10.000 sapatos para o pé esquerdo e zero para o pé direito

Conta uma história que, na Rússia comunista, uma fábrica de sapatos tinha uma meta de produção, de digamos 10.000 sapatos por mês.

Um dia, uma das máquinas quebrou, e agora eles só conseguiam produzir o pé esquerdo do sapato. Eles não iriam conseguir consertar a máquina sem perder a meta, o que significava castigo para todos: o diretor seria executado, o gerente iria para trabalhos forçados na Sibéria, o supervisor seria rebaixado para um agricultor numa fazenda coletiva, etc…

Qual foi a solução adotada? Ora, eles eram cobrados pelo volume de sapatos produzidos. Deveriam produzir 10.000 sapatos, e foi o que fizeram: produziram 10.000 sapatos para o pé esquerdo, e zero sapatos para pé direito, e consequentemente zero pares úteis de sapatos.
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Esta história é só uma ilustração da Lei de Goodhart: “Quando uma métrica torna-se uma meta, esta deixa de ser uma boa métrica”.

Quando se olha somente para um número e tenta-se atingi-lo a qualquer custo, valendo jeitinhos cá e lá, o tiro tende a sair pela culatra. Afinal, a regra básica da Economia é: “Pessoas respondem a incentivos”.

Uma das formas de se evitar isto é não ter metas tão rígidas assim, deixar uma margem. E não ter metas focadas num único objetivo local.


Se a história acima é apenas ilustrativa, a história a seguir não é.

O “Grande Salto para a Frente”, ocorreu entre 1958 e 1961 na China comunista, sob o comando de Mao Tsé Tung, e foi um dos episódios mais tristes da história da humanidade, resultando em mais de 27 milhões de pessoas mortas por inanição.
Foram várias as iniciativas catastróficas dos comunistas, mas vamos focar em duas.


Produção de Aço
Uma das metas do “Grande Salto” era a de fazer a China ter a maior produção de aço do mundo. Enquanto a Inglaterra e os Estados Unidos tinham grandes usinas siderúrgicas para a produção de aço, a estratégia chinesa era de ter usinas de quintal, pequenas o suficiente para serem operadas por camponeses simples, em todo o território chinês. Mao Tsé implantou milhares dessas micro-usinas, e para cada uma delas havia uma meta rígida de produção de aço.

 

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Fornos de quintal

Para produzir aço, é necessário minério de ferro e carbono. Minério de ferro tem que ser extraído de minas. O carbono vem da queima de florestas. Mas minério de ferro não existe em qualquer lugar, o que obrigou os camponeses a utilizar sucata. E isto também causou uma devastação das florestas, utilizadas para a produção de aço. Com o passar dos meses, a sucata foi acabando, assim como as florestas. Mas não as metas. Devido a números irreais, inflados por burocratas, supostamente a política de produção de aço em micro-usinas estava dando muito certo, o que fez com que as metas fossem aumentando, mês após mês.

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Os camponeses, sem sucata para alimentar os fornos, passaram a usar qualquer produto que tivessem em casa e que fosse de metal: a enxada para cultivar o solo, maçanetas das portas, garfos e facas. Também sem florestas para queimar, passaram a queimar o que tinham: cadeiras, portas, mesas. Ou seja, passaram a destruir valor, a fim de cumprir a meta imposta pelo governo: transformo o meu ferro de passar roupa em aço, e lamentavelmente um aço de péssima qualidade, pela produção ser caseira.


Agricultura
Outra das metas era de revolucionar a agricultura. Isto seria conseguido com novas técnicas de plantio, muito esforço da população, e caça a pássaros que atrapalhem a agricultura. Esta nova técnica de plantio era a de plantar a semente bem fundo, a até 2 m de profundidade. O esforço da população era a de plantar, cuidar, e também a de ficar espantando os pássaros.

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Camponeses trabalhando à noite

Primeiro, que esta técnica de plantio não funcionou, pura e simplesmente. Entretanto, ninguém tinha a coragem de dizer isto a Mao Tsé, sob pena de perder a cabeça. O que os burocratas faziam era reportar números fictícios, dizer que a agricultura estava muito mais produtiva do que antes. E isto fazia com que a meta de produção agrícola subisse, mês após mês.

Houve uma grande redução no número de pássaros devido a esta caça desenfreada a eles. Mas os pássaros comem outros insetos, que acabaram proliferando desenfreadamente, atacando o pouco da produção agrícola que tinha sobrevivido à desastrosa técnica revolucionária de plantio.

Diante das altas metas de produção, é natural que os camponeses protestassem. Mas os oficiais comunistas eram rígidos, chegando a torturar e matar os que não conseguissem cumprir a cota de produção.

 

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O resultado disto foi uma das maiores fomes já vividas por um país. Uma devastação maior do que uma guerra provocaria.


Este é o exemplo mais triste que conheço da Lei de Goodhart. Portanto, critico muito quem olha só para números e metas, e cobra mais números e mais metas, e tudo isso sem sair do seu escritório.

Há inúmeras fontes na internet sobre o “Grande Salto para a Frente”: vídeos, textos, depoimentos, fotos. Vale a pena conhecer mais.

https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Leap_Forward

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