toyotomi Hideyoshi era o mais brilhante general de Nobugawa, e venceu a disputa para sucedê-lo. Hideyoshi, nos anos seguintes, terminou de unificar o Japão, ou formando aliados ou destruindo os daimyos rebeldes. Após a unificação total do Japão, por volta de 1590, ele lançou uma campanha mal-sucedida de conquista da Coreia, em 1592.

Hideyoshi era um grande estrategista, e possivelmente o seu clã dominaria a política do Japão por diversas décadas. Porém, ele enfrentou um problema biológico: dificuldade em ter filhos para sucedê-lo. Apesar de inúmeras concubinas, só no final de sua vida ele conseguiu ter um filho – mesmo assim, a legitimidade era suspeita.

Toyotomi Hideyoshi – imagem da Wikipedia

O grande Hideyoshi faleceu em 1598, após anos doente. O seu filho, Hideyori, tinha apenas 5 anos na época. A guerra na Coreia não fazia mais sentido, e as tropas retornaram ao Japão.

Tokugawa Ieyasu estava nas sombras esse tempo todo, aliando-se primeiro a Nobunaga e depois a Hideyoshi, e fazendo o seu próprio daimyo crescer. Quando Hideyoshi se foi, ele era o mais forte candidato à sucessão, e aproveitou a oportunidade: aliou-se a outros líderes poderosos, tirou o menino Hideyori da jogada e assumiu o poder de fato do país.

Tokugawa Ieyasu – imagem da Wikipedia

Tokugawa moveu os daimyos aliados para perto dele, geograficamente, e empurrou aqueles menos confiáveis para longe, criando uma zona de segurança. Também trouxe estabilidade política e militar, com sua habilidade administrativa. Recriou o título de Shogun, e não faltavam filhos para sucedê-lo.

E é por isso o título do texto. Nobunaga fez um enorme trabalho, Hideyoshi prosseguiu, mas quem colheu os frutos foi Tokugawa.

Tokugawa ficou na dele, quando tinha alguém mais forte, esperando a oportunidade e se preparando. Quando a oportunidade surgiu, por capricho do destino, ele a agarrou.

Tokugawa literalmente venceu por ter conseguido viver mais do que os concorrentes. Observe a comparação:

  • Nobunaga viveu 47 anos
  • Hideyoshi viveu 63 anos
  • Tokugawa viveu 73 anos
  • O shogunato Tokugawa durou mais de 250 anos

Utilizando habilidade e inteligência, Tokugawa foi maior do que uma pessoa apenas – ele conseguiu criar uma dinastia. O shogunato Tokugawa foi um dos mais bem sucedidos da história, durando de 1603 até 1868, onde ocorreu a revolução Meiji – rápida expansão industrial e militar do Japão.

Essa é a estratégia da paciência: não atacar quando a situação não estiver favorável, ir se preparando para quando tiver a oportunidade. Ser impaciente na preparação, porém paciente para esperar o momento de atacar.

Veja também:

https://en.wikipedia.org/wiki/Tokugawa_shogunate

https://en.wikipedia.org/wiki/Tokugawa_Ieyasu

https://en.wikipedia.org/wiki/Toyotomi_Hideyoshi

https://en.wikipedia.org/wiki/Oda_Nobunaga

Age of Samurai: Battle for Japan
https://www.netflix.com/title/80237990

As 36 Estratégias Secretas Chinesas

Criar algo do nada

“Criar algo do nada” é a estratégia 7, das 36 estratégias chinesas de guerra. Seguem dois exemplos.

Criar uma linhagem nobre do nada

O grande unificador do Japão, Toyotomi Hideyoshi, já tinha conquistado militarmente todo o território. Porém, no Japão, a autoridade do Imperador era muito respeitada como uma figura divina – pense no Imperador como um Papa, ao invés da noção usual de grande conquistador.

Para legitimar a sua autoridade, Hideyoshi precisava de um cargo equivalente a Primeiro-Ministro, ou regente, do Japão. Porém, sendo de origem camponesa, ele não tinha uma linhagem nobre para assumir o papel.

Assim, ele passou a cortejar a nobre família Fujiwara, oferendo mimos e paparicos. Depois de um tempo, surpreendentemente “descobriram” uma relação de antepassados antiga entre Hideyoshi e os Fujiwara. Com isso, Hideyoshi conseguiu ser nomeado regente do Imperador, legitimando a posição de domínio sobre todo o Japão.

Outro exemplo é a história da sopa de pedra. Um viajante, sem nada, chega numa cidade e fala que vai fazer sopa de pedra. Os habitantes, intrigados, lhe fornecem água, panelas e fogo. O viajante começa a cozinhar uma pedra, sem pressa, sob os olhares curiosos. Com o fervor da água, ele começa a pedir alguns ingredientes básicos: cenoura, sal. Depois, outros ingredientes mais elaborados: macarrão, carne, até que consegue uma excelente “sopa de pedra”.