​ Por que os japoneses tiram o lixo do estádio?

Ou: o que um velho pensador de 2000 anos atrás, um tal de Confúcio, tem a ver comigo?
 

A cena dos japoneses tirando o lixo dos estádios ficou famosa durante a Copa do Mundo de 2014, aqui no Brasil sil sil.

  

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Mas eles fazem isto porque são educados? Pode-se dizer que sim. Mas por que a educação deles chega neste nível?

  

Os brasileiros (a maioria) também são educados. Os europeus também são educados. Os australianos, também. Mas nenhum deles tem a cultura de tirar o lixo do estádio.

  

Os japoneses fazem isto porque pensam muito no coletivo, no social, no todo. Parte-se da ideia de que eu faço parte de uma comunidade de pessoas semelhantes. Portanto, limpo o lugar para entregar o mesmo nas mesmas condições que encontrei para outra pessoa, e porque ela vai fazer o mesmo comigo. Portanto, é costume deixar os lugares limpos: escola, salas de reunião, ônibus. E por todo mundo fazer isto, todo mundo se sente na obrigação de ajudar também, num ciclo virtuoso.

 

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Legal. Então, se eu tentar fazer isto no Brasil, vai dar certo? Provavelmente, não. Porque é muito mais profundo que isto. As ideias não surgem do nada. A limpeza é apenas uma ponta visível da influência do confucionismo na sociedade japonesa.
 


A influência do confucionismo
 
Confúcio nasceu na China (em 500 a.C.) e influenciou fortemente a cultura oriental. É uma influência comparável à Aristóteles no ocidente: mesmo após tanto tempo, as pessoas de hoje ainda agem sob os preceitos dessas ideias, e nem sabem da onde elas vêm. Este é o poder das ideias.

 

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Os pilares do confucionismo incluem a valorização dos estudos, respeito aos outros, humildade, frugalidade, valorização de tradições.

  

Quando recebemos um presente, devemos devolver algo com valor equivalente. Quando alguém nos ajuda, ficamos em débito e um dia vamos ajudá-lo.
 
Devemos viver uma vida simples, frugal, sem ostentações. Seguir à risca a regra de ouro: não fazer a outros o que não faríamos a nós mesmos. Portanto, estamos de acordo com o confucionismo ao sermos humildes para catar o lixo, assim entregando ao próximo colega um ambiente igual àquele que nos foi entregue.

  

A valorização dos estudos também é algo muito forte no Japão. Há uma concorrência violenta para entrar nas melhores faculdades. Ninguém ali tem vergonha de dizer que estuda muito, e que gosta de estudar. É muito mais provável que o estudante deixe de jogar bola para estudar, do que o oposto. No Brasil, o inverso é verdadeiro. Esperto é aquele que passa sem estudar, que tira o mínimo e ainda colando. Esperto é o que faz gol com a mão em impedimento.

  

Portanto, a poesia clássica pichada no banheiro dos cursinhos também é devida à influência do confucionismo: “Enquanto você está cagando, tem um japonês estudando”.

 
Enquanto em alguns lugares do mundo o esperto é quem recebe sem trabalhar, no Japão o mais valorizado é o que trabalha sem receber. O trabalho é tão valorizado e visto com orgulho, que tem até uma palavra especial para isto: “gambaru”. É superficial traduzir “gambaru” como “trabalho duro”. O trabalho é meio que uma missão, é o mínimo que deve ser feito em retribuição ao que o universo nos forneceu.
 

Outro pilar é o do respeito à hierarquia: respeitar o mais velho, as autoridades. Respeitar os rituais da tradição. O filho respeitar o pai, a esposa respeitar o marido, o filho mais novo respeitar o mais velho. Valorizar muito a família, mesmo aquele primo que não tem nenhuma afinidade contigo. Isto se reflete em um monte de formalidades: nomes especiais para o filho mais velho, linguagem bastante formal quando me dirijo a alguma autoridade, etc.
 
Esta tradição de hierarquia é tão forte que chega até a prejudicar a inovação. Isto porque o novo surge sobre a contestação do antigo. É a “destruição criativa” como diria o economista austríaco Joseph Schumpeter. Mas, como destruir uma ideia antiga sem desrespeitar o meu querido avô já falecido, que era adepto desta ideia?

  

A China também tem forte influência confucionista, mas o Japão é mais radical em alguns pontos, como o da limpeza.

  


Por que isto tudo é importante?
 
Ok, e daí que esses alienígenas tiram o lixo do estádio? E daí que há um monte de tradições, hierarquias e formalidades?

 

Primeiro, que algumas das boas ideias deles podem ser aproveitadas. É o poder das ideias, formando um ciclo virtuoso, conforme já dito. Já pensou se todos os brasileiros que recebem sem trabalhar fizessem o oposto, trabalhassem sem receber? Se cada um contribuísse um pouco mais para o todo?

  

E segundo, que este é um mundo cada vez menor. É cada vez mais fácil entrar em contato, seja profissionalmente, seja socialmente, com algum colega japonês, chinês ou coreano.

  

E, quando isto ocorrer, é muito mais provável que um brasileiro ofenda um japonês do que o oposto. E isto vai ocorrer sem querer. O brasileiro simplesmente não vai entender o que fez de errado. Às vezes, pode ter sido algo tão simples quanto… tirar o lixo da sala de reuniões.

Links:
Recomendo o excelente audio livro (em inglês, lógico), sobre diversos pensadores do oriente:

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