Séries, Podcasts e Quadrinhos sobre Ditadores

Segue uma indicação bastante interessante de podcast sobre história: a série “Ditadores”, no Spotify. É excelente para quem gosta de áudiolivros, como eu.

Ela narra a história de alguns dos piores ditadores da história recente, de maneira bastante didática e em português:

  • Adolf Hitler
  • Benito Mussolini
  • Joseph Stálin
  • Kim Il Sung
  • Kim Jong Il

Para cada um, há dois episódios de uns 45 minutos. A série ainda está em andamento, com um lançamento por semana, sempre às terças-feiras.


Outras indicações:

Sobre Hitler, há inúmeros filmes, documentários e livros.
Sobre os demais, há um número bem menor de fontes.

1) O documentário Hitler, uma carreira, disponível na Netflix, se destaca por conter vídeos da época.

Muito interessante é ouvir o discurso real de Hitler. Mesmo sem saber alemão, é possível ler a linguagem corporal e o tom de voz da figura.

Apesar do discurso ter palavras fortes, Hitler tem um jeito afeminado. É paradoxal. A imagem que eu tinha era de um ditador tosco, um valentão – mas a imagem das filmagens é a de um político, não muito diferente dos políticos que conhecemos. Talvez por isso, muita gente não tenha levado a sério o discurso, e tenha votado nele apenas como um protesto contra a ordem vigente.


2) Hitler’s Circle of Evil.

O foco aqui é no círculo interno de Hitler, as pessoas que o ajudaram a chegar e a manter o poder. Alguns deles viriam a ser figuras chave no Terceiro Reich: Hermann Göring, Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e outros menos conhecidos, como Dietrich Eckart (escritor que lançou as bases ideológicas do nazismo).

São 10 episódios, e conta com detalhes a história deste período.


3) Vale indicar também a propaganda mais sensacional de todos os tempos, da Folha de São Paulo de 1987.

“Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo…


4) A série “Trótski”, na Netflix, mostra a trajetória de Leon Trótski e seu papel na Revolução Russa de 1917.

A série retrata Tróstski como alguém impiedoso, disposto a sacrificar a tudo e a todos – e é o que acaba ocorrendo, a todos à sua volta.

É uma obra controversa.


5) A morte de Stálin. É uma obra em quadrinhos. Mostra episódios das últimas horas de Stálin. Retrata fortemente o medo que as pessoas ao redor sentiam.

6) Sobre a Coreia do Norte, há pouca informação. Uma fonte surpreendente é o romance gráfico PyongYang.

O desenhista Guy Deslile viveu por um tempo na Coreia do Norte. Ele era o desenhista chefe de um grupo de desenhistas norte-coreanos, na produção de animações para a TV francesa. A razão de contratarem desenhistas norte-coreanos era o custo baixo.

Guy descreveu inúmeras situações que viveu na Coreia. O fato de todas as paredes terem retratos dos grandes líderes Kim Il Sung e Kim Jong Il. Um tradutor coreano o acompanhar para todos os lugares que ia (e ele não poderia ir para qualquer lugar, somente os lugares autorizados). O fato de quase não haver iluminação nas ruas.

Ele era um dos pouquíssimos estrangeiros no país. Havia somente dois hotéis para estrangeiros, e no que ele estava, somente um dos andares funcionava.

São ilustrações belíssimas. Vale muito a pena.
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O caranguejo-samurai Heikegani

“Kani” significa “caranguejo”, em japonês.

O Heikegani é o caranguejo de Heike. Nota-se uma certa semelhança com uma máscara de samurai.

Há uma lenda explicando o surgimento deste tipo exótico.

Em 1185, duas frotas de clãs poderosos se enfrentaram nos mares: Heike e Minamoto.
O objetivo era conquistar o poder do país todo.

O imperador (fantoche, diga-se de passagem) era um menino de 7 anos do clã Heike. Os Minamoto eram os aspirantes ao trono.

Os Heike foram derrotados, e o imperador menino se afogou no mar. Minamoto Yoritomo se tornou o primeiro Shogun, o chefe militar que exercia o poder de fato (colocando imperadores fantoche segundo a sua conveniência).

Segundo a lenda, caranguejos com a face de samurais começaram a aparecer perto do local da batalha. Seriam os guerreiros Heike, reencarnados na forma de caranguejo.

Carl Sagan menciona o caranguejo-samurai, na série Cosmos. Ele cita que tais caranguejos, quando pegos, não são comidos. Em respeito aos guerreiros antigos, são jogados de volta ao mar.

Quem desenhou o rosto de um samurai, segundo Sagan? Seria uma forma de seleção artificial. Um caranguejo comum seria comido normalmente. Um caranguejo que, aleatoriamente se parece com um ser humano, tem mais chances de ser jogado de volta ao mar…

Seja como for, os guerreiros de Heike continuam a sua batalha, até os dias de hoje.

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Heikegani

Não se apaixone pela solução

Christopher Vogler é uma espécie de roteirista dos roteiristas de Hollywood. Numa de suas aulas, ele afirma que um criador não deve se apaixonar pela solução.

Adotar tal abordagem pode levar a becos sem saída.

Eu já quebrei a cara me apaixonando pela solução. Há uns 10 anos, eu tinha uma base de dados para processar antes de uma análise de estoques. Não era absurdamente grande, mas também não era pequena: uma dúzia de planilhas, com umas 15 mil linhas cada.

Usei a minha ferramenta favorita, Excel VBA, ao invés de algum banco SQL. Remover duplicatas, juntar bases, essas coisas. O problema foi que o Excel 2007 não aguentou: os cálculos demoravam mais de meia hora, a planilha travava, e o pior, não dava para confiar na solução (alguma fórmula está errada ou o cálculo travou no caminho?).

Mesmo após ficar evidente que não era a melhor solução, havia a dúvida – faltam poucas semanas de trabalho, se eu recomeçar do zero, vai atrasar a entrega… ledo engano. Atrasou do mesmo jeito. Tive que quebrar muita pedra, e o resultado poderia poderia ser melhor.

A dica de Vogler é fazer o contrário: apaixone-se pelo problema, independente da solução. A história tem vida própria, ela escolhe o próprio final!

Trilha sonora: O mundo anda tão complicado – Legião Urbana

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2013/12/01/a-solucao-otima-para-o-problema-errado/

https://ideiasesquecidas.com/2016/01/27/a-verdade-e-o-conto/

A saída da Lei de Moore: hardware e software

Segue um artigo interessante.

Este defende que uma das saídas para a limitação da evolução dos computadores, a Lei de Moore, pode ser em software.

A Lei de Moore afirma que o número de transístores (unidade básica de computação) dobra a cada 18 meses, para um mesmo custo.

A grande miniaturização dos componentes eletrônicos dos últimos anos (e décadas) segue a curva prevista.

No final do dia, foi a evolução do hardware que permitiu o grande avanço computacional visto nos dias de hoje, em que um celular que cabe no bolso tem milhares de vezes de capacidade a mais do que o mais moderno supercomputador do passado.

Há algumas alternativas em hardware sendo exploradas: chips em 3D, computação biológica, computação quântica.

O artigo fornece mais uma alternativa: evolução em software.

Atualmente, há uma grande quantidade de sistemas que utilizam soluções prontas, como blocos de Lego que vão sendo montados sucessivamente uns sobre os outros. Ex. Python é uma linguagem de programação de alto nível, com poucos comandos é possível fazer muita coisa. Isso não é de graça, o preço é o overhead de processamento.

Se tais sistemas forem reescritos, tendo em vista a performance ao invés da velocidade em programar, podemos ter um grande aumento de velocidade para a mesma capacidade de processamento.

Ele chama de “redução” a reutilização de blocos de programação.

It sometimes yields a staggering amount of inefficiency. And inefficiencies can quickly compound. If a single reduction is 80 percent as efficient as a custom solution, and you write a program with twenty layers of reduction, the code will be 100 times less efficient than it could be.

Segue link: https://spectrum.ieee.org/tech-talk/computing/software/software-engineering-can-save-us-from-the-end-of-moores-law

A expedição Kon-Tiki

Para quem gosta de aventuras, segue a indicação de uma das histórias mais malucas de que o ser humano é capaz.

O norueguês Thor Heyerdahl queria mostrar que a colonização das ilhas Polinésias tinha origem nos indígenas da América do Sul.

Tendo vivido nas ilhas Polinésias por um período, ele notara uma corrente marítima vinda do leste. Também notou semelhança entre algumas estátuas nas Polinésias e no Peru, e culturas como a batata-doce.

Para provar o seu ponto, ele se propôs a uma aventura completamente insana: a bordo de uma jangada, construída apenas com materiais da antiguidade (toras e cordas), atravessar 8000 quilômetros de Oceano Pacífico!

Só para dar uma noção, a distância de Oiapoque ao Chuí é de 4.000 quilômetros. A jangada (nem barco era), iria de norte a sul do Brasil e voltaria, apenas sendo levada pela corrente e pelo vento!

Essa era a Expedição Kon-Tiki, em homenagem ao deus polinésio ancestral. Ocorreu em 1947.

A partir da aventura, ele publicou um livro e um documentário.

Há um filme de 2012, disponível no Prime Vídeo.

O filme é legal, é até fiel em vários pontos, porém, faz algumas dramatizações desnecessárias para uma aventura que é interessante por si só.

Prefiro o documentário original de 1950, no link a seguir.
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Há também um livro: https://amzn.to/3hQgwzB


Pincelei algumas cenas, a seguir.

A jangada foi feita utilizando 9 árvores grossas, de madeira balsa. Toras menores foram colocadas acima das toras grossas, um mastro de madeira bastante dura e uma cabana de bambu coberta com palha seca, pequena mas suficiente para os 6 tripulantes.


Somente cordas, sem pregos, sem cabo de aço. Segundo a antiga tradição polinésia, “Não devemos lutar contra a natureza. Devemos nos sujeitar a ela e ser flexíveis”.

A distância a ser percorrida do Peru para as Polinésias é muito grande. É a mesma distância do Peru até S. Francisco, ou de S. Francisco até a Islândia.

Eles também tinha um pequeno bote a remo como apoio. Na primeira vez que saíram com o bote, eles perceberam que a jangada andava rápido demais, mesmo sem as velas. Tiveram que remar com todas as forças para conseguir alcançar a mesma.

Eles utilizavam um sextante para estimar a localização. Sol, estrelas e conhecimento, só isso.

Uma das grandes objeções dos críticos era a comida. No caso dos aventureiros, eles levaram um grande estoque de ração e água, mas como um nativo faria?

O vídeo prova claramente que é possível conseguir peixe em alto-mar.

Havia muitos peixes próximos à balsa, procurando refúgio.

Peixes voadores também eram frequentes – estes pulavam na balsa à noite, e eram uma fonte constante de alimento.

A fim de justificar a parte científica da expedição, eles coletaram plâncton, alga e parasitas de peixes. Também descobriram uma nova espécie de peixe, uma espécie estranha de peixe cobra.

Em mais de uma ocasião, viram baleias próximas à jangada. Uma das vezes, parecia vir colidir diretamente com a embarcação, porém, o gigante passou por baixo, sem maiores problemas.

É claro que uma viagem dessas não poderia passar sem contratempos. Um deles foi que, somente após 45 dias de viagem, conseguiram contato no rádio amador.

Entre os contratempos, eram necessários constantes reparos na estrutura, na amarração das vigas principais, no manche.

Uma cena que fiquei em dúvida no filme, mas o documentário mostrou que era real. A fim de fazer o rádio amador pegar sinal, os tripulantes levantaram um balão com antena. O papagaio “Lolita”, o sétimo tripulante, viu o fio do balão e bicou, fazendo-os perder o mesmo.

Lolita não teve um bom destino. Após uma chuva, o mar a levou para sempre.

No documentário, eles citam que havia tubarões constantemente seguindo a jangada, principalmente atraídos por restos jogados.

Eles chegaram a pescar tubarões.


Era fácil fazer o monstro morder a isca – bastava peixe e sangue, que ele atacava cegamente – não tem medo, visto que não tem predadores. Içar o tubarão para bordo também não era difícil, porém, dentro da jangada, ele podia ficar por uns bons 45 minutos brigando – e poderia machucar alguém, com os dentes afiados.

A foto a seguir mostra que eles conseguiram pescar à vontade, apenas com instrumentos rudimentares: arpão, anzol e linha.

Após cerca de 90 dias, pássaros no céu eram o sinal de que a terra estava próxima.

Encontraram uma ilha, porém não conseguiram fazer a jangada desembarcar na mesma – afinal, tinham apenas a embarcação e uma vela.

A questão principal de uma viagem dessas não era distância, mas direção. É possível flutuar ao sabor das correntezas por 8000 kilômetros, mas não conseguiam atracar na ilha a 200 metros.

Encontraram nativos em botes alguns dias depois, porém, novamente, não conseguiram desembarcar.

Após mais alguns dias, eles tiveram que atravessar um recife de corais, para desembarcar numa ilha. A jangada foi destruída ao atravessar o recife. E a ilha estava desabitada.

Teriam eles chegado sãos e salvos? Alguma outra intercorrência machucou alguém? Teriam sido atacados por sereias, tais como Ulisses na Odisseia?

Assista o filme ou o documentário para saber. De novo, é um prato cheio para quem gosta de aventuras.

Atualmente, estou com receio até de tomar metrô, em virtude da pandemia. Imagine a coragem de ficar 101 dias isolado no mar, com futuro incerto, vizinho de tubarões e baleias!

Seguem alguns links e outras indicações:

Vi o filme no Prime Video. Como o catálogo é rotativo, destaco que foi agora em junho de 2020.
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Documentário original de 1950
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Livro Kon-Tiki: https://amzn.to/3hQgwzB

Notícia bem recente, que encontra traços de DNA sul americano nos polinésios: https://marsemfim.com.br/colonizacao-da-polinesia-dna-prova-tese-de-thor-heyerdahlt/

Outras recomendações, na mesma linha de aventuras extremas:

A incrível viagem de Shackleton. Sobre o explorador que tentou alcançar o Pólo Sul, porém teve a embarcação presa no gelo. Tiveram que sobreviver até a chegada do verão.

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O País das Sombras Longas. Como vivem os esquimós do Pólo Norte? O livro relata diversas histórias, até cruéis, deste lugar inóspito.

A reinvenção da roda, dos relógios e dos radinhos de pilha

Nos últimos dias, fiz um programinha em Excel (e em Python) de um Teleprompter – aqueles textos rolantes para auxiliar o pessoal da televisão.

Pediram para eu gravar um vídeo. Ao invés de improvisar, escrevi um texto para ler. E surgiu a ideia de criar um teleprompter simples. Está disponível aqui https://github.com/asgunzi/Teleprompter

Um comentário que surgiu, e é pertinente: “Há vários softwares deste tipo na web, é só procurar e baixar. Para que reinventar a roda?”

Algumas respostas: para aprender a criar. Primeiro, as rodas básicas. Depois, rodas cada vez melhores. Quem sabe, até superar o design original. Outro motivo: Uma roda sua é infinitamente mais legal que uma roda de alguém.

Meu pai conta uma história engraçada.

Na faculdade, um dos colegas de quarto gostava de ouvir o seu rádio de pilha (devia ser anos 60). Como o volume do rádio era alto, incomodava quem queria sossego para estudar.

Por outro lado, tinha outro colega que adorava desmontar relógios e dispositivos para saber como funcionavam as coisas. O detalhe é que ele sabia desmontar, porém, nunca conseguia fazer algo voltar a funcionar.

Um dia, o rádio do primeiro colega parou de funcionar.

Meu pai teve uma ideia. Sugeriu que o segundo colega desse uma olhada. “Ele vai desmontar o rádio e quebrar de vez, nunca mais volta à vida”, pensou.

Qual foi sua surpresa, no dia seguinte, quando o radinho estava estridente, vivo e alegre.

Não é que, de tanto fuçar e mexer em tudo, o desmontador de relógios finalmente conseguira consertar algo!

Reinvente a roda, sempre que possível!

Trilha sonora: J. S. Bach, Little Suite from The Anna Magdalena Notebook

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2019/06/06/recado-para-os-loucos-e-desajustados/

Texto sobre as bicicletas motorizadas de Soichiro Honda: https://ideiasesquecidas.com/2015/09/29/bicicletas-motorizadas-e-que-se-dane-a-crise/

Tesla vale mais do que a Toyota?

De um lado, a Tesla. Fabricante revolucionária de veículos elétricos, inovadora, com o top de tecnologia disponível no mercado. Começou a dar lucro recentemente.

Do outro, a Toyota. Veículos tradicionais, com matriz energética convencional. Carros de altíssima qualidade e durabilidade, diga-se de passagem.

O valor de mercado da Tesla, que vem subindo enormemente faz alguns anos, superou o da Toyota neste mês.

A Tesla com valor de mercado de US$ 190 bilhões, e a Toyota, US$ 180 bi.
Receita anual da Tesla: US$ 7 bi. Toyota: US$ 250 bi.

A Tesla fabrica 360.000 veículos por ano. A Toyota, 10.000.000 de veículos por ano.

Seria este um sinal do valor da inovação e tecnologia em nossas vidas?

Ou seria uma bolha especulativa do mercado financeiro, inflada pelos sucessivos quantitative easings desde 2008, e juros abaixo de zero no mundo todo?

Eu sou do tipo chato, cético, mala, retranqueiro.

Essa injeção de dinheiro não virou hiperinflação, como alguns pregavam. Mas criou bolhas.

O mundo está muito esquisito. Algumas bolhas estouraram, como a do WeWork. A pandemia mudou o jogo de diversos negócios. Porém, ainda existem diversas distorções.

Não se sabe como será o futuro.

Talvez a Tesla quebre todas as montadoras tradicionais num futuro elétrico.

Talvez não.

https://insideevs.uol.com.br/news/428094/tesla-mais-valiosa-mundo/

Efeito borboleta, a Roda da Fortuna e as Moiras

A bola que bateu na trave. A moeda que deu coroa ao invés de cara. O número faltante da loteria…

O efeito borboleta é um termo derivado da teoria do caos. Uma borboleta batendo as asas no Brasil pode causar um furacão no Japão. Demonstra a impredictibilidade do futuro, e quão impactantes alguns eventos podem ser.

A história é não linear. Na maior parte do tempo, nada acontece. Subitamente, ocorrem grandes transformações capazes de mudar o destino de tudo, na Roda da Fortuna.

Queria narrar dois eventos na minha vida, que mudaram tudo.


1 – A prova da Fuvest de 1996

Eu estava no terceiro ano do segundo grau. Eu fiz colégio técnico, que tinha 4 anos de formação, sendo o quarto ano puramente técnico. Com 3 anos, eu já tinha tido a grade escolar normal, e poderia ir para a faculdade.

Portanto, era um resultado desejável, mas não uma obrigação passar no vestibular.

Fiz a Fuvest, para Engenharia na Escola Politécnica da USP. Era em duas fases, a primeira apenas assinalar alternativas. Tirei nota suficiente para passar para a segunda fase.

A segunda fase era composta de 5 dias de provas. Cada dia, uma ou duas matérias, e eram respostas discursivas.

Porém, cometi um erro que mudou completamente a minha vida.

Eu imaginava que a semana de provas começaria numa segunda-feira. Ia de segunda a sexta, os 5 dias da semana, perfeito, pensei. Entretanto, a primeira prova (de Português), começava realmente no domingo…

Resultado: vi pela televisão, já que na época não existia internet, que a Fuvest já tinha começado…

Fiz as demais provas, e, como esperado, fui muito bem em Matemática e Física, e na média no resto.

Sem a nota de Português, fiquei abaixo da linha de corte.

Fiz uma conta simples. Pela nota que tirei, somando uma nota média de Português, eu passaria na Fuvest naquele ano – não no curso que tinha escolhido, mas passaria.

A vida segue. Fiz o quarto ano do colégio junto com cursinho, onde aprendi matérias como Geografia, História e Química com uma profundidade extremamente maior do que tinha tido. No ano seguinte, acabei passando no ITA e na USP, optando pelo primeiro. Cinco anos depois, acabei indo para o Rio de Janeiro, onde fiquei por 8 anos e conheci a minha esposa. Trabalhei em consultoria e retornei a São Paulo, tive filhos e cá estou até hoje.

Se eu tivesse lembrado do dia da prova e passado na Fuvest, teria ido à USP em 1997, abandonando o quarto ano da escola técnica. Nunca teria vivido no RJ, nunca teria conhecido as pessoas que conheci por lá e nem trabalhado nos lugares onde trabalhei. Teria conhecido outras pessoas, feito outros trabalhos. Não entro no mérito de que seria melhor ou pior, este tipo de comparação nem faz sentido. Porém, seria uma vida completamente diferente, decidida em um único dia, mais de 20 anos atrás.


2 – A Bolsa para o Japão

Mais ou menos em 2010, eu estava cansado da vida que estava levando, e tentei duas bolsas de estudos para o Japão. Este tipo de programa tem uma frequência anual, e há diversos tipos. Eu tinha escolhido um enfoque mais acadêmico.

Há uma série de procedimentos burocráticos a fazer para pleitear essas bolsas. Documentação traduzida, cartas de recomendação, uma aceitação da faculdade no destino, exame médico. Entretanto, o que realmente contava para a escolha dos bolsistas era uma entrevista, com uma banca de professores.

Eu sempre tive um viés muito prático, de trabalhar em empresas ou consultoria em projetos na vida real. Meu lado acadêmico se resume a um mestrado e uns poucos artigos, e, realmente, eu não era um bom match para as bolsas citadas, olhando a posteriori.

Eu fui mal nas entrevistas. No final das contas, essas bolsas foram para outras pessoas.

A vida segue. Vendo hoje, pleiteei a bolsa pelos motivos errados. Queria mais uma saída honrosa para o que estava fazendo na época, do que realmente um desejo ardente de ir para o campo acadêmico num país distante. Passados alguns meses, fiz aquilo que realmente eu queria fazer. Voltei para São Paulo, mudei de colocação. Era recém-casado na época e tive a minha primeira filha em 2011.

O ponto que quero colocar aqui é o da não-linearidade. Imagine se tivessem poucos candidatos qualificados ou alguém da banca fosse com a minha cara, por acaso. Eu poderia ter obtido a bolsa, e vivido por três anos no Japão. Talvez estivesse por lá até hoje. Demoraria alguns anos a mais a ter filhos, ou nem os teria. Estaria trabalhando em algum outro lugar, impossível predizer.

Tudo isso, por conta de uma entrevista de 1h de duração… Um avaliador de mau humor… Uma borboleta que bate as asas no Brasil… Uma bola na trave… Um fio solto no tear da vida…

Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford, diz sobre ligar os pontos.

“Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.”

Mais difícil ainda de prever são os eventos que não ocorreram e poderiam ter ocorrido… se você tivesse ido naquele evento… se tivesse conversado com aquela garota simpática do outro lado… se tivesse viajado para fazer um bico no exterior nas férias de verão… Na maioria das vezes, nada diferente iria ocorrer. Em alguns poucos casos, tudo mudaria.

O mundo tem inúmeros casos de não-linearidade. Se tivesse chovido no Dia-D, talvez a operação toda fosse postergada. Se Churchill não fosse primeiro-ministro britânico, talvez Hitler tivesse conquistado a Europa. Se Genghis Khan não tivesse falecido, a Europa teria sido devastada pelos mongóis. Quem sabe?

As Moiras são três irmãs, da mitologia grega, que determinam o destino dos seres humanos. Uma faz o fio, a outra tece, e a terceira, corta. Elas utilizam a Roda da Fortuna: alguns fios são privilegiados, outros, não. Elas não são nem boas nem más, apenas fazem o seu trabalho. Uma vez tecido o destino da pessoa, nem os deuses têm o poder de alterar.

A nossa sorte é decidida por deusas caprichosas, que giram a Roda da Fortuna, que tecem a sorte das nossas vidas e escrevem no Livro do Destino.


Trilha sonora: In my life – The Beatles

Discurso de Steve Jobs em Stanford:

https://www.youtube.com/watch?v=UF8uR6Z6KLc

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moiras

https://ideiasesquecidas.com/2017/05/01/o-novo-homem-voador/

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/27/como-a-morte-de-um-velho-bebado-salvou-a-europa-da-devastacao-total/

A mentalidade do caranguejo

Coloque um monte de caranguejos num balde. Eles vão tentar escapar, escalando as paredes. Nisso, um caranguejo se engancha no outro, puxando para baixo o que está acima. No final, ninguém consegue sair do balde.

Daí deriva o termo “mentalidade de caranguejo” para descrever comportamento similar: fofocas e puxadas de tapete para derrubar aquele que se destaca, em especial nas corporações. “Se eu não posso, você também não pode”.



Outra história sobre caranguejo. A segunda missão de Hércules era derrotar a Hidra de Lerna, o terrível monstro de muitas cabeças. Ao cortar uma cabeça, surgiam duas no lugar.

Para ajudar a Hidra, Hera enviou um caranguejo. Este ficou atazanando Hércules na já difícil batalha contra a Hidra.  


Hércules deu um pisão no caranguejo, que se despedaçou todo.

Hera, em homenagem ao caranguejo, criou a constelação de Câncer.

Moral da história: Não seja um caranguejo. Quando aparecer algum, dê um chega-pra-lá nele.

Salário médio aumenta durante pandemia

Um excelente artigo, a seguir.

Aprende e passa

Esta é uma daquelas notícias que mostram como é importante escolher o indicador certo e olhar mais de um indicador antes de pular direto para conclusões. Um leitor menos atento ou um gestor mal intencionado pode escolher quais verdades mostrar, não é mentira, mas também não é toda verdade.

Esta notícia, no mínimo estranha e aparentemente positiva é real. Em abril, o valor pago por hora trabalhada nos Estados Unidos (mas tenho certeza que se aplica também ao Brasil e a boa parte do mundo) aumentou. E por que isso seria ruim?

Matemática simples, valor médio pago por hora trabalhada é o somatório do valor pago dividido pelo somatório de horas trabalhadas. Acontece que em abril muita gente que ganhava pouco perdeu o emprego e passou a ganhar nada, ao passo que profissionais melhor remunerados não foram afetados, aumentando assim a média da hora trabalhada.

A matéria do link abaixo…

Ver o post original 88 mais palavras

É bom ter Platão do seu lado

Durante a atual quarentena, adquiri o hábito de ler 20 min (pelo menos) de um livro de filosofia por dia. O faço logo que acordo, utilizando o método Pomodoro: coloco um timer, e foco atenção total no tema.

Livros de filosofia são densos, difíceis de entender, portanto tamanha concentração. Nos últimos dias, estava lendo Immanuel Kant. Se entendi 10%, foi muito.

Uma das minhas metas é ler todos os diálogos de Platão em um ano. Os livros, já tenho do meu lado.

Platão tem um estilo poético. Os seus Diálogos, com personagens diversos entrando e saindo, lembram uma peça de teatro.

É como se Platão estivesse escrito a sua Odisseia. Sócrates seria Ulisses, numa jornada no mar, enfrentando diversos tipos de monstros (o Cíclope, Circe, as sereias, no caso de Sócrates, os sofistas Menôn, Górgia, Protarco), cada qual em sua especialidade (retórica, política, virtude).

Sobre Górgia, é o diálogo mais interessante que li até agora. Górgia é um aristocrata da época, versado na arte da Retórica.

Tem um momento que Sócrates e Polo (discípulo de Górgia) começam a discutir sobre Poder.

  • Polo defende que o Poder é sempre algo bom.
  • Sócrates, que tiranos e oradores que têm poder, na verdade são os que têm o menor poder.

  • Polo defende que é invejável ter poder. Poder fazer o que pessoas comuns não conseguem. Poder praticar injustiças e não ser punido.
  • Sócrates retruca, não devemos invejar quem não merece. Quem tem o poder e o usa injustamente, é objeto de pena. É um miserável, digno de compaixão.

Durante o diálogo, eles citam um poderoso da Grécia antiga. Imagine um Joesley Batista, um Marcelo Odebrecht, nos dias de hoje. Alguém que enriqueceu com acordos injustos feitos diretamente com a cúpula do governo.

Boa parte dos recursos que foram para os seus projetos (e seus bolsos), poderiam ter destinação diferente, mais nobre, digamos em hospitais e treinamento de médicos, que seriam úteis hoje, uns 10 anos depois. Uma diferença é que Joesley e os outros foram presos e confessaram parte dos crimes.

Imagine uma situação em que o poderoso nunca tivesse sido punido, pelo contrário, estivesse até hoje prosperando. Ele teria a sua fortuna bilionária. Seria responsável por imenso conglomerado (e as vidas que dependem destes). Apareceria continuamente em capas de revistas de business e de fofocas, com as mais belas amantes em sua casa de férias paradisíaca na Tailândia.

  • Polo diz que prefere praticar injustiças do que sofrer injustiças.
  • Sócrates defende que prefere sofrer injustiças, mas continuar ser uma pessoa de princípios, do que praticar injustiças.

Polo prefere ser o poderoso.

Sócrates prefere ser a pessoa virtuosa, mesmo que vítima da falta de hospitais.

Eu e a maioria das pessoas que conheço, sem dúvida alguma, prefere a posição de Sócrates.

Este texto não muda nada na vida das pessoas. Mas é bom saber que uma das maiores mentes de todos os tempos também faria o que eu e a maioria das pessoas que conheço faz: viver uma vida honesta, justa, dentro das leis.

É bom ter Platão do seu lado.

Link na Amazon: https://amzn.to/2MxSjju

A era dos cursos presenciais acabou!

Em termos de custo, qualidade e praticidade, cursos on-line vencem com facilidade. A única real desvantagem é a falta de networking entre os alunos.

Seguem algumas indicações.

Bolsa da Amazon e a Udacity, de introdução a machine learning. Vai até Julho.
https://sites.google.com/udacity.com/aws-machine-learning/home

Sobre Power BI, a EDX tem o curso a seguir – gratuito para visualização
https://www.edx.org/course/analyzing-and-visualizing-data-with-power-bi-2

A Kaggle é uma plataforma de desafios de data science. Já participei de alguns, e é num nível bem alto, com equipes do mundo todo e prêmios para os melhores colocados. https://www.kaggle.com/

Há opções mais completas (e pagas). Seguem algumas:

Nanodegree em Python, análise e visualização de dados na Udacity
https://www.udacity.com/course/data-analyst-nanodegree–nd002

Python básico, voltado para análise de dados, na EDX
https://www.edx.org/course/analytics-in-python

Para profissionais de Supply Chain, a indicação abaixo é do amigo Marcelo Tescari, um dos maiores especialistas no tema.
https://www.edx.org/micromasters/mitx-supply-chain-management

Há um universo muito maior a ser explorado, em business, finanças e outros ramos do conhecimento. Favor deixar outras indicações nos comentários.