Como mentir com gráficos

Gráficos são uma forma importante de representar informação. Só que os dados nunca são só dados, sempre há uma narrativa que pode ou não ser reforçada.

Cinco dicas de “como mentir com gráficos” – ou melhor, como evitar ser enganado por números.

Os dados são os mesmos, só muda a forma de apresentar.

Para qualquer dos casos, o analista deve ter domínio do que está fazendo.

Outro fator importante é a transparência: disponibilizar as bases e critérios, a fim de que os mesmos possam ser auditados por parceiros.

Recomendações de livros interessantes:

Preparados para o risco – Gerd Gigerenzer. É um  nos ensina a questionar os números, e com isso, tomarmos boas decisões.

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Storytelling com dados: Como transmitir sua mensagem com dados.

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Árvores Fractais

Escrevi uma rotinazinha para desenhar fractais em formato de árvore.

Vide em: https://asgunzi.github.io/ArvoreFractal/arvores.html

A cada vez que rodar, uma árvore com parâmetros diferentes será gerada.

Um fractal é uma estrutura matemática com padrões repetidos em escala menor no desenho todo.

Como é uma estrutura autossimilar, é só fazer um código recursivo, relativamente simples. Portanto, é possível criar uma forma de enorme complexidade a partir de regras simples.

No caso da árvore, o padrão é: inicie com um aresta qualquer. Ao final dela, acrescente três arestas com metade do raio, separadas entre elas em 30 graus.

Ao final de cada uma dessas três arestas (ou galhos) novos, acrescente mais três galhos.

E assim sucessivamente:

Há uma quantidade infindável de fractais possíveis de serem feitos dessa forma – só me falta criatividade para fazer algo mais bonito.

Há inúmeros padrões fractais na natureza. Como uma planta “sabe” a programação para virar uma forma de enorme complexidade, como um brócolis? A resposta é que ela não sabe, apenas vai seguindo padrões simples e autossimilares, até chegar ao formato final.

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/11/cardioides-circulares

Como a maçã virou abóbora

No livro “After Steve: How Apple Became a Trillion-Dollar Company and Lost Its Soul”, o jornalista Tripp Mickle, do Wall Street Journal, investiga o que vem acontecendo com a Apple pós Steve Jobs: virou uma máquina de fazer dinheiro, mas perdeu a magia.

O livro foca em duas pessoas: o criativo designer Jony Ive e o eficiente novo CEO Tim Cook, e como o primeiro acabou definhando em importância até a sua saída.

A Apple, com Jobs, destacou-se por estar na intersecção artes e tecnologia.

Nenhum nome representa tanto o lado “arte” da Apple quanto Jony Ive, que era considerado como o “parceiro espiritual” de Jobs. Ele começou trabalhando com Jobs no projeto do iMac. Se deram muito bem, desde então. Se a Apple precisava de um hit, Ive entregava, independente de custos: o design na frente das finanças.

Jony Ive acabou sendo a segunda pessoa mais importante da Apple. Respondia direto a Jobs. Ive complementava Steve. Paciente, focado, ao contrário do chefe. Teve papel importante no segundo ato da Apple, ao se envolver no design do iPhone, iPod, iPad entre outros.

Com Jobs e Ive, o design era maior do que a engenharia. Com Tim Cook, o oposto.

É de conhecimento geral que Tim Cook é o atual CEO da Apple, e após um período de desconfiança, fez a empresa se tornar a mais valiosa do mundo, tendo atualmente inimaginável valor de mercado de 1 trilhão de dólares.

Cook teve a habilidade de navegar no mundo pós-Jobs. Entre outras ações, abriu caminho para Apple na China, e teve uma participação maior no mundo da política.

A Apple de Cook começou a deixar o design de lado, e ser guiada cada vez mais pelos números. Eficiência, baixos custos, ganhos de escala, supply chain. Negociadores em destaque, espremendo fornecedores e garantindo centenas de milhões a cada contrato. Finanças na frente do design.

A Apple continuou tentando inovar, porém sem o mesmo impacto do iPhone. Alguns produtos pós-Jobs.

  • Apple Watch. Uma das apostas da empresa é em wearables, como o relógio. Destaca-se a mudança de foco, de tecnologia para moda chique com relógios caros e personalizados. Ao invés de ser tecnologia premium, o mais barato produto de amanhã, agora concorria no setor de moda.
  • Aquisição do Beats e desenvolvimento dos fones sem fio Airpod.
  • O Apple Maps, clone do Google Maps, foi um fracasso.
  • Apple Music. O iTunes, na sua concepção original, foi um divisor de águas. Porém, o surgimento do streaming de música, com um acervo infinito por uma mensalidade pequena, fez a Apple lançar o seu próprio serviço. Onde Jobs inventava, agora Cook copia. Não há nenhum diferencial importante que torne a Apple Music superior ao Spotify, por exemplo. Apesar disso, atingiu fatia importante do mercado.
  • Carro autônomo da Apple, com grande expectativa? Vem sendo um experimento sem fim.
  • Outra ideia é uma versão Netflix da Apple – se vai vingar ou não, não sabemos.

A Apple de Cook é eficiente. Com as vendas do iPhone estáveis, como ele poderia fazer para extrair mais dinheiro dos já convertidos? Houve uma guinada, de produtos para serviços, aproveitando o ecossistema de fãs da Apple. Icloud, Music, App store.

Com Cook, houve aumento de importância das áreas operacionais, e Jony Ive ficou sendo apenas mais um no time. Uma hora decidiu sair. Para evitar publicidade negativa, a Apple ofereceu a ele o título de Chief Design Officer, e ocupação de meio período, mas na prática, ele estava exausto.

Ive foi sendo cada vez mais escanteado, até finalmente pedir as contas, em 2019.

A Apple de Cook, eficiente, lucrativa e chata, está cada vez mais parecida com a Microsoft. Os rebeldes viraram o sistema. 1984 cada vez mais parecida com 1984. Os piratas viraram a marinha.

Bateu o relógio da meia-noite, e a magia acabou. A maçã virou abóbora.

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Trilha sonora: Joan Baez, Love Minus Zero/No Limit

Veja também:

Use a IA só na máquina de lavar

Há 15 anos, num dia como hoje, eu estava tendo aulas de redes neurais no mestrado em Eletrônica, na Coppe UFRJ.

Naquela época, a melhor redes neural que conseguíamos fazer tinha 3 camadas e uma dúzia de neurônios por camada. Entretanto, já era um campo promissor, para visionários.

Perguntei ao meu professor: “Você confiaria numa rede neural para dirigir um carro ou fazer uma operação médica?”

A resposta foi algo como: “Colocar IA numa máquina de lavar, sem problemas. Agora, para situações importantes, não”.

A IA teve uma evolução exponencial desde então. Saiu do inverno para o verão, com avanços em pacotes computacionais (PyTorch, TensorFlow), novas técnicas (convolucional, transformer), e até em hardware (como GPU e TPU).

Entretanto, a resposta continua valendo.

A IA atual é uma caixa-preta: entra um monte de dados e sai uma decisão. Talvez seja uma caixa mais poderosa, mas a essência é a mesma.

O problema de uma caixa-preta é que ela vai funcionar extremamente bem, uns 98% dos casos, até o dia em que vai dar problema. E, se o dispositivo controlado for numa grande indústria, ou um carro autônomo, será um problema catastrófico, daqueles que põe em risco a confiança no trabalho todo.

Tanto é que uma das linhas de pesquisa mais importantes dos dias de hoje é o Explainable AI: abrir um pouco da caixa, entender de alguma forma o que está acontecendo, mesclar o poder da rede neural com regras explícitas.

E outra linha quente de pesquisas é a Ética em IA: de quem será a culpa, no caso de um atropelamento? Do fabricante? Do usuário que confiou no veículo? Da caixa-preta que ninguém sabe interpretar? Do engenheiro que treinou o algoritmo? Haverá auditoria de algoritmos, por parte do governo? São perguntas difíceis de responder.

De qualquer forma, é melhor seguir o conselho do meu professor: utilize AI em processos não críticos, no seu equivalente da máquina de lavar.

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O tesouro da pinhata

Quando eu tinha uns 7 anos, eu estava numa festinha de aniversário de algum colega.

O ápice da festinha era uma pinhata. Não uma pinhata de verdade, uma imitação, um balão enorme cheio de doces a ser explodido. Chamaram todas as crianças para ficar debaixo da pinhata. Lembro que estava todo mundo ansioso, tentando pegar o melhor lugar.

Eu nem sabia o que era aquilo e nem o que as outras crianças estavam fazendo, por isso, fiquei longe do centro. Quando o adulto explodiu o balão, vi que as crianças se agacharam, a fim de pegar os doces. Eu até tentei ir na onda, porém, estava pessimamente posicionado, e não havia espaço para entrar na muvuca.

Parei para observar ao redor, ver se não havia nenhuma bala que tinha voado longe. Para a minha surpresa, o fundo do balão tinha caído pelas redondezas, e tinha sido ignorado pelas crianças. O fundo do balão estava cheio de doces – por esses se acumularem no fundo – mais ou menos como o da foto a seguir.

Se eu tentasse fazer como todos, ficaria em desvantagem – por ser menor, mais fraco, menos informado. A minha sorte e sagacidade foi parar, analisar os arredores e pensar – um verdadeiro OODA loop, décadas antes de eu conhecer o conceito.

Portanto, não vá com a onda. Observe, oriente, decida e aja!

O jogo de Atari de Steve Jobs

Jogue aqui, direto no browser, o jogo de Atari do Steve Jobs.

https://elgoog.im/breakout/

Trata-se de um joguinho muito simples. Manipulamos uma espécie de raquete, que deve rebater a bolinha quicante, e eliminar todos os blocos acima.

Nada muito sotisficado, comparado aos dias de hoje. Porém, em 1974, era o supra sumo que a tecnologia nascente de computadores pessoais poderia oferecer.

Eu mesmo tive um Atari na década de 80, e era a melhor coisa do mundo.

Em 1974, Steve Jobs tinha 19 anos. Um dia, ele apareceu na sede da Atari, em Los Gatos, California, e disse que não sairia dali até ser contratado.

Alguns trechos, retirados das referências abaixo:

“Temos um garoto no saguão. Ele tem alguma coisa ou é maluco.”

Jobs, na época, vivia numa dieta vegetariana estranha, e não tomava banho, porque acreditava que a dieta o manteria puro, livre de odores.

“Ele era um garoto realmente nojento”, Alcorn disse certa vez ao historiador de videogames Steven Kent. “Acho que disse: ‘Devíamos chamar a polícia ou falar com ele.’ Então eu conversei com ele.”

O garoto Steve acabou contratado pela Atari. Um de seus trabalhos foi simplificar o circuito do jogo Breakout, citado acima. Explico. Na época, o console do Atari era metade do videogame. A outra metade eram os cartuchos, que deveriam ser comprados e plugados ao console para jogar. E os cartuchos tinham verdadeiros circuitos ali dentro, era hardware. Simplificar a configuração do circuito mantendo a jogabilidade significaria menos custo variável para o mesmo preço final.

Steve topou o desafio. A questão é que ele não manjava tanto assim de eletrônica – aí ele fez o que o futuro Steve Jobs fazia de melhor: terceirizar a tarefa para quem manjasse de verdade, no caso, o amigo Steve Wozniac, 5 anos mais velho e engenheiro da HP na época.

“Jobs nunca fez um pouquinho de engenharia em sua vida e ele me derrotou”, disse Alcorn mais tarde. “Demorou anos até eu descobrir que ele estava fazendo Woz ‘entrar pela porta dos fundos’ e fazer todo o trabalho enquanto ele recebia o crédito.”

Jobs sempre foi fascinado pela simplicidade dos jogos de Atari. Era um joystick e um botão apenas, o jogo vinha sem manual de instrução algum – era tudo muito intuitivo. Fico imaginando o quanto essas experiências anteriores o inspiraram a criar o iPhone, com um único botão e autoexplicativo, décadas mais tarde.

No tempo livre, Jobs e Woz começaram a projetar o Apple I. Depois, o Apple II foi oferecido inclusive à própria Atari – que recusou. Imagine como o mundo poderia ser diferente, se a Atari tivesse aceitado!

Veja também:
https://observatoriodegames.uol.com.br/destaque/tbt-gamer-como-foi-a-vida-de-steve-jobs-trabalhando-na-atari

O instinto da fé

Alguns highlights sobre o livro “The Faith Instinct”, de Nicholas Wade.

O ponto principal do autor é que religiões representam uma vantagem evolutiva para a espécie humana – não pensando como indivíduo, mas pensando como grupo.

Há traços de religião desde 50 mil anos atrás, mostrando que o instinto da fé está desde então embutido no cérebro do ser humano.

Algumas vantagens: esperança em tempos difíceis, possibilidade de vitória mesmo sendo um oprimido (afinal, o último na Terra será o primeiro no paraíso), círculos mútuos de confiança, atividade comuns como dança.

A religião ajudou na seleção natural? Se não fosse importante, teria sido eliminada, entretanto todas as nações do mundo têm religião de alguma forma. E se isso acontece, é porque há benefícios para a sociedade.

É similiar à linguagem. Todos os povos do mundo têm linguagem. Cada uma evoluiu de forma diferente, porém, há predisposição mental do ser humano para ser capaz de se comunicar através de linguagem (ao contrário de leitura e escrita, ou matemática, que devem ser aprendidos por um longo tempo na escola). Tanto a linguagem quanto a religião só fazem sentido em um contexto social, em grupos.

Há maior coesão em grupos com religião comum. O indivíduo tem uma razão a mais para lutar pelo grupo. Há um paradoxo: o indivíduo perder a vida e a oportunidade de passar os genes adiante – porém, existe a teoria de que passar os genes de semelhantes do seu grupo é tão importante quanto.

Ao invés de seleção natural, pensar em seleção de grupos.

Em contextos de guerras, colheita ou obras, é necessária uma enorme uma coesão social para coordenar esforços e dividir recompensas. A religião pode ajudar a aumentar a coesão, a superar medo da morte e da insegurança em geral.

Não sabemos exatamente como decisões morais são tomadas. Não dá para mudar opinião da pessoa através de raciocínio puro.

Danos ao cérebro podem fazer pessoas agirem com menos moral. Ex. Chocolate em forma de cocô vai ser repugnante para muitos, exceto pessoas com distúrbio em uma determinada região do cérebro – o que mostra que há alguns gostos pré-programados.

Charles Darwin, junto à teoria da evolução das espécies, também especulou sobre teoria moral. Juntos, animais conseguem combater ameaças maiores. Porém, os membros do grupo não devem atritar entre si. O seguidor deve ter naturalmente um grau de submissão ao líder. Há uma hierarquia de poder – há posição social até em macacos. Há também troca de informação constante – pessoas em vilarejos fofocam sem parar.

Por que existem rituais exigentes em religiões? Para seguir a religião, há a necessidade de fazer sinais custoso em termos de tempo e sacrifício. Um dos objetivos é evitar aproveitadores, que só querem tirar vantagem sem contribuir. Outra, é estimular quem já está no grupo. Deve ser sinalização difícil de falsificar, ir para Meca, vestir indumentárias desconfortáveis. Existe um grau ótimo de exigência x benefícios.

A música também é um fator presente em todas as culturas, promove coesão e sincronia entre pessoas.
Até o Talebã, que baniu boa parte das religiões, permite cânticos musicais.

Também existe um link entre música e capacidade de atração sexual – desde o passarinho cantando até o rock star dos nossos tempos.

Religiões envolvem música, dança, linguagem.

Será que o autor está certo? Outra possibilidade é a diametralmente oposta: a religião é sub-produto da evolução, com pouco efeito no resultado final.

Seja como for, a religião é parte constante da humanidade, desde a idade das pedras até os dias de hoje!

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Agradeço ao amigo Cláudio Ortolan por emprestar o livro.

Veja também: