Sansão era um cavalo de tração e intelecto. Trabalhava duro na fazenda, e seu perfil era técnico: passava horas resolvendo problemas complexos e desenvolvendo soluções para o pessoal de produto. Era um bom lugar para se trabalhar, com poucos níveis hierárquicos, simples e funcional.
Tudo mudou quando a direção decidiu adotar “as mais modernas práticas gerenciais do mercado” e empossou o Sr. Porco como CEO. Seu discurso de posse foi um ode à modernidade e à produtividade máxima.
A “modernidade” começou alguns meses depois: uma onda de cortes. Os trabalhadores mais velhos, próximos à aposentadoria, e aqueles alocados nas fronteiras distantes da fazenda foram os primeiros a cair.
No início do ano seguinte, o Sr. Porco inaugurou o ciclo com a retórica de que seria um ano difícil, de orçamento enxuto. Todos deveriam dar o sangue. “Precisamos ter sentimento de dono”, repetia ele.
Enquanto o cinto apertava na base, a estrutura inchava no topo. Surgiu uma Diretoria Estratégica para o Sr. Raposo, uma figura hábil na política de corredores. A área de tecnologia agora pertencia ao Sr. Papagaio, que tagarelava sobre as maravilhas que a Inteligência Artificial e outras inovações disruptivas trariam. Já a operação ficou a cargo do Sr. Javali, famoso por bater qualquer meta, mesmo que precisasse atropelar meia dúzia de colegas pelo caminho.

A empresa também decidiu se “verticalizar”. O que antes era uma área única, fundiu-se com outras duas, exigindo um novo gerente. E acima desses gerentes, um gerente-geral.
O Sr. Porco tinha um modus operandi: criava o posto de gerente-geral, deixava a vaga aberta por um ano e nomeava três gerentes como candidatos. A regra não dita era clara: ao final do ciclo, um seria promovido, um seria demitido e o terceiro estagnaria.
A área financeira era a mais importante. A de comunicação externa era a segunda mais importante, afinal, todo o mundo deveria saber o quão boa, justa, inovadora e ESG era a empresa… Para tal área, a senhora Pavão foi a escolhida, por ser eloquente em sua abordagem.
Quando chegou a época do dissídio, o reajuste de Sansão veio abaixo da inflação. A justificativa? A prioridade era “gerar valor ao acionista”. Sansão tinha a honrosa missão de carregar esse valor nas costas.
Estoques para que? É um custo de capital desnecessário. E a IA do Sr. Papagaio vai predizer problemas. Podemos ficar com o mínimo possível.
E também dá para espremer fornecedores. Renegociar preços, eventualmente trocando por algum concorrente mais barato. Esticar ao máximo o pagamento, enquanto recebemos os insumos hoje. O Sr. Porco viu essa estratégia num livro de um famoso empresário e quis copiar.
Enquanto isso, o Sr. Papagaio e seus novos contratados — todos papagaios de plumagens coloridas — implantavam um projeto faraônico de modernização. Agora tudo seria AI-driven, cloud-native, baseado nas melhores práticas. O estranho para Sansão é que sua labuta continuava manual, arcaica e com carga dobrada.
Para piorar, os amigos de Sansão começaram a vazar. O sábio macaco Rafiki, que discordava dos novos rumos, antecipou a aposentadoria. Clover, uma égua fera na área de P&D, rapidamente se realocou na fazenda vizinha. A Nala, de sustentabilidade, também foi para o concorrente.
Novo ano, novo reajuste zero para os cavalos. Curiosamente, a diretoria do Sr. Raposo havia dobrado de tamanho, repleta de raposinhas assumindo cargos estratégicos.
O índice de acidentes de trabalho disparou. A solução do Sr. Porco? Dividir a área de segurança em regionais e colocar uma raposa como gestora de cada uma. Teria o aumento de acidentes relação com a produtividade a qualquer custo imposta pelos javalis? “Jamais”, garantiam as raposas em seus relatórios. Era apenas “comportamento inseguro” dos operadores.
E assim os anos passaram. A única mudança real era que os papagaios traziam uma nova tecnologia revolucionária do Gartner a cada três anos, prometendo que desta vez tudo mudaria.
Nem tudo era ruim, afinal. Depois de 15 anos de bons serviços, Sansão ganhou um lindo chaveiro!

Com o tempo, Sansão, só via seu salário ser devorado pela inflação e seu trabalho aumentar.
Até que, num belo dia, nosso herói cansou. Sem alarde, pediu as contas e atravessou a cerca para trabalhar na fazenda vizinha. Lá, encontrou um salário compatível com sua entrega, reencontrou velhos amigos (como Clover) e redescobriu um ambiente saudável.
À antiga fazenda, restou apenas um desejo: boa sorte com seus gestores porcos, javalis, raposas e papagaios. Eles que se entendam.
(Inspirado em Animal Farm de George Orwell)

Simplesmente genial!
Claudio Ortolan
CurtirCurtido por 1 pessoa