De quanto dinheiro precisa uma pessoa?

Um dos meus escritores favoritos é o russo Lev Toltoi.

O pequeno livro que tenho em mãos contém 4 contos, com histórias simples e profundas. Comprei num sebo de usados, a um preço módico de R$ 5,00, uma par de anos atrás e só consegui ler com calma esta semana.

O conto que mais gosto é o de título “De quanta terra precisa um homem?”.

Note que “terra”, à época, era sinônimo de capacidade de produção, portanto riqueza. Nos dias de hoje, seria equivalente a um “De quanto dinheiro você precisa?”, ou “De quanto patrimônio você precisa?”.

Um resumo muito discreto é o seguinte. Um fazendeiro simples vivia com a família, porém com pouquíssima capacidade de subsistência. Um camponês disse que, se tivesse terra, não temeria nem o Demônio. O Demônio, ouvindo isso, resolveu pregar-lhe uma peça.

O camponês conseguiu ir prosperando aos poucos, primeiro com um terreno um pouco maior, depois aproveitou os lucros para arrendar um terreno maior e mais produtivo ainda, até que, finalmente, surgira uma grande oportunidade. Numa terra distante e pouco povoada, bastava pagar muito pouco para ter uma extensão enorme de terras planas e produtivas.

Os senhores da região mediam a área do terreno em hectares/dia. Mas, como assim, hectares/dia? Tudo o que o camponês pudesse percorrer e marcar, em um dia, seria dele, ao custo de apenas 1000 rublos. Ele apenas teria que partir e retornar ao mesmo local do início, antes do Sol se pôr.

Tomado pela ganância, o nosso pobre camponês correu o mais rápido que pôde, pela maior extensão possível, a fim de se tornar o senhor de um grande feudo. Porém, quando percebeu, o dia já estava acabando, e ele deveria retornar rapidamente, ou perderia tudo. Correu dando o máximo de si, pela vida, e, ao chegar ao local, o Sol, ao mesmo tempo, se pôs no horizonte.

Entretanto, o rapaz não viveu para aproveitar as suas posses. Devido ao esforço extremo, ele não conseguiu mais levantar da linha de chegada. Morto, necessitava apenas de um terreno suficiente para ser enterrado, respondendo ao título do conto.

E, nos dias de hoje, não necessitamos de Ferraris, barcos luxuosos e viagens ao redor do mundo. E nem de quinquilharias que de vez em quando compramos, ou de restaurantes portentosos com vinho chileno edição especial. Podemos viver felizes, com um padrão razoável, sem exageros. E, só temos o hoje, o agora, para sermos felizes, para aproveitar a jornada tal qual a temos agora.

Como está escrito no templo de Apolo, em Atenas: “Nada em excesso”.

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