Nunca divida a diferença

O meu amigo Diego Piva fez um belo relato sobre o livro de Negociação de Chris Voss, “Never split the difference”.

Apesar do nome dramático, é um livro com ótimas dicas de negociação. Copiei parte do post do Diego:

Após recomendação do meu amigo Arnaldo Gunzi, li este livro sobre negociação. O Autor, Chris Voss, é ex agente do FBI, responsável pela negociação de liberação de reféns em sequestros, ataques a bancos, atentados… enfim, situações em que não se é permitido ceder em negociações, já que um dos lados tem vidas como moedas de troca.

Capa do livro

Achei muito interessante a abordagem, que vai muito além do uso da racionalidade e da premissa de que todo mundo vai à uma negociação disposto a construir uma solução “ganha-ganha”. Ele explora bastante princípios da neurociência, ele cita por diversas vezes o clássico “Fast and Slow” de Daniel Kahneman que explora como nosso cérebro é cheio de vieses e que nossas decisões não são tomadas de forma racional, o sistema 1 impera enquanto o sistema 2 é preguiçoso demais para pensar o tempo todo.

Vide o post completo aqui:

https://aprendepassa.wordpress.com/2021/01/12/never-split-the-difference/

Diagramas Voronoi em Excel – e retalhonamento de áreas

Diagramas de Voronoi são diagramas bonitos como o seguinte.

Cada região tem um centro, escolhido aleatoriamente, e cada região denota a influência de cada centro.

É possível fazer uma dessas, em Excel.

De forma genérica, um Diagrama de Voronoi começa com um número de regiões.

Para cada região, é sorteado um centro, em coordenadas x e y.

Depois, para cada pixel da área total, é calculada a distância para cada centro da região. O pixel pertence à região mais próxima.

O caso mais fácil possível é o de duas regiões, exemplificado abaixo.

Com 3 regiões:

Vide arquivo no Github: https://github.com/asgunzi/VoronoiExcel. É necessário ativa macros.

Eu achava que essa era apenas uma curiosidade, porém, vi recentemente algumas aplicações bem interessantes.

Uma é de reforma agrária. A forma normal de dividir regiões é manualmente, como a da esquerda. Porém há áreas melhores e piores – digamos, em termos de acesso à estrada (em preto), declividade, qualidade do solo.

Hoje em dia, é possível levantar informações topográficas precisas. Aplicando um Voronoi aperfeiçoado, é possível redividir regiões de forma justa para o INCRA: alguém com uma região melhor vai ter menos área, enquanto outra com condições piores tem mais área, segundo restrições mapeadas.

Na área florestal, um projeto em andamento é o de retalhonar áreas de acordo com faixas de declividade e linhas de plantio, por exemplo, para que os talhões sejam ótimos operacionalmente e homogêneos para critérios de silvicultura e colheita.

Vide também:

Interactive Voronoi Diagram Generator with WebGL – Alex Beutel

Lições de Negociação com o Poderoso Chefão

“Vou te fazer uma proposta irrecusável: leia este post”, Don Corleone, num dos maiores filmes de todos os tempos, “O Poderoso Chefão”.

Entretanto, você não precisa recorrer a cabeças de cavalo cortadas ou arma na testa de alguém para aprender técnicas de negociação.

Compartilhando, no link abaixo, algumas dicas de negociação do meu amigo, o prof. Carlos Viveiro, da Negociarte.

Outras frases que aprendi com o Padrinho:

“Não levante a sua voz. Melhore o seu argumento.”

“Respeito quem diz a verdade, não importa o quão dura seja.”

“Um advogado com uma pasta pode roubar mais do que 100 homens armados.”

“Um dia, e esse dia pode nunca chegar, eu te chamarei para fazer um serviço para mim.”

Qual a sua lição de negociação do filme?

O Anel do Nibelungo

Forte recomendação de leitura fantástica: O Anel do Nibelungo, adaptação em quadrinhos pelo aclamado P. Craig Russell.

Link da Amazon: https://amzn.to/3dPRWik

É uma obra colossal, com quase 500 páginas, papel especial, capa dura, deve ter quase 1 kg de peso (recomendo a versão em papel, muito mais legal que em qualquer outra tela).

Russell é seguramente um dos maiores desenhistas do mundo atual. Seus trabalhos em Sandman estão entre as mais belas já obras vistas no gênero.

Pelo tema ser denso e extenso, vale uma introdução.

Tenho uma longa história de admiração pela lenda do Anel do Nibelungo.

A primeira vez que tive contato com o tema foi com a “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, utilizada no clássico filme “Apocalyse Now”, de Francis Ford Coppola. No clipe, um grupo de helicópteros americanos leva terror e aniquilação total à vilas vietnamitas. Arautos da morte: metralhadoras, bombas, destruição, sob a trilha sonora poderosa de Wagner, um encaixe audiovisual perfeito – vale a pena conferir:

A Valquíria é um dos capítulos da ópera “o Anel do Nibelungo” de Richard Wagner. Por sua vez, esta é uma coletânea de lendas nórdicas e germânicas antigas, compiladas numa narrativa completa por Wagner (é como se ele fosse um Homero em relação à Odisseia).

Wagner viveu há uns 150 anos atrás, e era contemporâneo do filósofo Friedrich Nietzsche – eram amigos, até a relação azedar e se tornarem inimigos. Pelas obras de ambos serem fortes, e germânicas, posteriormente ambas foram utilizadas pela propaganda nazista. Originalmente, não havia essa intenção, até porque eles viveram uma geração antes de Hitler.

A saga do anel tem quatro partes, e começa com “O ouro do Reno”.

Alberich, um anão horripilante, renuncia ao amor, rouba o ouro do Reno (em alusão ao rio Reno, na Alemanha), e forja um anel. Este dá poderes imensos ao possuidor.

Wotan e Loge enganam Alberich e conseguem tomar o anel, que é cedido a alguns gigantes do gelo.

A mitologia germânica tem muitos paralelos com a mitologia nórdica, do Thor.

Wotan, o pai de todos os deuses, é cego de um olho, cedido em troca de sabedoria – é claramente igual a Odin.

Loge, o traiçoeiro, é o paralelo de Loki. As deusas Freya e Friga também aparecem em ambas mitologias. O paralelo de Thor é Donner, mas ele é coadjuvante na história do anel.

Os personagens principais desta saga aparecem a seguir. A segunda parte é sobre a Valquíria, a terceira sobre o herói Siegfried, este sim o grande protagonista da história, após uma longa e tortuosa jornada. A quarta parte é o Crepúsculo dos Deuses, o fim de tudo (Não por acaso, há um livro de Nietzsche chamado o Crepúsculo dos Ídolos, onde ele detona a filosofia, o cristianismo, a moral e tudo mais que pode ser detonado).

Não só sou eu que sou fascinado por esses temas. Há alguns paralelos entre o Senhor dos Anéis e a obra de Wagner. Um anel que confere poder inimaginável ao dono, porém com uma maldição. Um anão disforme, obcecado pelo poder do anel. O autor J. R. R. Tolkien diz não ter se inspirado diretamente na obra, mas talvez tenha bebido da mesma fonte, as lendas nórdicas e germânicas originais.

Outra referência notável é o anel de Giges, presente nos diálogos de Platão. O possuidor do anel possuía o poder de se tornar invisível quando quisesse. Dessa forma, ele poderia cometer as maiores injustiças do mundo, sem ter punição (ao invés do anel, hoje em dia imagine estar no STF). Platão utilizou o conto para perguntar se há ser humano que manteria sua índole moral diante de poder infinito (a julgar pelo STF, difícil…).

Para fechar, é muito legal o making off da produção desta obra-prima. Craig Russell mostra o cuidado que teve ao fazer o trabalho. Um exemplo: ele tirou milhares de fotos de atores fazendo poses, a fim de retratar com fidelidade os desenhos. Outro exemplo: ele tinha desenho detalhado do cenário de fundo utilizado, sob vários ângulos.

Ator servindo de modelo para o desenho de Russell

É uma obra densa, épica, com arte sensacional. Um prato cheio para quem gosta do tema!


Sobre o escriba deste texto: Arnaldo Gunzi é completamente fascinado pela intersecção entre mitologia, história, cinema, filosofia e quadrinhos, como este post deve ter deixado claro!

Trilha sonora: A cavalgada das Valquírias – Richard Wagner
https://www.youtube.com/watch?v=7AlEvy0fJto

P.S. Menção honrosa à adaptação do Anel dos Nibelungos de Roy Thomas (desenhista do Conan), de 2003 – tenho ambos.

Veja também:

A planilha do Chicão

Participei de um projeto que tinha como alvo eliminar a “Planilha do Chicão”. Uma planilha de decisão: sentava muita gente numa mesa, cada um falava o que planejava fazer, e era tudo consolidado de forma semi-estruturada nesta. Simples, rápida, e não muito precisa.

O trabalho envolveu criar uma ferramenta superior: coletar informações, criar indicadores, propor soluções ótimas e voltar o resultado para análise. Tudo OK.

Anos depois, retorno para ver como o trabalho está. Realmente, a ferramenta de otimização está rodando, com melhorias aqui e acolá. Porém, lá no finalzinho do processo, na palavra final da decisão, quem eu encontro? A planilha do Chicão, firme e forte.

O Chicão já se aposentou faz anos também, então não é resistência à mudança. Talvez, no final das contas, a decisão seja realmente dos seres humanos, diante de inúmeras variáveis impossíveis de prever.

Moral da história: não subestime a planilha do Chicão.

Seleção de frases – Naval Ravikant

Algumas frases selecionadas.

Doutores não o farão saudável. Nutricionistas não o farão magro. Professores não o farão esperto. Gurus não o farão calmos. Mentores não o farão rico. Treinadores não o farão em forma. No final das contas, a responsabilidade é sua – Naval Ravikant

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A educação gratuita é abundante, por toda a Internet. É o desejo de aprender que é escasso.

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Os supereducados são piores do que os subeducados, tendo trocado o bom senso pela ilusão do conhecimento.

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O sistema educacional atual é completamente obsoleto.

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Aumente a serotonina no cérebro sem drogas: luz solar, exercício, pensamento positivo e triptofano.

A realidade é que a vida é um jogo de um único jogador. Você nasceu sozinho. Você vai morrer sozinho. Todas as suas interpretações estão sozinhas. Todas as suas memórias estão sozinhas. Em três gerações, você e as lembranças de você se vão e ninguém se importa. Antes de você aparecer, ninguém se importou.

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O que eu fiz foi decidir que minha prioridade número um na vida, acima da minha felicidade, acima da minha família, acima do meu trabalho, é a minha própria saúde. Começa com minha saúde física.

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Seja impaciente com ações, paciente com resultados.

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Você é basicamente um monte de DNA que reagiu ao ambiente.

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O maior superpoder é a habilidade de mudar a si mesmo.

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Tubarões comem bem, porém levam uma vida cercados de tubarões.

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O pior resultado desse mundo é não ter autoestima. Se você não se ama, quem irá fazê-lo?

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A direção que você está indo importa mais do que o quão rápido você se move, especialmente com alavancagem.

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É muito importante ter espaço livre. Se você não tem um dia ou dois toda semana no calendário, você não será capaz de pensar.

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Não alimente os pulgões do jardim

Cuidar da sua mente, de um blog, ou do espaço pessoal, é como cuidar de um jardim.

Requer esforço, tempo, paciência. Limpar, cultivar sementes, cuidar das plantas.

E as ervas daninhas e os pulgões?

Estes devem ser combatidos. Bloqueados. Retirados.

Não devem ser alimentados. Não devem ficar livres para atacar outras plantas.

Porém, vejo muitos fazerem exatamente o oposto: alimentam os pulgões, dão atenção, e estes vêm em dobro na próxima. São como vampiros, gostam de sugar a energia dos outros.

É muito difícil construir, e fácil destruir. É muito difícil ter paz, e fácil bagunçar tudo. Os pulgões vivem da destruição do que foi construído, de tirar sarro e desvalorizar os outros.

Não alimente os pulgões da sua vida.

E, no final do dia, aproveite o seu belo jardim com flores e frutos.

Veja também:

Indicação nerd: Marie Curie na Netflix


O filme “Radioactive” é sobre uma das maiores cientistas da história, Marie Curie. Devemos a ela a descoberta do elemento rádio, e de grandes avanços na pesquisa da radioatividade.


Vencedora de dois prêmios Nobel, em física e em química, ela supera até Einstein neste quesito (ele ganhou “só” um, coitado).


Normalmente já é difícil fazer ciência. Além disso, ela encontrou dificuldade adicional por ser mulher, 100 anos atrás, e até xenofobia, por ser imigrante polonesa. Por exemplo, o filme mostra que apenas Pierre Curie tinha sido nominado, e que este lutou para incluir a esposa, no primeiro Prêmio Nobel. Marie ganhou sozinha o segundo Nobel, já que Pierre já tinha falecido.


Os efeitos nocivos da radioatividade eram desconhecidos na época. A contínua exposição aos elementos custou a saúde dos Curie: Pierre estava debilitado, quando morreu devido a um acidente de trânsito, já Marie, tinha anemia, tosse, deformação nos dedos, e provavelmente leucemia. Mesmo assim, ela nunca parou de se dedicar com afinco à sua paixão, a ciência. 


A filha de Marie e Pierre, Irene, continuou a pesquisa da radioatividade em outros elementos, e também ganhou o seu Nobel.


É por conta destes trabalhos todos que temos aparelhos de raio-X, usinas de energia nuclear a até a bomba atômica, nos dias de hoje.


O filme não é muito bem feito, chega a ser chatinho e confuso, mas, pela grandeza da família Curie, vale muito a pena!

Aproveito para deixar uma foto da icônica Conferência de Solvay de 1927, que juntou os maiores gigantes da física do século passado: Marie Curie, Albert Einstein, Niels Bohr, Werner Heisenber, Max Planck, Erwin Schrodinger.

Veja também:

Ferramentas para tempos on line

Sobre algumas ferramentas que podem ser interessantes, para esses tempos de home office e video conferências.

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Mentimeter

O Mentimeter é muito bom para fazer pesquisas online e ver os resultados, em tempo real. Dá para fazer gráficos, nuvem de palavras, listas, etc.

https://www.mentimeter.com

A versão free permite duas perguntas, o que é suficiente para uso esporádico.

(Resultado da enquete de enquete que fiz – no canto inferior direito, mostra 44 participações)

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QR Codes

Outra ferramenta útil é a de criar QR codes – para passar rapidamente o link de sites e contatos.

Há várias possíveis, e esta é bem simples. Basta escrever o endereço do site e baixar o qr code:

https://br.qr-code-generator.com/

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Forms

Por fim, o Google Forms, que já existe há muito tempo e é bastante conhecido. Serve para pessoas com acesso ao formulário preencherem, e a ferramenta consolida os resultados.

É possível configurar resposta única ou múltipla, respostas obrigatórias e várias outras opções.

A Microsoft tem o seu clone, o Microsoft forms – o que é especialmente bom para empresas que têm o pacote Office apropriado.

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Quem tiver outras boas sugestões, e de preferência free, fique à vontade para responder.

Um pouco de Mário Quintana

O gaúcho Mário Quintana é conhecido como o poeta da simplicidade. São versos simples, diretos e bonitos.

Na única vez que fui a Porto Alegre, fiz questão de visitar a Casa de Cultura Mário Quintana. Um antigo hotel, onde ele viveu no final da vida – e sua vida foi como sua obra, muito simples: vivia em hotéis, atrasando pagamentos, sem luxo, sem nada.

O primeiro poema é especialmente interessante para os dias de hoje, sufocados estamos com a pandemia.

Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Poeminha do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

(Este é talvez o seu poema mais famoso)


Envelhecer


Antes todos os caminhos iam,
Agora, todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros, poucos.
Eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.


I é letra de índio que muitos julgam iletrado,
mas índio é mais esperto
que muito doutor formado.


Cavalo de fogo

Mas a minha mais remota recordação
só muito tempo depois eu vim a saber que era um cometa
e precisamente o cometa de Halley

maravilhoso Cavalo Celestial
com a sua longa cauda vermelha atravessando, ondulante, de lado a lado,
bem sobre o meio do mundo,
a noite misteriosa do pátio…
Jamais esquecerei a sua aparição
porque
naquele tempo de espantos e encantos
o cometa de Halley não se contentava em parecer um cavalo, apenas:
o cometa de Halley era um cavalo!

(Veja aqui um relato do meu encontro com o cometa Halley https://ideiasesquecidas.com/2017/08/19/%e2%80%8bo-amante-halley/)



Poema da Gare de Astapovo


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso

Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!


E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!

A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

Veja também:

https://poesiaspoemaseversos.com.br/mario-quintana-poemas/

Conheça o maior proprietário de terras agrícolas dos EUA

Em janeiro, a revista americana The Land Report, maior publicação sobre o mercado das terras nos Estados Unidos, revelou que Bill e Melinda Gates acumularam o maior portfólio de terras agrícolas privadas dos Estados Unidos.

Link: https://revistapegn.globo.com/Administracao-de-empresas/noticia/2021/04/bill-gates-explica-motivo-de-ser-o-maior-proprietario-de-terras-agricolas-nos-eua.html

Segundo Gates, o motivo foi a ciência de sementes e biocombustíveis, em linha com suas iniciativas de sustentabilidade ecológica.


Uma reflexão. Bill Gates pode até ter comprado terras para desenvolver sementes  superprodutivas, como afirma. Porém, assim, ele também maximiza o impacto do próprio nome. Daqui a 100 anos, talvez 200 anos, ainda vamos estar ouvindo sobre a fundação Bill Gates.

Fosse a preocupação só desenvolver sementes, ele poderia ter arrendado terras, por exemplo.

Propriedade de terras é como a força da gravidade. Em curta distância, perde facilmente para força elétrica. Mas, a longas distâncias, a gravidade continua atuando, regendo o movimento das estrelas e galáxias.

Com terras, a mesma coisa. A curto prazo, investimentos outros ganham, a longo prazo, você vai estar podendo plantar em cima da terra daqui a 100 anos.

Análise de risco, do jeito que a gente faz, só funciona a curto prazo. A médio e longo prazo, fica cada vez mais impossível prever. Essas análises passam a ser mais qualitativas do que quantitativas.

E o pior, a curto prazo, fazendo as contas, vai dar que temos que vender a terra para ficar com o dinheiro.

Uma empresa movida a EBITDA trimestral nunca vai conseguir justificar um investimento que vai demorar dezenas ou centenas de anos para se pagar, embora seja exatamente essa a chave para sobreviver dezenas ou centenas de anos.

Ser movido a curto prazo vai dar certo por um bom tempo, até chegar o dia em que vai dar errado…

Como diz o ditado, “Quem compra terra, não erra”.

Veja também:

Proof of work na vida real

O protocolo “proof of work” é utilizado atualmente em criptomoedas, e foi originalmente concebido para evitar spams. Mas o interessante é que, antes mesmo de existir o conceito computacional, a lógica já era aplicada faz muito tempo na sociedade e na natureza: diplomas, certificados, e até a plumagem do pavão. Vejamos como.


O proof of work consiste na entidade “A” mostrar, sinalizar, provar a uma entidade “B” que um trabalho foi feito (daí o nome, prova de trabalho).

Uma utilidade: evitar spams. Hoje em dia, é muito barato computacionalmente mandar um milhão de e-mails de uma só vez. Se, a cada e-mail enviado fosse necessária uma prova de trabalho (digamos, resolver um problema matemático difícil), haveria um limite natural: a capacidade de processamento do computador.

Para funcionar, o proof of work deve ser assimétrico: um problema difícil de resolver, porém, fácil de conferir o resultado.

Interessante notar também que a Teoria dos Números tem inúmeros problemas desta natureza. O que sempre foi apenas uma curiosidade inútil, agora tem uma aplicação prática.

Ex. Encontre x, y e z tais que x^2 -3y + 8z^3 = 2727.

É chatinho achar a solução, porém, é muito fácil conferir se a resposta dada é verdadeira ou não.

  • x = 5
  • y = 14
  • z = 7

Outra característica: é difícil de falsificar, no sentido de encontrar uma solução fácil que engane o sistema.

Em criptomoedas, o proof of work é utilizado para garantir que todas as transações no bloco foram verificadas.


Pensando bem, um diploma de uma boa faculdade é uma prova de trabalho também. É difícil de conseguir: 4 ou mais anos estudando, assinalando presença em aula, fazendo as atividades, etc. E o diploma é fácil de conferir: basta checar as informações junto à entidade emissora.

Uma certificação emitida por uma associação profissional, idem. Tem de gerência de projetos, de qualidade, várias de TI. Cursos online, a mesma coisa.

Hoje em dia, está mais fácil checar certificações. No meu LinkedIn, na parte de “Licenses and certificates”, basta ir no “See credential” para ser direcionado à instituição que garante o certificado.

Tudo isso, por conta de assimetria de informação. Sendo o mundo vasto, não conhecemos as pessoas, e se suas habilidades são suficientes para um serviço. Com essas provas de trabalho, o risco diminui: pelo menos, há um indício forte de que a pessoa conhece do tema – não é garantia absoluta, mas é melhor do que nada.


Até na natureza, o proof of work é importante. Por que algumas gazelas, mesmo fugindo de um leão, dão saltos altos, extravagantes e desnecessários? Uma teoria da evolução diz que esse tipo de salto é como um proof of work dos machos para as fêmeas do bando: “olha só, eu sou tão rápido e forte que estou pouco me lixando para esse leão feroz, até esnobo ele. Fiquem comigo, gatinhas”.

Outro exemplo é o das penas do pavão. Por qual motivo ele teria penas tão chamativas? Há uma desvantagem enorme em carregar tantas penas desnecessárias, que chegam a ter 2 m de altura: mais volume, mais peso, chama mais atenção dos predadores. É um sinal difícil de falsificar, e também funciona como um proof of work: “olha só, mesmo com toda essa parafernália, sou forte o bastante para sobreviver aos predadores”.

O proof of work é tão importante, que pode surgir de formas inesperadas: cartas escritas à mão. Na era pré-internet, era comum enviar cartas e cartões postais, acredite se quiser. Depois do e-mail, ninguém mais se dá ao trabalho de escrever uma carta, levar até os correios e postar. A contrapartida é que é tão fácil enviar mensagens hoje em dia, que estamos transbordando de informação.

Por ironia do destino, uma prova de trabalho difícil de falsificar é escrever uma carta à mão (não imprimir), e mandar para o destinatário. Tem infinito mais valor do que o spam enviado à milhares de pessoas ao mesmo tempo.

“Se eu não te conheço e você deseja me enviar uma mensagem, deve provar que gastou, digamos, dez segundos de tempo de CPU, apenas para mim e apenas para esta mensagem”, Cynthia Dwork e Moni Naor, criadores do protocolo proof of work.

Veja também:

https://en.wikipedia.org/wiki/Proof_of_work