A regra da aeromoça

“No caso de despressurização da aeronave, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Caso esteja acompanhado de crianças ou alguém que necessite de sua ajuda, coloque primeiro a máscara em você, para em seguida ajudá-lo”.

Voltei a viajar de avião, a trabalho, após um longo período somente remoto devido à pandemia. O procedimento de segurança acima me lembrou da “regra da aeromoça”, conceito ensinado pelo prof. de comunicação Carlos Viveiro.

Fonte: Foto da internet

De certa forma, parece egoísta, mas a regra faz total sentido: caso eu queira ajudar a criança primeiro, eu posso apagar no meio do procedimento, e ambos corremos o risco de ficarmos sem oxigênio. Já se eu colocar primeiro a máscara de oxigênio, terei muito mais tempo de ajudar a criança posteriomente.

A mesma regra se aplica à vida em geral. Como ajudar alguém, se eu mesmo não tiver condições de ajudar? Como priorizar alguma outra pessoa, se não conhecemos nem a nós mesmos? Primeiro, devemos estar bem. Esta é a “regra da aeromoça”.

Veja também:

Projeto Euler

Uma dica para quem quer aprender alguma linguagem de programação + matemática: o Projeto Euler.

https://projecteuler.net/

Este contém 788 problemas a serem resolvidos, em ordem crescente de dificuldade.

O próximo desafio só é liberado após resolver o atual.

Usuário deve fazer cadastro para acessar, e é gratuito.

Exemplo, essa aqui é a primeira tarefa:

“If we list all the natural numbers below 10 that are multiples of 3 or 5, we get 3, 5, 6 and 9. The sum of these multiples is 23.

Find the sum of all the multiples of 3 or 5 below 1000″

No caso acima, há uma abordagem ingênua (testar todo mundo, força bruta), e também algumas mais elaboradas (testar múltiplos de 3 e 5 e tomar cuidado quando o número é múltiplo de ambos).

Eles pedem para não divulgar soluções, que são como spoilers de filmes, estragam toda a brincadeira.

Tem um fórum de discussão para cada problema, a fim de ajudar quem está com dificuldades.

Qualquer linguagem de programação pode ser utilizada – você só informa a resposta e vê se acertou ou não.

O nome do site é em homenagem ao grande matemático suíço Leonhard Euler, que viveu cerca de 200 anos atrás. Foi o mais prolífico dos matemáticos, escrevendo teoremas variando desde grafos até números complexos. Em um determinado momento de sua vida, Euler perdeu totalmente a visão, porém continuava enxergando com sua mente: ele ditava os teoremas e cálculos de sua cabeça para os auxiliares redigirem artigos.

E haja artigos. Euler tem 850 publicações, compilados em 92 livros!

Veja também:

Problema x Solução

Já dizia o grande Peter Drucker, ser efetivo é encontrar a solução certa para o problema (e não encontrar o problema que encaixe na solução!)

Vide post interessante do Cezar Taurion:

https://www.linkedin.com/posts/ctaurion_volta-e-meia-me-deparo-com-empresas-falando-activity-6904015759190949888-SIBB

Custo de setup x tempo de produção: das óperas de Wagner ao TikTok 

Na indústria, o custo de setup refere-se ao custo de preparar o maquinário para a produção. Normalmente, quando a indústria troca o tipo de produto, deve refazer o setup das máquinas. 

O tempo de produção deve ser proporcional ao custo de setup. Digamos, se eu demorar 2 horas para mudar a configuração do maquinário, a produção deve durar algumas horas. Se, nesse caso, a produção for de apenas 5 min e tiver que mudar o setup novamente, parece haver algo estranho, vai ter mais setup do que produção.

É muito claro o paralelo das afirmações acima com a duração das obras do cinema. 


Por que o Anel dos Nibelungos tinha 15 h de duração? 

Nos anos 1850, não existia mídia gravada, todas as performances tinham que ser ao vivo. Pior, não existiam carros automotivos, o transporte tinha que ser a cavalo. Nesse contexto, uma ópera era, além de entretenimento, um encontro social caro. Imagine a nobre família von Flinstones, que tinha que preparar os 7 filhos para uma viagem de 6h de carruagem, da fazenda até a cidade, para acompanhar uma ópera de Richard Wagner, digamos o “Anel dos Nibelungos”.

O custo de setup era muito alto, então a ópera também deveria “valer a pena”: durar o dia todo, ou vários dias, a fim de justificar a viagem – daí esta estar dividida em 4 partes, com duração total de 15h. Uma ópera de 15 segundos seria impensável, não valeria a pena. 


Filmes de cinema tem cerca de 2h de duração 

Avançando 100 anos no tempo, 1950, temos cinemas e automóveis. Mesmo assim, a família Simpson, de classe média, deve preparar os 3 filhos para sair de casa, deslocar-se ao cinema e aguardar a sessão – o setup demora algumas horas. É um custo de preparação bastante menor do que no caso anterior, mas mesmo assim, os filmes devem ter de 2 a 3 horas de duração. Um filme de 1954, como “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa, tem mais de 3 horas de duração, por exemplo. 


TikTok, alguns segundos de duração 

Mais quase 100 anos, nos dias atuais, a família Jetson tem 1, no máximo 2 filhos, cada membro da família tem um celular ou um computador, e o custo de setup é esperar alguns segundos. Ninguém precisa se arrumar ou sequer sair de casa, para consumir entretenimento. Nesse contexto, o custo de setup é baixíssimo. Por isso, um vídeo de 15 segundos, normalmente engraçado, curioso ou polêmico, cumpre a função de entreter e não tomar muito tempo do espectador – que pode ir para o próximo vídeo similar. Um TikTok de 15h de duração é impensável nesse contexto. 

Diminuir o custo de setup tem o efeito de aumentar a variedade da produção final, seja na indústria, na ópera, no cinema ou nas mídias modernas! 

Veja também:

Os números não mentem, de Vaclav Smil

Vaclav Smil é um dos autores favoritos de Bill Gates. Smil é um grande especialista em energia, e também um polímata que escreve sobre diversos assuntos aleatórios, sempre embasado com muitos, muitos números.

O livro “Os números não mentem – 71 histórias para entender o mundo” contém uma série de artigos curtos e cheios de insigths sobre a sociedade, energia e meio-ambiente.

Quatro pontos ilustrativos do livro, em poucas frases, só para dar uma ideia do conteúdo.

  1. A Lei de Moore é uma bênção e uma maldição. A Lei de Moore, aquela que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, mantidos os custos constantes, é o que está por trás da evolução exponencial da computação que vimos nas últimas décadas. Entretanto, existe a parte “maldição”: aumentar as expectativas de todo desenvolvimento tecnológico, quando na verdade, outras tecnologias têm o seu próprio passo. Onde estão os carros elétricos e autônomos, a cura individual do câncer, os dispositivos que leem comandos diretamente do nosso cérebro?

Gosto muito da postura de Smil. Sou bastante realista. Não sou advogado de “toda inovação é exponencial” de caçadores de unicórnios imaginários, como o pessoal da StartSe e de pensadores tipo Ray Kurtzweil.

  1. Vidros isolantes. Nos EUA e União Europeia, edifícios são responsáveis por 40% do consumo de energia. Aquecimento e ar-condicionado respondem por metade deste consumo. Uma solução simples é utilizar janelas com duas ou três camadas de vidro, preenchidos por um gás como argônio, reduzindo a transferência de energia da janela de 6 watts por m² para cerca de 0,6 – 1,1.

É uma solução simples, que aumenta o conforto dos habitantes e diminui consumo de energia. Melhor ainda, pode ser feito hoje, sem grande tecnologia – porém tão simples que não entra no radar de grandes inovações do Vale do Silício, à caça de milhões de dólares em financiamento para salvar o mundo.

  1. Navios elétricos. Grande parte do que temos em casa veio de algum outro lugar do mundo, provavelmente por transporte marítimo. Por que não temos navios porta-contêineres elétricos?

Existe um navio elétrico previsto para entrar em operação, o Yara Birkeland. Porém, este terá capacidade para apenas 120 TEUS (unidade de volume), enquanto navios modernos convencionais carregam de 200 a 400 vezes mais do que isso!

Para efeito de comparação. Um navio moderno queima 4.650 toneladas de combustível para uma viagem de 31 dias. Um navio elétrico equivalente, com as melhores baterias possíveis, teria que carregar 100 mil toneladas só de baterias, tornando inviável esse tipo de operação.

A densidade de energia das baterias teria que melhorar mais do que 10 vezes para começar a entrar numa faixa viável. Porém, em 70 anos, a densidade de energia nem sequer quadruplicou, o que mostra que vamos ter que conviver com o diesel por muito tempo!

  1. Amônia. Os químicos no final do séc. XIX descobriram que o nitrogênio é o macronutriente mais importante no cultivo agrícola. Outros são fósforo e potássil, além de vários micronutrientes. Uma forma de incorporar os macronutrientes no solo era através da compostagem (folhas, dejetos humanos e animais) ou através da rotação de culturas, com plantas que contém bactérias capazes de fixar nitrogênio no solo.

O processo Harber-Bosch, meados de 1930, possibilitou a criação industrial de amônia (NH3) através de alta pressão e alta temperatura – nitrogênio do ar, com gás natural, além de muita energia, que também pode vir do gás natural. Desde então, a produção de amônia passou de 5 milhões de toneladas/ano para 150 milhões nos dias de hoje! Sem fertilizantes, seria impossível aumentar a produtividade agrícola – de 650 milhões de ton de cereais/ano para 3 bilhões de ton.

Atualmente, é preocupante a perda de nitrogênio não utilizado (cerca de 47%) através de volatilização e lixiviação.

Ainda será necessário muito nitrogênio para as safras futuras, e soluções propostas são aumentar eficiência de fertilização e reduzir desperdício de alimentos, entre outros.

Conclusão

Além dos tópicos citados, há vários outros extremamente interessantes, como mortalidade infantil como indicador, o ano de 1880 da eletricidade, óleo diesel, energia eólica. Conforme ilustrado, Smil escreve sobre diversos temas com senso crítico e propriedade, sempre amparado por números e estimativas. É uma mente brilhante, que vale a pena acompanhar.

“Eu aguardo o próximo livro de Vaclav Smil como quem espera o próximo filme de Star Wars” – Bill Gates.

Link da Amazon:
https://amzn.to/3vAerRS

https://www.gatesnotes.com/Books/Numbers-Dont-Lie

Caça-Palavras em Excel-VBA

Para que comprar Caça-Palavras em bancas de jornal? Crie o seu próprio passatempo personalizado com suas palavras.

Segue para download (https://1drv.ms/x/s!Aumr1P3FaK7joBK0yc8350kgX5rH) uma implementação em VBA.

Basta listar as palavras a serem escondidas e rodar, com macros ativadas.

É uma rotina relativamente simples, e um bom exercício é tentar reescrevê-la do zero.

O procedimento é:

– Ler as strings

– Para cada uma, sortear se a posição é horizontal ou vertical

– Pelo tamanho, verificar quais as posições iniciais onde a palavra “cabe”

– Sortear uma posição inicial

– Verificar se a palavra inteira coincide com outras palavras já postas e repetir até conseguir

– Preencher casas restantes com letras aleatórias

O “Modo debug” não preenche o restante com letras aleatórias, é só para conferir se a lógica funciona.

É possível adaptar para deixar mais fácil e lúdico, para crianças: mudar a fonte, aumentar tamanho das células, cores, etc…

A cada vez que rodar, um resultado diferente vai ser gerado.

No exemplo a seguir, inseri um “BLUEBERRY” a mais.

Outro exercício computacional é o inverso: a partir do caça-palavras, tentar descobrir onde está a palavra, a partir de uma lista – basta algumas varreduras com loop “for”.

Dica: Coloco no link a seguir alguns dos trabalhos mostrados nesse espaço.

https://ferramentasexcelvba.wordpress.com/

Previsivelmente Irracional – Infográfico e resumo

Temos a tendência de sermos procrastinadores e de superestimarmos a nós mesmos. Gostamos de abrir diversas opções, e somos levemente desonestos. Apesar da aparência racional, temos pontos irracionais – na verdade, previsivelmente irracionais, segundo o livro do psicólogo comportamental Dan Ariely.

Seguem alguns pontos resumidos do livro.

1 – As mentes humanas são preparadas para fazer comparações. É por isso que um combo do Big Mac é mais barato do que somente o lanche e o refrigerante – desde o começo, o objetivo do restaurante é empurrar o combo completo. Dica: coloque um produto com preço muito alto, para que outros pareçam baratos.

2 – Grátis é um forte gatilho emocional. Um experimento citado comparava uma promoção de um bombom a 15 centavos (boa qualidade) x 1 centavo (marca genérica), contra outra promoção de 14 centavos (boa qualidade) x grátis (marca genérica). No primeiro cenário, os consumidores preferiram o bombom de boa qualidade. No segundo cenário, pela força do “grátis”, os consumidores preferiram o bombom genérico. Se é para desembolsar, um centavo que seja, é melhor pegar o de qualidade. O grátis elimina a percepção de risco.

3 – Utilize a ancoragem como ponto de referência. Não temos clara noção do valor dos produtos, então utilizamos algum número dado como referência. Experimentos mostram que esse número pode até ser aleatório, que também vai servir como âncora. Dica: ancore um alto valor para os seus serviços.

4 – Supervalorizamos o que temos, e subvalorizamos o que não temos. O vendedor da casa vai valorizar cada detalhezinho irrelevante para o comprador. De posse de algo, o temor de perder é grande. Por outro lado, quando não conseguimos, é como a raposa do conto de Esopo, “não queria mesmo essas uvas azedas”.

5 – As expectativas moldam a experiência. Em um teste cego de sabor, a Pepsi batia a Coca. Porém, num teste onde os participantes sabiam a marca, a Coca ganhava e muito da Pepsi. Dica: a expectativa não pode ser alta demais, nem baixa demais, em relação à realidade.

6 – Existe uma propensão à pequena desonestidade. Em experimentos onde era simples trapacear e impossível sofrer alguma punição, as pessoas deram uma “roubadinha” leve, o suficiente para terem alguma vantagem, porém, não tanto a ponto de se verem como bandidos. As pessoas querem ter a consciência tranquila na hora de dormir ao final do dia.

7 – Gostamos de deixar opções em aberto, mesmo que o excesso de opções seja prejudicial. Seja em termos de alternativas românticas, ou opções de carreira, temos a impressão de que é bom ter várias alternativas: um diploma extra, não vender a casa, guardar o livro velho, tentar manter boas relações. Entretanto, manter alternativas demais pode ser custoso, e a solução pode ser fechar opções para focar em alguns poucos caminhos.

Ariely é do mesmo estilo de “Economia comportamental”, iniciado por Amos Tversky e Daniel Kahneman (de “Rápido e Devagar”) e também Richard Thaler (“Nudge” e “Misbehaving”). Embora as conclusões acima pareçam coerentes, é bom tomar cuidado: dependem do contexto e cada pessoa é diferente da outra – e é isso que torna a economia comportamental controversa.

Previsivelmente Irracional

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Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/07/ethos-pathos-e-logos