Efeito borboleta, a Roda da Fortuna e as Moiras

A bola que bateu na trave. A moeda que deu coroa ao invés de cara. O número faltante da loteria…

O efeito borboleta é um termo derivado da teoria do caos. Uma borboleta batendo as asas no Brasil pode causar um furacão no Japão. Demonstra a impredictibilidade do futuro, e quão impactantes alguns eventos podem ser.

A história é não linear. Na maior parte do tempo, nada acontece. Subitamente, ocorrem grandes transformações capazes de mudar o destino de tudo, na Roda da Fortuna.

Queria narrar dois eventos na minha vida, que mudaram tudo.


1 – A prova da Fuvest de 1996

Eu estava no terceiro ano do segundo grau. Eu fiz colégio técnico, que tinha 4 anos de formação, sendo o quarto ano puramente técnico. Com 3 anos, eu já tinha tido a grade escolar normal, e poderia ir para a faculdade.

Portanto, era um resultado desejável, mas não uma obrigação passar no vestibular.

Fiz a Fuvest, para Engenharia na Escola Politécnica da USP. Era em duas fases, a primeira apenas assinalar alternativas. Tirei nota suficiente para passar para a segunda fase.

A segunda fase era composta de 5 dias de provas. Cada dia, uma ou duas matérias, e eram respostas discursivas.

Porém, cometi um erro que mudou completamente a minha vida.

Eu imaginava que a semana de provas começaria numa segunda-feira. Ia de segunda a sexta, os 5 dias da semana, perfeito, pensei. Entretanto, a primeira prova (de Português), começava realmente no domingo…

Resultado: vi pela televisão, já que na época não existia internet, que a Fuvest já tinha começado…

Fiz as demais provas, e, como esperado, fui muito bem em Matemática e Física, e na média no resto.

Sem a nota de Português, fiquei abaixo da linha de corte.

Fiz uma conta simples. Pela nota que tirei, somando uma nota média de Português, eu passaria na Fuvest naquele ano – não no curso que tinha escolhido, mas passaria.

A vida segue. Fiz o quarto ano do colégio junto com cursinho, onde aprendi matérias como Geografia, História e Química com uma profundidade extremamente maior do que tinha tido. No ano seguinte, acabei passando no ITA e na USP, optando pelo primeiro. Cinco anos depois, acabei indo para o Rio de Janeiro, onde fiquei por 8 anos e conheci a minha esposa. Trabalhei em consultoria e retornei a São Paulo, tive filhos e cá estou até hoje.

Se eu tivesse lembrado do dia da prova e passado na Fuvest, teria ido à USP em 1997, abandonando o quarto ano da escola técnica. Nunca teria vivido no RJ, nunca teria conhecido as pessoas que conheci por lá e nem trabalhado nos lugares onde trabalhei. Teria conhecido outras pessoas, feito outros trabalhos. Não entro no mérito de que seria melhor ou pior, este tipo de comparação nem faz sentido. Porém, seria uma vida completamente diferente, decidida em um único dia, mais de 20 anos atrás.


2 – A Bolsa para o Japão

Mais ou menos em 2010, eu estava cansado da vida que estava levando, e tentei duas bolsas de estudos para o Japão. Este tipo de programa tem uma frequência anual, e há diversos tipos. Eu tinha escolhido um enfoque mais acadêmico.

Há uma série de procedimentos burocráticos a fazer para pleitear essas bolsas. Documentação traduzida, cartas de recomendação, uma aceitação da faculdade no destino, exame médico. Entretanto, o que realmente contava para a escolha dos bolsistas era uma entrevista, com uma banca de professores.

Eu sempre tive um viés muito prático, de trabalhar em empresas ou consultoria em projetos na vida real. Meu lado acadêmico se resume a um mestrado e uns poucos artigos, e, realmente, eu não era um bom match para as bolsas citadas, olhando a posteriori.

Eu fui mal nas entrevistas. No final das contas, essas bolsas foram para outras pessoas.

A vida segue. Vendo hoje, pleiteei a bolsa pelos motivos errados. Queria mais uma saída honrosa para o que estava fazendo na época, do que realmente um desejo ardente de ir para o campo acadêmico num país distante. Passados alguns meses, fiz aquilo que realmente eu queria fazer. Voltei para São Paulo, mudei de colocação. Era recém-casado na época e tive a minha primeira filha em 2011.

O ponto que quero colocar aqui é o da não-linearidade. Imagine se tivessem poucos candidatos qualificados ou alguém da banca fosse com a minha cara, por acaso. Eu poderia ter obtido a bolsa, e vivido por três anos no Japão. Talvez estivesse por lá até hoje. Demoraria alguns anos a mais a ter filhos, ou nem os teria. Estaria trabalhando em algum outro lugar, impossível predizer.

Tudo isso, por conta de uma entrevista de 1h de duração… Um avaliador de mau humor… Uma borboleta que bate as asas no Brasil… Uma bola na trave… Um fio solto no tear da vida…

Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford, diz sobre ligar os pontos.

“Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.”

Mais difícil ainda de prever são os eventos que não ocorreram e poderiam ter ocorrido… se você tivesse ido naquele evento… se tivesse conversado com aquela garota simpática do outro lado… se tivesse viajado para fazer um bico no exterior nas férias de verão… Na maioria das vezes, nada diferente iria ocorrer. Em alguns poucos casos, tudo mudaria.

O mundo tem inúmeros casos de não-linearidade. Se tivesse chovido no Dia-D, talvez a operação toda fosse postergada. Se Churchill não fosse primeiro-ministro britânico, talvez Hitler tivesse conquistado a Europa. Se Genghis Khan não tivesse falecido, a Europa teria sido devastada pelos mongóis. Quem sabe?

As Moiras são três irmãs, da mitologia grega, que determinam o destino dos seres humanos. Uma faz o fio, a outra tece, e a terceira, corta. Elas utilizam a Roda da Fortuna: alguns fios são privilegiados, outros, não. Elas não são nem boas nem más, apenas fazem o seu trabalho. Uma vez tecido o destino da pessoa, nem os deuses têm o poder de alterar.

A nossa sorte é decidida por deusas caprichosas, que giram a Roda da Fortuna, que tecem a sorte das nossas vidas e escrevem no Livro do Destino.


Trilha sonora: In my life – The Beatles

Discurso de Steve Jobs em Stanford:

https://www.youtube.com/watch?v=UF8uR6Z6KLc

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moiras

https://ideiasesquecidas.com/2017/05/01/o-novo-homem-voador/

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/27/como-a-morte-de-um-velho-bebado-salvou-a-europa-da-devastacao-total/

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