Elétrico e Eletrônico

Quando eu fazia curso técnico de Telecomunicações, perguntei a um amigo meu que manjava muito: “Qual a diferença entre eletricidade e eletrônica?”.
 
Ele respondeu “Eletricidade lida com resistores, capacitores, indutores. Eletrônica lida com diodos e transístores”. Uma resposta muito boa, suficiente para a época.

 

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Passados 20 anos, posso responder a pergunta de outra maneira. Eletricidade lida com coisas do mundo físico, Eletrônica lida com informação.

Algo elétrico tem que ter potência para movimentar coisas que existem: mover o motor da batedeira, girar a centrífuga, secador de cabelos, etc. E, para isto, precisa de fontes, resistores, capacitores, indutores, cabos: gerar, controlar e aplicar a energia.

 
Já a eletrônica tem haver com controlar informação. Um transístor é um semi-condutor de silício que serve basicamente como uma chave. Pode estar ligado ou desligado. Se está ligado transmite corrente, se não está ligado, não transmite. Zero ou Um. Só isso. E é por isso que estamos vendo uma miniaturização crescente dos dispositivos eletrônicos: se o transístor serve apenas para controlar informação, independente da potência, quanto menor melhor. O limite é a confiabilidade que o dispositivo deve apresentar. A evolução dos dispositivos vem seguindo mais ou menos a Lei de Moore. Vai chegar um tempo que cada transístor vai ser de nanômetros, e que dê para contar os átomos dele.
 

Lei de Moore:

https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2014/12/07/a-lei-de-moore-e-o-futuro-da-apple/

 


 

A informação só precisa assumir os valores 0 ou 1. Qualquer número pode ser descrito em notação binária. Qualquer letra ou símbolo pode ser codificado em números, e daí em 0 ou 1. Qualquer música pode ser decomposta em pedacinhos, cada pedacinho pode ser medido e virar número, e daí virar 0 ou 1. O mesmo é válido para qualquer foto ou vídeo ou informação mensurável.


 

O domínio da eletricidade no final do séc XIX, por Nicholas Tesla, Thomas Edison, George Westinghouse, gerou uma revolução no mundo: a corrente alternada, a lâmpada elétrica, motores elétricos, etc.

 
O domínio da eletrônica no final do séc XX, por companhias como Intel, AMD, IBM, gerou uma revolução exponencialmente maior no mundo, permitindo a invenção de computadores poderosos. Computadores tão poderosos que conseguiam abstrair o hardware do software, separar as coisas através de um sistema operacional. E o software gerou uma revolução da informação maior ainda, através de empresas como Microsoft, Apple, Google – são pura informação, nada mais do que isto!

 

Portanto, o seu chuveiro nunca vai evoluir tanto como o seu celular, porque o primeiro é elétrico, e o segundo é informação!

 

Qual a importância de um projeto recém-nascido?

Um cientista estava mostrando um fato curioso. Quando ele passava eletricidade por um fio enrolado, uma agulha de metal era atraída para este fio.

 

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Um sujeito na plateia perguntou: “Qual a utilidade disto?”

O cientista respondeu: “Qual é a utilidade de um recém-nascido?”


 

E qual a utilidade de um fio elétrico atrair uma agulha?
Este simples fato curioso tem raízes muito profundas: a possibilidade de conversão entre forças elétrica e magnética. Isto deu origem a uma tremenda revolução na eletricidade. Eletroimãs funcionam assim, acionando ou desativando a eletricidade, e portanto, o imã. Já as usinas hidroelétricas fazem o contrário: a força da água movimenta turbinas geradoras, que distorcem um campo magnético, gerando eletricidade do outro lado. Milhares de aplicações surgiram da evolução de ideias recém-nascidas que, no começo, eram apenas curiosidades.

 

Nem tudo tem uma utilidade imediata. Um projeto novo pode ter um tempo de maturidade grande, e não deve ser cobrado como se cobra algo já bem estabelecido.

 

“Todo novo projeto é um recém nascido e pertence ao berçário”, diz o Mestre Peter Drucker, no livro The Daily Drucker.

 

Arnaldo Gunzi

Ago 2015