Uma das aulas do brilhante físico Richard Feynman, vencedor do Prêmio Nobel e um dos maiores “explicadores” do século passado, começa com uma pergunta: “Como você descreveria a altura de um homem para um marciano?
Pode parecer (e é) uma pergunta bastante inusitada… mas também pode servir como um grande modelo mental. Afinal, não sabemos exatamente o que um marciano conhece, o que ele vê, nada. Somos obrigados a questionar as nossas hipóteses, voltar ao básico do básico do conhecimento e ir construindo em cima disso.
Feynman começa do início: você estabelece comunicação com Marte. No início, são só alguns sinais desconexos, mas não aleatórios, o que mostra intenção de comunicação do outro lado. Com o tempo, vocês vão se entendendo, com um conceito dos números 1, 2, 3, … algum tempo depois, desenvolvem uma forma de alfabeto, o que permite uma comunicação mais complexa.

Com a melhoria da comunicação e tempo de contato suficiente, é possível evoluir para conhecimentos básicos da Matemática e da Física.
Voltando à pergunta, não podemos descrever uma altura de uma pessoa em metros ou em pés, porque obviamente o Marciano não vai conhecer uma unidade de medida arbitrária da Terra. Também está fora de cogitação enviar uma amostra de um metro para Marte, a não ser que o Elon Musk consiga colonizar o universo com a SpaceX, e mesmo assim, há a questão de corrigir o tamanho com variações de temperatura e pressão.
Supondo que as leis da Física sejam iguais em todo o Universo, e essa sim é uma suposição mais confiável do que a palavra do Elon Musk, Feynman sugere descrever a altura de uma pessoa em termos de um raio de um átomo de um elemento como o Hidrogênio, que é o mais simples possível, com um próton e um elétron.
Dessa forma, 1,70 m seria equivalente a alguns trilhões do tamanho de um átomo de Hidrogênio. Não vou fazer a conta porque o que interessa é o conceito, não o número: voltar ao básico universal comum entre os elos, e construir o argumento a partir disso, e não supor que ele vá ter a mesma base de conhecimento que você.
Ação prática: Como você explicaria o PowerPoint do seu projetinho, ou o dashboard do seu Power BI para um Marciano?
Agradecimento especial ao amigo Cláudio Ortolan, que me presenteou com a coleção completa do Feynman Lectures há alguns anos atrás.
Trilha Sonora: Alô alô Marciano, Elis Regina.
Curioso o refrão da música: “Pra variar, estamos em guerra”
