Assimetria de resultados, termoelétricas e heróis esquecidos

O ano é 2015. O Brasil sofre uma intensa crise hídrica, uma das piores de sua história. O nível dos reservatórios cai, as hidrelétricas não conseguem mais produzir tanta energia quanto antes. É necessário ligar as caras termoelétricas, movidas a carvão. A conta de luz sobe, todo mundo reclama: “Deveriam ter feito investimento em hidrelétricas”, “Termoelétricas são altamente poluentes”. Mas o Brasil não para. Não há apagão. A crise hídrica foi superada sem maiores traumas.

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Notícia do portal G1

 

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El País

 


 

O ano é 2001. O Brasil passa por uma crise hídrica. O nível dos reservatórios cai. Não há termoelétricas. Ocorre o que ficou conhecido como “Apagão”. Sem energia para suportar toda a atividade industrial e residencial, é necessário economizar: diminuir a produção industrial, economizar no banho, desligar o ar-condicionado. Todo mundo reclama: “Deveriam ter se preparado para isto”, “O Brasil tomou um prejuízo de vários bilhões”.

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Planejamento

Fazer um bom planejamento significa antever oportunidades e prevenir gargalos futuros. Significa ir resolvendo problemas antes mesmo destes acontecerem.
Isto inclui reconhecer que não é possível planejar tudo: o futuro é incerto, sempre será uma incógnita. Se não é possível prever o futuro, nem planejar tudo, o que fazer? Ter o plano de ação traçado, alguns planos B na manga, e fazer seguros para evitar grandes impactos.

Um seguro é uma opção: pago um valor para comprar o seguro, e tenho a opção de usá-lo ou não. É igual ao seguro do carro: compro o seguro pagando um prêmio, digamos R$ 2.000. Se não usar o seguro em um ano, perco os R$ 2.000 – poderia ter usado este valor não desprezível para fazer alguma outra coisa. Mas, se for necessário usar o seguro, isto pode me salvar de um prejuízo de digamos R$ 40.000.

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O mundo não é linear. Há uma extrema assimetria nos resultados possíveis: se compro o seguro, fico R$ 2.000 mais pobre, se não compro, eu posso ter um prejuízo extremo.  A vida está sujeita a eventos extremos, de baixíssima probabilidade, mas impactos enormes. Isto é o que o pensador Nassim Taleb popularizou com o termo “Cisne Negro”.

 

Um seguro pode ser algo simples, como guardar uma reserva de dinheiro, preservar um recurso estratégico, saber o número de telefone de um amigo quando estiver no exterior.

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Nos anos 2000, após o apagão, o Brasil comprou um seguro: a construção de usinas termoelétricas. Investiu milhões para construir, e desde então arca uma taxa anual pela opção da energia: paga as termoelétricas para ficarem paradas, sem fazer nada. Muita gente criticou: “termoelétricas no Brasil, um país tropical com tantos rios? Deveria é ter mais hidroelétricas!”. “Pagar para não fazer nada? Isto é para quem é amigo do governo.”

Eis que, em 2015, o Cisne Negro da crise hídrica surgiu. O Brasil acionou o seguro: as termoelétricas. Mas não houve apagão. Não houve redução absurda na capacidade produtiva. Num país muito mais rico e complexo do que no ano 2000, os prejuízos seriam de centenas de bilhões, talvez na casa dos trilhões de reais.

Ninguém gostou que a conta de luz ficou mais cara, mas isto é porque as pessoas  não conseguem enxergar as alternativas. E a alternativa  de não pagar mais caro seria o apagão: não ter energia. É impossível controlar as chuvas e fazer chover simplesmente porque eu quero que chova.

Um dos maiores problemas do planejamento é o de que nunca terá o seu trabalho reconhecido. Se realmente antever uma oportunidade que permita que a empresa a explore, quem vai colher os frutos futuros são os que estiverem no comando da empresa neste momento. Se o planejamento resolver um problema futuro, este não mais será um problema: vai ficar no universo do que poderia ter sido, um universo que não existe.

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Segundo este “especialista”, em artigo de 2003, o Brasil não precisava de termoelétricas porque “a população estabeleceu padrões de consumo elétrico mais eficientes”

 

Mais um exemplo. Lembro que, quando eu era bem jovem, ninguém usava cinto de segurança. Os meus pais não usavam, os meus tios também não, muito menos eu. Desde então houve a educação e mudança de mentalidade em relação ao cinto de segurança. Aliado a uma simples lei, a de multar quem dirigir sem cinto, e hoje o comum é usar o cinto de segurança. Virou até automático: entro no carro, coloco o cinto e nem percebo que estou fazendo isto. Este simples medida de segurança com certeza salvou milhares de vidas desde então. Mas não sabemos quantas pessoas isto salvou, nem quem salvou, e muito menos quem foram as pessoas que lutaram para implantar esta lei e educar os cidadãos sobre os benefícios do cinto. São verdadeiros heróis esquecidos.

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Conclusão

Ninguém se lembrará daqueles que compraram o seguro para evitar a incerteza do futuro. Vão até criticá-los, por terem que pagar mais pela compra da opção. Porém, o que move pessoas assim são a certeza do dever cumprido, de que o futuro é imprevisível e que Cisnes Negros negativos podem ocorrer e quebrar a mais sólida das empresas.

 

Nota: “Roubei” o exemplo das termoelétricas de uma conversa com Cláudio Ortolan.

 

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