Sobre criação, Dionísio e Pigmaleão

Após escrever mais de 1000 posts neste espaço (e uns 500 em outros), posso afirmar, do meu método de escrita.

Não tenho um objetivo claro, um plano bem definido. Muito menos, um público-alvo, uma persona que quero atingir. Nada aqui foi projetado tendo em mente um canal específico, nem contém propositalmente palavras-chave pesquisadas para bombar em SEO. Tudo isso é baboseira. Um texto escrito assim seria chato, burocrático, sem vida, o pior texto do mundo, falso, artificial.

O método é caótico. Começo com uma leve ideia da mensagem que quero transmitir, e um ou dois tópicos de apoio. O texto vai ganhando vida, linha por linha, quase que por conta própria – é como se as palavras quisessem ser escritas, e eu fosse apenas o dedo que imprime a mensagem no papel.

Nem todas ideias viram texto, nem todos embriões ganham vida – há um processo automático de eliminação – é como se o rascunho falasse, “não, não está certo”.

As que ganham vida são, como dizia Nietzsche, escritas com sangue, e devem ser lidas com a alma.

Ainda citando Nietzsche, o método do plano bem definido seria representado pelo deus grego Apolo, da ordem, da beleza, de tudo o que é certinho.

O contraponto é o deus Dionísio, do caos, da feiúra, da embriaguez, da êxtase inebriante.

Dionísio é o senhor da criação. As grandes ideias vêm do caos.

Outra lenda grega é a de Pigmaleão. Um escultor, que fez uma estátua de uma mulher tão perfeita, que ele se apaixonou pela própria criação. Ele ficou tão perdidamente louco de amor que Zeus se apiedou e deu vida à estátua.

E assim são as grandes ideias. Todo criador deve ser como Pigmaleão. Todas as grandes ideias têm potência, têm tesão, têm vida própria!

“Viver não é necessário; o que é necessário é criar.” – Fernando Pessoa

Conhecimento Tácito x Explícito

Para cada unidade de conhecimento explícito em livros, há 1000 unidades de conhecimento tácito, não escrito em lugar algum.

O conhecimento está nas pessoas – e pouquíssimas pessoas têm o talento, a paciência e dominam os meios para se comunicar de forma explícita, seja por texto, vídeo ou artigo.

As ideias estão no ar.  

Um erro comum é achar que as ideias explícitas inspiraram as ações efetivas. Na verdade é o contrário. Normalmente, a ação inspira o registro.

Muitos dos grandes pensadores da história são bons escribas e bons analistas.

Não foi depois que Adam Smith escreveu “A riqueza das nações”, em 1776, que as economias do mundo passaram a enfatizar o livre-mercado, a mão invisível e a divisão do trabalho. Tudo isto já estava acontecendo, e Smith foi o primeiro que analisou e registrou o mesmo.

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O mesmo ocorre com o pensador italiano Nicolau Maquiavel, nos anos 1500. Não foi ele que inventou o conceito de que “Os fins justificam os meios”. Ele era um grande estudioso e pesquisador histórico, e se baseou fortemente nos poderosos de sua época (como César Bórgia) e de épocas antigas para escrever os seus tratados políticos.

Os acadêmicos se fecham em seu mundo do conhecimento explícito, deixando para trás um universo de informações tácitas, do mundo real.

 


 

A espiral do Conhecimento

 

Gosto muito do ciclo SECI de gestão do conhecimento, de 2003, dos autores Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi. Este ciclo reflete quase exatamente as ideias acima.

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Eles dividem o conhecimento em quadrantes.

  • Tácito – Tácito: Uma pessoa ensinando outra, ou uma pessoa aprendendo com a convivência num meio. Aprendemos a falar imersos numa sociedade, e não através da leitura dos livros de gramática.
  • Tácito – Explícito: são os Adam Smiths que reportam o conhecimento tácito de forma explícita. Ou os consultores de empresa que analisam um business e geram relatórios e planos de ação. Ou os professores que escrevem os livros didáticos.
  • Explícito – Explícito: é o mundo das combinações e informação, gerando outras informações e insights. Manuais, livros, planos. O mundo acadêmico mora aqui.
  • Explícito – Tácito: é a internalização do conhecimento, estudar, ler, aprender.

 

Na verdade não é apenas um ciclo. É um ciclo virtuoso, é uma espiral – a espiral do conhecimento.

Conhecimento tácito sendo externalizado, explicitado, possibilitando a combinação de outras análises, facilitando que outras pessoas internalizem o  mesmo, gerando um conhecimento tácito melhor e mais avançado, e assim sucessivamente, e de forma crescente.

A minha contribuição é no tamanho dos quadrantes. O quadrante tácito-tácito é muito maior do que os demais. Representá-lo com a mesma área no quadro subestima o tamanho e a importância do conhecimento tácito.

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O mundo explícito-explícito é o domínio do deus Apolo,  da ordem, do conhecimento perfeito, da beleza, do rigor exato.

Já o tácito-tácito é  o domínio do profeta Dionísio, o do caos, o das combinações esparsas, da embriaguez, do bate-papo informal. É onde nasce uma supernova, parafraseando o grande Friedrich Nietzsche.  É no tácito-tácito onde realmente ocorrem as revoluções.

 Para fazer revoluções, mergulhe no mundo tácito.

 

 

 


Anexo: A biblioteca de Lucien

A biblioteca de Lucien contém todos os livros não-escritos do mundo. Todas as ideias que nunca foram para o papel, todos os sonhos que desapareceram da memória, todos os projetos engavetados.

 

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Um único detalhe: esta biblioteca existe apenas no reino dos sonhos, do personagem Sandman, de Neil Gaiman.