Um livro proibido x palavras escarradas

Uma crítica afiada de Milan Kundera, no livro “A insustentável leveza do ser”.

“Numa sociedade rica, as pessoas não têm necessidade de trabalhar com as mãos e podem consagrar-se a uma atividade intelectual.

Há cada vez mais universidades e cada vez mais estudantes. Estes, para obterem os seus canudos, primeiro têm que fazer uma tese sobre um dado tema. E não é difícil arranjar um tema, porque basta glosar o que já foi dito. E como tudo pode ser discutido, há um número infinito de temas.

E assim, cada vez há mais e mais resmas de papel enegrecido amontoadas em arquivos ainda mais tristes do que cemitérios, porque ninguém lá entra, nem mesmo no dia de Finados. A cultura está a desaparecer numa infinidade de produtos, numa avalanche de letras, na demência da quantidade. Acredita em mim: um único livro proibido no teu antigo país tem um significado infinitamente maior do que as milhões de palavras escarradas pelas nossas universidades.”

O Buda faxineiro

Nem todo livro é bom.

Li, ou melhor, ouvi o resumo, de um livro peculiar. Falava da bênção purificadora da limpeza e de como monges budistas faziam.

Limpar o chão logo de manhã para limpar a alma. Detalhe em limpar cada canto.
Arrumar o que está desorganizado. Passar pano nos móveis. Banheiro limpo.
Roupas limpas e arrumadas. Serenidade para organizar livros. Paz de espírito ao limpar os vidros da janela.

A minha conclusão: Buda é faxineiro…

Exploit x Explore

Eis um conceito bem legal, porém difícil de traduzir para o português.

  • O “Explore” seria explorar, no sentido de desbravar novos horizontes, testar novos caminhos. Seria algo horizontal, ver coisas diferentes, descobrir.
  • O “Exploit” seria explorar, no sentido de aproveitar, usar a fundo algum recurso. Seria algo vertical, usar a mesma coisa o máximo possível.

Imagine um jantar em restaurantes como exemplo. Podemos procurar novos restaurantes, sob o risco de dar o azar de escolher um lugar ruim. Ou podemos ir no conhecido e garantido, sob o risco de perder a chance de conhecer algum melhor.

Quando usar o “explore” ou o “exploit”? Há um claro tradeoff.

Uma forma de decidir é conhecendo os recursos disponíveis.

Se queremos conhecer uma cidade nova, temos muito tempo à disposição, o “explore” é interessante para obter conhecimento.

Já numa situação oposta, onde não podemos errar, ou nos últimos dias da viagem, é melhor usar o “exploit”, colher os frutos do conhecimento obtido.

Intuitivamente, já fazemos isso.

O problema é fazer o oposto: não explorar quando temos recursos à disposição, ou arriscar quando temos menos margem de erro.

Aí eu lembro uma vez que fui ao Canadá, em 2006, e estava louco para explorar aleatoriamente a bela cidade de Quebec. Porém, o colega que foi comigo (e era o líder da missão), resolveu almoçar no… McDonalds! Zero espírito aventureiro.

O declínio do Clubhouse

Ué, o negócio mal começou e já está em declínio?

Sim, tão rápido quanto subiu, este vem caindo.

Posso falar do ponto de vista de usuário (não-frequente).

O conteúdo é tudo.

Atualmente, a maioria dos grupos que vejo são do tipo caça-níquel: como ficar rico, café da manhã com campeões. Os âncoras falam um pouco, para logo a seguir mandar um “dê uma olhada no meu instagram, tem um link para um curso que é gratuito para quem fizer isso nos próximos 30 minutos…”. Odeio esse tipo de bait.

Alguns grupos interessantes, como os puxados por Lex Fridman, não vejo mais. Ou de matemática diferencial, que já cheguei a ver no passado. Por ser tudo ao vivo e não ficar gravado, não dá nem para pesquisar e ver conteúdo passado.

Algumas causas do declínio:

  • Concorrência (Twitter spaces, Spotify copiou também).
  • Talvez os bons produtores de conteúdo tenham achado que não vale a pena fazer algo que não vai ficar gravado e não vai ser dele, perdendo assim o poder de escala. É melhor fazer um podcast mesmo…
  • Reabertura do mundo, sobrando menos tempo para o on-line.

Ainda assim, há discussões bastante interessantes.

  • Há alguns meses, no conflito Israel x Palestina, havia uma sala onde árabes e israelenses do mundo todo falavam de suas experiências. Exemplo de caso: um árabe egípcio disse que fora criado a vida inteira odiando judeus, mas nos EUA estes foram os que mais abriram as portas para a sua carreira…
  • Tem um “plantão médico” de manhã e um “giro de notícias”, ambos muito bons – mas como o meu horário é errático, só de vez em quando consigo pegar algum deles.
  • Vi uma notícia de que o Clubhouse fez uma parceria com o TED. Não sei como vai ficar, mas é promissor. Conteúdo bom não surge do nada, tem que ser criado, curado e remunerado.

Vejamos os próximos capítulos dessa guerra de áudios, e que vença o melhor!

O Timoneiro, de Franz Kafka

O Timoneiro é um conto curto de Franz Kafka, metafórico e poderoso como outros contos do autor.

Reproduzo o mesmo aqui, uma tradução do mesmo em https://en.wikisource.org/wiki/Translation:The_Helmsman.


O Timoneiro

“Eu não sou o timoneiro?” Eu gritei.

“Você?” perguntou um homem alto e moreno e passou a mão sobre os olhos, como se para banir um sonho.

Eu estava de pé no leme na noite escura, a lanterna fraca acesa sobre minha cabeça e agora esse homem tinha vindo e queria me empurrar para o lado.

E como eu não quis desistir, ele colocou o pé no meu peito e me pisoteou lentamente, enquanto eu continuava a me agarrar aos raios do timão do navio e caindo, puxei-o completamente. Mas o homem o agarrou e o trouxe de volta; mim, no entanto, ele se afastou.

Logo me recuperei, caminhei até a escotilha que dava para a cabana e gritei: “Homens! Camaradas! Venham depressa! Um estranho me tirou do leme!”

Eles vieram lentamente, subindo a escada do navio, figuras cambaleantes poderosas e cansadas.

“Eu sou o timoneiro?” Eu perguntei.

Eles acenaram com a cabeça, mas só tinham olhos para o estranho, ficaram em um semicírculo em torno dele e quando ele disse ordenadamente” Não me perturbe “, eles se recompuseram, acenaram para mim e desceram novamente a escada do navio.

Que tipo de pessoas são essas? Elas pensam afinal, ou simplesmente se arrastam sem pensar pela Terra?


Recomendação de leitura. Uma interpretação em quadrinhos dos conto de Kafka, por Peter Kuper:

https://amzn.to/3eTTkAR

Veja também:

Comentários sobre o Qiskit Summer School 2021 – Quantum Machine Learning

O Qiskit Summer School é um evento patrocinado pela IBM, para divulgação de computação quântica. Qiskit é o nome da linguagem desenvolvida pela IBM. Este ano, foi a segunda edição do evento, e o tema foi Quantum Machine Learning.

Uma primeira curiosidade, é que este ano foram 5000 vagas (ano passado, 2000), e essas acabaram em poucos minutos após a abertura das inscrições. Bastante gente reclamou que entrou exatamente no horário de abertura e já via o número de vagas esgotada. Isso mostra o interesse crescente pelo tema – e o privilégio de assistir as aulas.

Foram duas semanas de aulas, e 5 rodadas de laboratórios – cada qual com número variável de exercícios valendo nota.

Resumo rápido do conteúdo.


Semana 1:

  • Circuitos básicos
  • Algoritmos simples
  • Ruído em computadores quânticos
  • Machine learning clássico
  • Quantum classifier
  • QAOA

Mais da metade da semana 1 foi de conteúdo básico, só no finalzinho que realmente começou a ficar divertido. O conteúdo até falou de machine learning clássico (redes neurais, backpropagation), mas o foco foi em cima de Support Vector Machines, uma técnica de classificação um pouco diferente.

Por fim, introdução à técnica de otimização QAOA, que é um misto de quântico com clássico: a representação do problema é por um circuito quântico, porém a otimização dos parâmetros, via métodos clássicos.

O lab dos circuitos básicos foi tranquilo, o da parte SVM e QAOA deu um pouco mais de trabalho, mas nada impossível. Não posso divulgar minhas respostas, por enquanto. Vou esperar a IBM liberar oficialmente o conteúdo do curso para o público em geral.


Semana 2:

  • Classificadores lineares
  • Quantum kernel
  • Treinamento de circuitos quânticos
  • Hardware e ruído
  • Capacidade e circuitos avançados
  • Encerramento e discussões sobre rumos futuros

A melhor parte do curso foi a semana 2. Conhecimento de ponta, com conteúdo que não tem nem três anos desde a primeira citação.

O Support Vector Machine tem uma limitação, que é o fato de ser linear. É possível fazer um truque para contornar: pegar os mesmos dados e representá-los de forma não linear, através de um feature map. O kernel é uma generalização do feature map, para uma função mais complexa.

Pode haver vantagem quântica exponencial se a função for complicada para representar classicamente e simples de representar quanticamente – mas isso também não é garantido sempre.

Carregar dados em estados quânticos pode ter custo exponencial, o que pode jogar por terra qualquer vantagem quântica – uma solução possível é utilizar um esquema aproximado de dados, perdendo uma parte pequena da informação.

Muito impressionante é uma pesquisadora chamada Amira Abbas. Ela deu umas três aulas ou mais. Bastante didática, nova (assim como todos ali), realmente manjava do conteúdo – para quem se interessa pelo tema, vale a pena acompanhá-la.

Uma discussão bastante interessante foi a de capacidade. Em machine learning clássico, temos sempre o dilema underfitting (modelo fraco demais) – overfitting (parâmetros demais, o que causa perda de generalização). Sempre achei que isso era apenas dependendo do tamanho do modelo, mas foi demonstrado, através de experimento de labels aleatórios, que os dados também influem. Desde então, está havendo diversas propostas de medir a capacidade não só em função do tamanho, mas de características bem específicas dos dados também.

Sobre os labs: em geral, não foi difícil. Era basicamente seguir o roteiro dado pelos professores. Algumas poucas linhas, e a maioria já estava pronto. Tenho a impressão de que o Summer School foca mais na aula e no conteúdo teórico, e menos nos labs em si. Para códigos difíceis, a IBM lança os desafios.

Agradeço à IBM pela iniciativa, pelo conteúdo de mais alto nível disponibilizado, e parabenizo pela liderança no tema.

No formulário de feedback, era pedido uma foto para ajudar na divulgação do evento, e esta foi a que enviei.


Ideias Analíticas Avançadas
Um mundo melhor através do Analytics

A guerra das gillettes

O aparelho de barbear surgiu na época da Segunda Guerra. Antes disso, era na navalha mesmo, com os inconvenientes de ter que ir ao barbeiro, ou fazer em casa e se cortar todo.

Desde então, a Gillette vem aperfeiçoando as suas lâminas. Aparelhos descartáveis, baratos e seguros. Aliado a um marketing pesado, “gillette” virou sinônimo de lâminas de barbear.

Lembro de um depoimento do megainvestidor Warren Buffett, uns 30 anos atrás, em que ele dizia preferir empresas como a Gillette, porque o homem vai continuar se barbeando no futuro.

E, realmente, todo homem deve se barbear de tempos em tempos, para não ter a aparência de um homem das cavernas… o modelo de negócios da Gillette era perfeito.

Por volta dos anos 90, a Gillette introduziu uma inovação brilhante: duas lâminas. Isso permitiria um barbear melhor, mais suave. Todo homem que não seja um homem das cavernas sabe que o ato de se barbear pode fazer pequenos cortes no rosto, deixando a pele irritada pelo resto do dia.

Em meados dos anos 2000, com sua alta tecnologia em aparelhos aliado a um marketing pesado, a Gillette lança o Mach 3: três lâminas, assegurando um corte melhor e mais suave, e também mais lucro para a companhia. Só um supersônico atinge a velocidade Mach 3, dando a ideia de poder e velocidade, testosterona pura. Em resumo, outro sucesso.

Mas daí, a Gillette viu um concorrente passar-lhe a perna: a Schick lançou 4 lâminas antes da Gillette! Ou seja, a empresa gastou milhões de dólares educando o consumidor com a ideia de quanto mais lâminas melhor, aí chega outro e apresenta primeiro a sua inovação. Se, nos anos 2000 pouca gente dominava a tecnologia de criar lâminas boas e em escala, 10 anos depois isso já não era tão exclusivo assim.

Como foi a resposta da Gillette? Ora, simples: dobrar a aposta, nos mesmos moldes. Lançaram antes de todo mundo o aparelho de 5 lâminas, acompanhado de um caminhão de marketing!

E o que viria depois? 6 lâminas? 7? 10? Chega uma hora que o consumidor nota que não faz o menor sentido pagar uma fortuna em aparelhos sofisticados, sendo que os mais simples já são bons o suficiente.

Enquanto a Gillette batalha em frentes cada vez mais complexas, outros modelos de negócio atacam os seus flancos.

A BIC, a fabricante de canetas que domina tecnologia de plástico, foi na direção oposta: lançou modelos de barbeadores extremamente simples e baratos. Ironicamente, era esse o posicionamento original da Gillette em relação às navalhas.

Para efeito de comparação: o Bic Comfort custa R$ 13, já o Mach 3, R$ 49, refil com 3 unidades (ref. Julho 2021)

Já o Dollar Shave Club tem um modelo de negócios completamente diferente: distribuição on-line. Ao invés de fabricar lâminas, eles fazem a curadoria. Enviam ao consumidor as lâminas, em frequências pré-definidas, com modelos que o consumidor quiser. Isso é uma boa ideia, porque pessoas como eu só percebem a hora de trocar a gillette quando o barbear começa a irritar demais, literalmente sentindo na pele os efeitos de uma lâmina ruim. Receber uma lâmina nova antes da velha ficar ruim é um valor agregado pela startup.

A Gillette continua sendo uma companhia lucrativa, porém o seu share caiu devido à esses ataques pelos flancos e outros concorrentes.

É a Lei da Extensão de Marca, de Al Ries e Jack Trout: Há uma pressão irresistível para estender o alcance de uma marca. E exatamente por estender demais, há margem para ataques.

O genial Warren Buffett já recuperou o seu investimento na Gillette, mas será que ele apostaria nela por mais 30 anos?

Nota: No texto utilizei gillette minúscula como sinônimo de aparelho, e maiúsculo quando é relativo à empresa. O título correto deveria ser “A guerra dos aparelhos de barbear”. Porém, “A guerra das gillettes” é muito mais sonoro, tipo um Mach 3.

Este texto é baseado em case contado pela profa. Rita McGrath, em evento promovido pela Visagio Engenharia de Gestão.

Veja também:

Livro “Inflexão estratégica”, de Rita McGrath:

Inflexão Estratégica

Sobre o Market Share: https://www.wsj.com/articles/online-upstart-harrys-razor-jumps-into-gillettes-turf-1478707250

O cérebro lagarto e a pirâmide invertida de Maslow

Os três cérebros

Existe um modelo neurológico simples e extremamente útil: a dos três cérebros.

Todos temos um cérebro lagarto, um cérebro macaco, e um cérebro humano.

Seria um aspecto da evolução.

O “eu lagarto” está preocupado com segurança, necessidades básicas como respirar, comer, se reproduzir. Também é aí a decisão confronto ou fuga. Ocupa o centro do cérebro.

O “eu macaco” seria aquele com necessidades de socialização, comunidade, família. Ocupa as camadas externas do cérebro.

Já o “eu humano” é o mais recente de todos, e ocupa a camada externa do cérebro. Seria aquilo que nos faz diferentes de qualquer outro animal. Capacidade de pensar a longo prazo, criatividade, grande talento para inovar.

Uma utilidade prática. Quando estamos falando com uma pessoa desconhecida, vendendo algo, esta começa no modo “eu lagarto”: será que ele é confiável? O que ele quer?

Somente depois que o “eu lagarto” fica confortável é que o “eu humano” vai ouvir a mensagem. Talvez por isso, pessoas muito técnicas sejam ruins de persuasão: não é o argumento lógico que importa para o lagarto.

A anti-pirâmide de Maslow

O modelo dos três cérebros é parecido com a famosa pirâmide de necessidades de Maslow.

Usualmente, interpretamos a pirâmide de baixo para cima: devemos estar com as necessidades básicas fisiológicas satisfeitas, depois as de segurança e social, para conseguirmos correr atrás da autoestima e autorrealização.

Para as poucas pessoas que realmente têm um enorme propósito, pode-se falar de “Anti-pirâmide de Maslow”.
A autorrealização, ou a realização da missão é tão forte que a pessoa abre mão de conforto físico, necessidades sociais e afetivas, e até a própria segurança, a fim de atingir o objetivo.

Ou, como dizem, “Quem tem o por quê, arruma o como”.

“Quem não tem uma causa pela qual morrer não tem motivo para viver” – Martin Luther King

Duas parábolas sobre limites mentais

A águia que se achava galinha

Um homem encontrou um ovo de águia e colocou num galinheiro. A pequena águia cresceu com as galinhas, achando ser uma delas. Ela ciscava a terra por vermes e insetos; cacarejava e fazia “vôos de galinha” no ar.

Anos se passaram e a águia cresceu até ficar velha. Um dia, ela viu um pássaro magnífico acima, no céu limpo, fazendo um voo gracioso no meio de poderosas correntes de ar.

A águia velha olhou com admiração: “O que é?”

“É a águia, o rei dos pássaros”, disse um dos galos.

Assim, a velha águia viveu e morreu como uma galinha, por ser isso que ela pensava ser.

(Fonte: Parábola do padre Antônio de Mello, que vi no newsletter do James Clear)


O elefante acorrentado

Um menino viu um enorme elefante, acorrentado. O detalhe é que a corrente era presa à uma pequena estaca no chão. O menino perguntou: “Por que o elefante não foge?”

O treinador explicou que o elefante poderia sim puxar a estaca e fugir facilmente, mas não o faria, porque tinha sido treinado para isso.

Elefantes são animais muito inteligentes. Desde filhote, ele fora acorrentado à uma pequena estaca no chão. O filhote sempre vai tentar fugir por todos os meios, até aprender que é inútil tentar fugir. Dessa forma, mesmo crescido, o limite mental continua, o que impede a fuga.

Para finalizar, uma frase de Buda:

“Somos aquilo que pensamos”

Kintaro, os demônios da ficção e da vida real

Kintaro é um menino super forte, que nasceu no interior do Japão antigo. Desde sempre, ele era gentil com os animais e ajudava as outras pessoas em perigo.

Quando ele cresceu, ele partiu com outros grandes guerreiros, para combater os malvados demônios do mundo…

Este é um resumo de um livro infantil, uma história que a minha mãe contava.

Relendo o livro hoje, fico me perguntando: quem seriam esses demônios, a não ser povos rivais, nações vizinhas, pessoas como nós, mas de outros grupos?

Há inúmeros casos similares. A Bíblia fala de “Filisteus”, um povo antigo rival.

Os conquistadores europeus, para justificar a escravidão dos índios, falaram que estes não eram humanos, não tinham alma.

O filme “A Missão” ilustra um episódio: jesuítas fazendo índios cantarem, para provar que eles não eram inferiores aos europeus.

Uma passagem do livro “The Faith Instinct”:

A Moralidade não é universal. Compaixão e misericórdia são comportamentos dentro de um grupo, mas não necessariamente a outro grupo, e certamente não a um inimigo. Em relação às sociedades hostis, o comportamento humano é duro, implacável e muitas vezes genocida. Os inimigos podem ser demonizados ou considerados sub-humanos, e as restrições morais não precisam ser estendidas a eles.

E, para finalizar, o mestre Will Durant sobre o tema.

A vida é competição. Cooperamos dentro do nosso grupo, família, comunidade e nação para tornar nosso grupo mais poderoso. A cooperação é a última forma de competição. A concorrência costumava ser entre os indivíduos. Então foi ampliada, entre famílias. Depois, entre as comunidades. E assim por diante. A guerra é a forma final de competição. É a forma de uma nação se alimentar.

A propósito, Kintaro significa algo como “menino de ouro”. O primeiro kanji significa “ouro”, e o sufixo é comum em meninos. Um herói, que vai proteger o nosso povo contra os terríveis e sanguinários demônios do mundo exterior – ou será ele o demônio para os outros povos?

Nota: Agradeço ao amigo Cláudio Ortolan, pela indicação do livro The Faith Instinct.

Gol da Argentina. Caniggia, 1990.

A vitória da Argentina na Copa América 2021 me trouxe à memória uma cena de 30 anos atrás.

Copa do Mundo de 1990. O Brasil em festa: Copa do Mundo! Eu era criança, e tudo era mais divertido. Ingênuo.

Era um Brasil diferente. Eu tenho a impressão de era extremamente mais patriótico do que é hoje. Todo mundo que eu conhecia torcia para o Brasil, que estava num jejum de títulos havia 20 anos.

O Brasil começou bem na Copa. Técnico Lazaroni. Grandes nomes como Muller, Careca, Branco. A seleção passou fácil pela primeira fase.

Nas oitavas, a Argentina. Tinha um tal de Maradona, muito famoso, que estava em baixa na época. Um sujeito muito louco, diziam que se drogava.

Eu não entendia nada do que estava ocorrendo, só tinha o sentimento de que o Brasil era inderrotável.

Porém, o doidão do Maradona saiu driblando todo mundo no meio campo, lançou uma bola para um certo Caniggia, que fez um belo gol no brasileiro Taffarel. Nunca tinha ouvido falar em Caniggia, depois desse dia, nunca mais esqueci esse nome.

“Ora, é só fazer dois gols”, ecoava na minha cabeça infantil. Eis que o tempo passava, e nada. Careca, nulo. Cadê o Muller? Brasil fora. Pessoas tristes, e eu sem entender nada. Era possível o Brasil perder?

Depois, comentários: o Dunga deveria ter feito falta no Maradona no início da jogada. Lazaroni foi burro, 3-5-2 não funciona, etc..

Trinta anos depois, outros nomes, outro palco, Copa América. Messi em final de carreira, não jogou nada. Neymar, até tentou. Ao invés de Caniggia, Di Maria foi o nome do jogo.

Porém, o que mudou mesmo foi a torcida. O Brasil, o mundo. Muita gente torcendo contra, transformando futebol em política e vice-versa. A grande maioria nem ligando. Ou sempre foi assim mas eu não sabia quando pequeno, não sei dizer.

Eu mudei também: o gol de Di Maria não trouxe alegria nem tristeza. Nem se compara ao gol de Caniggia.

Seja como for, era tudo muito mais divertido e ingênuo naquela época: o futebol, o Brasil e o mundo.