Como ficar rico (sem ter sorte)

Este artigo é baseado em uma série de tweets de Naval Ravikant, CEO da AngelList, uma plataforma para conectar startups e investidores-anjo. Eu (Arnaldo Gunzi) acredito que Naval conseguiu compilar pontos extremamente importantes, e que estão em linha com toda a filosofia que é ensinada neste espaço. Eu traduzi e editei o conteúdo, tirando alguns pontos para simplificar e explicando outros, mas a essência é a mesma.

Este é um artigo importante e estou mantendo como um brinde exclusivo aos leitores deste sítio, sem divulgar amplamente o mesmo.

1) Busque riqueza, não dinheiro ou status. A riqueza é ter ativos que rendem enquanto você dorme. Dinheiro é como transferimos tempo e riqueza. Status é seu lugar na hierarquia social.

2) Você não vai ficar rico alugando seu tempo. Você deve possuir equities – um pedaço de um negócio – para ganhar sua liberdade financeira.

3) Você vai ficar rico dando à sociedade o que ela quer, mas ainda não sabe como conseguir. Ou seja, agregando valor de verdade. Em escala.

4) Escolha uma indústria onde você pode jogar jogos de longo prazo com pessoas de longo prazo.

5) A Internet ampliou maciçamente o possível espaço de carreiras. A maioria das pessoas ainda não descobriu isso.

6) Jogue jogos iterados. Todos os retornos na vida, seja em riqueza, relacionamentos ou conhecimento, vêm de juros compostos.

7) Escolha parceiros de negócios com alta inteligência, energia e, acima de tudo, integridade.

8) Não faça parceria com cínicos e pessimistas. Suas crenças são profecias autorrealizáveis.

9) Aprenda a vender. Aprenda a construir. Se você pode fazer as duas coisas, você será imbatível.

10) Não há esquemas ricos rápido. É só outra pessoa ficando rica usando você.

11) Não há uma habilidade chamada “negócios”. Evite revistas de negócios e aulas de negócios.

12) Conhecimentos específicos são muitas vezes altamente técnicos ou criativos. São aqueles que não podem ser terceirizados ou automatizados.

13) Alavancagem é um multiplicador de forças. A alavancagem dos negócios vem de capital, pessoas e produtos sem custo marginal de reprodução (ex. código e mídia).

14) Abrace a responsabilidade e arrisque os negócios com seu próprio nome. A sociedade irá recompensá-lo.

15) Trabalhe o máximo que puder. Com quem você trabalha e no que trabalha são mais importantes do que apenas trabalhar duro.

16) Defina um custo da hora do seu trabalho. Se um problema economizará menos do que seu custo horário, ignore-o. Se terceirizar uma tarefa custará menos do que sua taxa horária, terceirize-a.

17) A criação de riqueza ética é possível. Se você secretamente desprezar a riqueza, isso vai iludi-lo.

18) Torne-se o melhor do mundo no que você faz. Continue redefinindo o que você faz até que isso seja verdade.

19) Quando você finalmente for rico, você vai perceber que não era o que você estava procurando em primeiro lugar. Mas isso é para outro dia.

(https://twitter.com/naval/status/1002103360646823936)


Meus comentários:

1. Busque riqueza, não dinheiro ou status. A riqueza é ter ativos que rendem enquanto você dorme. Dinheiro é como transferimos tempo e riqueza. Status é seu lugar na hierarquia social.

Diz o educador financeiro Bastter, que “Patrimônio não se gira, se acumula”.

O patrimônio que rende quando você dorme pode ser aluguel de imóveis, dividendos de ações, capital rendendo, dividendo de trabalhos como publicação de livros, remuneração de sites como Youtube, e outras tantas coisas a mais.

É como uma galinha dos ovos de ouro – ter a galinha é mais importante do que ter um pouco de ouro.


2) Você não vai ficar rico alugando seu tempo. Você deve possuir equities – um pedaço de um negócio – para ganhar sua liberdade financeira.

Vender o seu tempo significa ser empregado. Trocar riscos por uma taxa fixa.

Riscos do negócio podem ser positivos ou negativos – quando a empresa vai excelentemente bem, o retorno é o mesmo (ou próximo) a quando a empresa vai excelentemente mal.

É claro que nem todos conseguem assumir riscos, então a remuneração por ser empregado é o caminho mais simples.

Porém, para haver um salto, para você realmente possuir o upside positivo, é necessário ter uma boa parte da propriedade (e riscos) de um negócio.


3) Você vai ficar rico dando à sociedade o que ela quer, mas ainda não sabe como conseguir. Ou seja, agregando valor de verdade. Em escala.

Uma palavra-chave é agregar valor de verdade. Resolver um problema que facilite a vida das pessoas, diminua custos das empresas, ajude-as a evoluir.

Outra palavra-chave é escala. Se a cada vez que a solução for aplicada for necessário o mesmo esforço por sua parte, não é uma solução escalável. Se cada nova solução exigir esforço decrescente, é escalável. Um livro, que demanda apenas uma cópia adicional, é escalável. Uma música, idem, software, idem.

Note que não é nada fácil. Soluções escaláveis têm o efeito “winner takes it all”. Poucos vencedores para muitos perdedores. Ex. dos milhares de apps na Apple Store, temos apenas um punhado, e sempre os mesmos: Whatsapp, Facebook, Twitter, Google maps…


4) Escolha uma indústria onde você pode jogar jogos de longo prazo com pessoas de longo prazo.

O longo prazo inevitavelmente chega. Soluções de curto prazo e pessoas que pensam a curto prazo vão causar distorções, empurrar a conta com a barriga. E a conta sempre chega no final. É melhor construir certo desde o início, tomar o remédio amargo, a farrear no presente e sofrer uma cirurgia no futuro.


5) A Internet ampliou maciçamente o possível espaço de carreiras. A maioria das pessoas ainda não descobriu isso.

A internet e novas tecnologias (mobile, automação, globalização, novos materiais, big data, AI) estão mudando radicalmente a forma de trabalho, interação entre pessoas, capacidade de geração de valor e a lógica do emprego.

Qual o emprego do futuro?

Poucas pessoas vão conseguir, de fato, explorar o potencial deste novo mundo. Com certeza, haverá mais perdedores do que ganhadores.


6) Jogue jogos iterados. Todos os retornos na vida, seja em riqueza, relacionamentos ou conhecimento, vêm de juros compostos.

Os juros compostos têm o poder de multiplicar exponencialmente os investimentos colocados.

Juros compostos = tempo, paciência e disciplina para semear todos os dias alguma coisa, trabalhar para cultivar bons relacionamentos, trabalhar para estar sempre agregando valor. É melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

Este é outro ponto que não é nada fácil de atingir.


7) Escolha parceiros de negócios com alta inteligência, energia e, acima de tudo, integridade.

Sozinho, é impossível chegar longe. Parcerias, bons contatos, são vitais.

Integridade e ética são essenciais, ainda mais quando pensamos em longo prazo e retornos compostos.


8) Não faça parceria com cínicos e pessimistas. Suas crenças são profecias autorrealizáveis.

Tanto a pessoa que acha que pode quanto a que acha que não pode estão corretos.

O cínico nunca vai interpretar uma pergunta ou comportamento de uma forma positiva, ele vai achar uma forma de interpretar como um ataque a ele, uma derrota sua, algo negativo.


9) Aprenda a vender. Aprenda a construir. Se você pode fazer as duas coisas, você será imbatível.

Saber criar sem saber vender tem alcance limitado. Todos somos vendedores de nossas ideias e nossos serviços. Temos que aprender a comunicar e a negociar.

Saber vender sem saber criar é vazio, tão falso quanto uma nota de 3 reais.

Saber fazer ambos é muito difícil, e quem o consegue, é potencialmente imparável.


10) Não há esquemas ricos rápido. É só outra pessoa ficando rica usando você.

Um conselho que dou a todos, especialmente em pessoas jovens em início de carreira: não existem atalhos. Tome o caminho mais longo, o mais difícil, que dá mais trabalho.

Não porque não existam atalhos de verdade, e sim porque para dominar os atalhos, é necessário conhecer o caminho completo.

O mais provável é que os atalhos fáceis sejam armadilhas, algumas delas com potencial de destruir o futuro da pessoa irremediavelmente.


11) Não há uma habilidade chamada “negócios”. Evite revistas de negócios e aulas de negócios.

1 kg de ação = 1000 kg de teoria.

Professor de empreendedorismo não faz sentido. Ninguém nunca vai empreender seguindo um manual. Os manuais ajudam a pessoa a evitar erros, no máximo.

Pessoas práticas dificilmente teorizam. E teóricos dificilmente fazem algo na prática.

Outro dia, perguntaram qual o livro o Paulo Guedes tinha escrito. Resposta: nenhum livro. Daí, as críticas: “Ain, se ele não escreveu nenhum livro, não é bom”. Muito pelo contrário. O Paulo Guedes é um homem prático, que manja muito e faz acontecer. Teorizar é uma habilidade diferente de agir.


12) Conhecimentos específicos são muitas vezes altamente técnicos ou criativos. São aqueles que não podem ser terceirizados ou automatizados.

Conhecimentos especializados são encontrados perseguindo sua curiosidade genuína e paixão ao invés do que está na moda agora. Construir conhecimentos específicos será como brincar para você, mas vai parecer trabalho para os outros.

Daqui a uns 10 anos, a automação, a IA e métodos computacionais ocuparão uma fatia importante dos empregos atuais.

O seu conhecimento deve ser superior ao que é possível automatizar, para jogar este jogo. Ou deve ser altamente específico, digamos, um encanador, um enfermeiro.

Vira e mexe, alguém faz perguntas como “é melhor fazer administração ou economia para o mercado hoje? Ciências da computação está demandando gente? Engenharia civil está bombando?”

A resposta correta é que não interessa o que está bombando ou não, porque, quando a pessoa se formar, serão outras profissões que estarão na moda. E, mesmo que ela acerte qual é, isso não interessa. Porque o que vale não é o rótulo “engenheiro” ou “administrador”, mas sim, o que ela entrega de valor na prática. As pessoas devem buscar aquilo que elas fazem de melhor.

Vejo como um erro subestimarem profissões técnicas como marceneiro, soldador, encanador. Estes exigem habilidades manuais, anos de aprendizado, e teoricamente seriam menos remunerados que cargos de nível superior. Porém, o que está acontecendo hoje é que muitos jovens recém formados estão trabalhando como assistentes administrativos, gerando pouco valor em ocupações que serão esmagadas com o avanço de processos e sistemas.

É a armadilha da complexidade atuando em nosso cotidiano.


13) Alavancagem é um multiplicador de forças. A alavancagem dos negócios vem de capital, pessoas e produtos sem custo marginal de reprodução (ex. código e mídia).

Um exemplo para ilustrar.

Tenho uma aplicação de R$ 10 mil. Mesmo que, por um golpe de sorte, eu consiga dobrar este valor, terei apenas R$ 20 mil – é bom, mas não muda nada.

Já dobrar uma aplicação de R$ 500 mil para 1 milhão faz uma diferença significativa. Como estou supondo que não tenho os 500 mil, estes teriam que vir de outras pessoas, na forma de empréstimo, investimento, parcerias – isto é a alavancagem.

A alavancagem também traz riscos alavancados – um upside enorme e um downside enorme.

Capital e mão-de-obra podem ser alavancados. Há um exército de robôs e servidores que podem ajudar a alavancar um negócio.

Fazer tudo sozinho, sem alavancagem, é possível e desejável numa escala menor. Para escalar de verdade, não dá, tem que haver alavancagem.

Não falta capital no mundo. Faltam projetos bons, know-how e know-who para fazer com que esses projetos encontrem os investidores e comecem a gerar frutos.


14) Abrace a responsabilidade e arrisque os negócios com seu próprio nome. A sociedade irá recompensá-lo.

Assumir responsabilidades, assumir riscos, empreender. Fazer acontecer é muito difícil, é um trabalho árduo e que pode não dar certo.

Mais fácil é ficar sentado reclamando que ninguém faz nada, ou que o governo deveria fazer.

Todas as vezes que o governo faz algo, tende a ser ineficiente – ou ele gasta o dobro ou mais do que poderia ser gasto, ou a ação tomada causa consequências de segunda ordem indesejadas – isso tudo porque burocratas do Estado não têm a pele no jogo.

O fator risco muda tudo. Se não houver bom gerenciamento, a empresa quebra. Se o produto ou serviço não funcionarem, a empresa está fora.

Nassim Taleb diz que empreendedores são heróis invisíveis. Graças a centenas de milhares de empreendedores que assumiram riscos e quebraram, temos o padrão de vida que temos hoje. Somos antifrágeis à custa da fragilidade desses inúmeros anônimos, e, como sociedade, precisamos de mais gente assim.


15) Trabalhe o máximo que puder. Com quem você trabalha e no que trabalha são mais importantes do que apenas trabalhar duro.

Temos uma quantidade limitada de tempo e recursos neste planeta.

Numa empresa, fala-se bastante em maximizar a utilização de seu maquinário mais caro. Como indivíduos de alto nível, o maquinário mais caro que temos é o nosso talento, nosso cérebro, nosso potencial produtivo.

Se você está subutilizando o seu talento, deve tentar de alguma forma maximizá-lo.

O trabalho tem que ser algo recompensador, algo que tenha os três eixos do Ikigai: ser algo que você tenha talento para fazer, que você goste, e que o mundo reconheça (remunere) proporcionalmente.

Aumento de salário, ou aumento de receita são consequência. Não é garantia que estes venham, com a maximização do potencial. Entretanto, sem o trabalho equivalente, os aumentos nunca virão.


16) Defina um custo da hora do seu trabalho. Se um problema economizará menos do que seu custo horário, ignore-o. Se terceirizar uma tarefa custará menos do que sua taxa horária, terceirize-a.

É um erro assumir todo o trabalho para si. Vale mais ensinar outros a fazerem, ou pagar para que outros façam quando o valor agregado é menor. Assim, é possível escalar o resultado.

Outra grande parte do trabalho é dizer “não”. Um trabalho mal desenhado pode gerar mais dor de cabeça do que benefícios. Um trabalho de baixo valor só vai desperdiçar tempo.


17) A criação de riqueza ética é possível. Se você secretamente desprezar a riqueza, isso vai iludi-lo.

No mundo cotidiano, criou-se a imagem de que riqueza é ruim, ou que é necessário ser corrupto para conseguir riquezas.

Há maneiras éticas de obter riquezas, sem atalhos. Vai demorar, vai ser necessário muito trabalho, mas é possível.

Riqueza não significa necessariamente ser bilionário, mas riqueza suficiente para viver bem, cuidar bem da família, viajar de vez em quando e ter tranquilidade para o futuro, dormindo em paz pelo trabalho entregue ser ético.

Acima de um certo nível, não há correlação entre riqueza e felicidade.

O que existe é correlação no sentido oposto: a falta de riqueza abaixo de certo nível causa falta de felicidade: porque a pessoa não consegue pagar o ensino básico dos filhos, porque ela tem que viver longe, por não ter acesso a saúde, etc…


18) Torne-se o melhor do mundo no que você faz. Continue redefinindo o que você faz até que isso seja verdade.

Me vem à mente o livro Marketing de guerra. Ele diz que a cabeça das pessoas é como uma montanha a ser tomada numa batalha. Só há espaço para um nome, na montanha. Digamos, qual o nome vem à mente quando pensamos em sabão em pó? Omo, é claro.

A segunda regra do marketing de guerra diz para redefinirmos as categorias, abrindo nichos, explorando montanhas desocupadas. Digamos, quem é o maior especialista em trabalhos de otimização matemática dentro da empresa?

É muito, muito difícil bater o melhor do mundo em algum job específico.


19) Quando você finalmente for rico, você vai perceber que não era o que você estava procurando em primeiro lugar. Mas isso é para outro dia.

Gosto de pensar em riqueza num sentido mais amplo. Não apenas riqueza monetária, mas a riqueza de estar em equilíbrio com outras facetas da vida.

Uma dica: todo mundo deveria estudar filosofia, pelo menos uma vez na vida, perto dos 40 anos (porque ela tem que ter uma certa vivência).

Realmente é complexo, e fica para outro dia.


Conclusão

Todos os itens descritos são difíceis de atingir. E, talvez, o timing de buscá-los dependa do momento pessoal – assumir mais ou menos riscos, buscar aprender o básico ou ser o melhor.

Entretanto, acredito firmemente que, a longo prazo, estas sejam reflexões importantes para o desenvolvimento de qualquer pessoa.

Favor não compartilhar este texto com qualquer pessoa, mas somente com quem tem potencial para compreender o conteúdo.

Arnaldo Gunzi.


Links:

Tweets de Naval: https://twitter.com/naval/status/1002103360646823936

O colapso das civilizações complexas

A Associação dos Burros Esforçados

Cisnes negros e Nassim Taleb

Moneyball e o 7 a 1 no futebol

Este texto tem duas partes: comentar um pouco do excelente Moneyball, aplicado no baseball, e como isto vem refletindo no futebol.

“Moneyball” é o nome de um livro (que virou filme, com o Brad Pitt) que narra a utilização de Analytics pelo time de baseball Oakland A.

O time, na temporada de 2002 da MLB (Major League Baseball), tinha um dos menores orçamentos da liga, e tinha perdido três jogadores importantes. O gerente geral do time, Billy Beane, resolveu apostar em algo diferente: bases de dados e estatística!

A sabedoria tradicional da época (e ainda hoje) contava com olheiros, que analisavam as métricas normais: número de batidas e velocidade. Eles também levaram em conta a altura, força física, e até fatores bastante subjetivos, como a namorada do jogador – segundo um dos olheiros, uma namorada feia indicaria pouca confiança!

Mais do que olhar para a performance passada, os olheiros tentavam adivinhar o potencial futuro: o que o jogador poderia se tornar.

Michael Lewis, o autor do livro, é um grande contador de histórias. Ele coloca flashbacks do passado do próprio Billy Beane quando jovem. Segundo os olheiros, Billy era o jogador ideal: alto, atlético e com todas as características para explodir no esporte. Beane estava em dúvida entre Stanford e uma carreira no baseball, escolhendo o último pelo dinheiro envolvido. Porém, Beane não foi bem sucedido quando jogador, ou pelo menos, não chegou ao potencial prometido pelos olheiros – daí surge a razão dele duvidar da sabedoria convencional.

Beane contratou um economista com ideias radicais sobre o baseball, Paul DePodesta (no filme, Peter Brand). Este se baseou nas ideias de Bill James, um esquisito (como todo gênio), que passou décadas coletando estatísticas de baseball e desenvolvendo teorias para correlacionar vitórias e derrotas com a performance dos jogadores.

Nota: Bill James fez, ele mesmo, uma série de coleta de dados detalhada de jogos de baseball. O maior gargalo do data analytics, inclusive em grande empresas, é o data, e não o analytics).

Uma das novas métricas propostas era quem conseguia alcançar as bases. Utilizando isso, a ideia do gerente Billy Beane foi contratar jogadores subvalorizados pelo viés dos olheiros.

Assim, vieram pessoas como o arremessador que lançava a bola de forma esquisita, mas efetiva. Um atleta gordinho, com boatos de que frequentava clube de striptease. Outro que tivera problemas e não conseguia lançar a bola.

Ocorreram reações, é claro. Olheiros com mais de 30 anos de vivência no esporte desacreditavam do método esotérico. Uma série de medidas importante nunca seriam quantificadas num modelo. O próprio técnico continuava montando a equipe conforme a sabedoria convencional. Derrotas se acumulavam.

Foram necessárias mais algumas mexidas e ajustes, que, finalmente, deram frutos. O Oakland alcançou uma série incrível de 20 vitórias seguidas e conseguiu chegar à fase eliminatória, na qual foi eliminado. Porém, foi uma performance impressionante, dado o orçamento minúsculo do time.

Billy Beane foi convidado a ir para um time maior, o Boston Red Sox, porém, recusou. O Red Sox, em anos posteriores, também utilizou a filosofia do Sabermetrics, e foi campeão.

É lógico que Analytics é uma pequena parte da equação. Há todo um trabalho imenso, na parte física, psicológica, técnica, para um time ser bem sucedido. Do momento Eureka de Billy Beane (que foi em 2002) até hoje (2020), há muita gente que ainda não acredita que o Sabermetrics faz alguma diferença.


E no futebol?

Baseball não faz parte do cotidiano do brasileiro. O futebol, sim. Ambos os esportes são cheio de tradição e paixões, análises subjetivas repletas de vieses, muito dinheiro e interesses envolvidos. Como a análise de dados evoluiu no futebol?

Cinco cases abaixo:

1) Uma abordagem exatamente similar à do Moneyball não parece ter dado certo. Há pelo menos um caso famoso, o do Alexandre Bourgeois, que chegou a ser CEO do São Paulo por alguns meses.

Alexandre chegou a desenvolver alguns modelos similares ao do Moneyball, e tentou vender para os clubes, sem sucesso.

Ele conta como a estrutura organizacional dos clubes é arcaica. Estes devem passar por uma profissionalização profunda antes. Nota-se também presença forte de empresários de jogadores.

2) Um case de sucesso famoso é o da seleção alemã de 2014, aquela mesma, do 7 a 1 em cima do Brasil.


A ferramenta desenvolvida permite checar desde a organização tática e a precisão de chutes até a posse de bola e a distribuição de passes. Também destaca-se a propaganda que o patrocinador do programa, a gigante de software SAP, fez em cima do sucesso do time.

3) Outro bom case é o do Liverpool. Faz alguns anos, este vem investindo pesado em analytics, culminando na conquista da Champions League de 2019. A análise maciça de dados inclui um mapa da posse de bola no campo e gráficos de passes.


4) Flamengo: o big data vem sendo utilizado, para analisar o desempenho dos jogadores nas partidas, e para preparar um plano de ação para recuperação destes.

5) Grêmio e Palmeiras: uma empresa de consultoria especializada em análise de dados para o futebol tem acessorado alguns clubes. O case diz que o jogo Grêmio x LDU, na Libertadores de 2016, teve uma ajudinha da análise. O histórico mostrou que o goleiro adversário tinha uma deficiência que poderia ser aproveitada. Ele não pegava bem pelo lado direito. Os jogadores foram informados disso, e dois dos três gols do Grêmio foram do lado direito do goleiro.

O data analytics no futebol já está sendo utilizado com graus variados de sucesso, porém, ainda engatinha. A grama está alta.

Análise de dados é somente uma parte pequena do todo. Contudo, jogos de alto nível costumam ser parelhos e podem ser decididos em um único lance. Uma ajudinha analítica pode fazer toda a diferença.


Links:

Seleção alemã: https://exame.abril.com.br/tecnologia/solucao-de-big-data-e-um-dos-segredos-da-alemanha-na-copa-2/

Flamengo: https://www.youtube.com/watch?v=flc6KrVjnDY

Liverpool: https://www.liverpool.com/liverpool-fc-news/features/liverpool-transfer-news-jurgen-klopp-17569689

São Paulo: https://universidadedofutebol.com.br/alexandre-bourgeois-ex-ceo-do-sao-paulo-fc/

Grêmio e Palmeiras: https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2018/06/empresa-de-analise-de-dados-conquista-palmeiras-e-gremio-e-lanca-time-de-futebol.html

Recomendação: AI Superpowers

Uma recomendação de leitura é o livro “AI Superpowers”, de Kai Fu Lee. É um livro que fala de tecnologia e negócios, como muitos outros, porém, este é diferente. Primeiro, pela perspectiva. Kai é taiwanês e trabalhou muitos anos com inteligência artificial, principalmente na China. E, segundo, porque ele enfatiza bastante o lado humano, além do tradicional AI-resolve-tudo.

A carreira de Kai-Fu começa como pesquisador, passa por responsável pela operação chinesa da Microsoft, até os dias atuais, em que é gestor de um fundo de tecnologia chinês.

Espírito empreendedor

Uma dificuldade das startups era fomentar o espírito empreendedor. Na China, desde tempos antigos o melhor trabalho era ser servidor público. Passar em algum concurso e viver para sempre sem grandes preocupações, num país onde a grande maioria veio de um passado muito sofrido.

Como convencer jovens chineses brilhantes a preferirem uma startup a um concurso público? Kai conta que visitou vários pais e mães, levou para jantares e demonstrações da empresa, a fim de explicar a lógica dos novos tempos. Era um trabalho ladeira acima.

A ascensão de Jack Ma e o AliBaba foram dois fatores que ajudaram, no quesito mudar a cabeça milenar das pessoas. Jack Ma é uma pessoa de origem humilde, sem formação, e com muito carisma. Mirando-se em Jack, muitos jovens viram que existia um caminho alternativo ao concurso público.

Ambiente regulatório

A China pode ser um ambiente ideal para o desenvolvimento de algumas novas tecnologias, como o carro autônomo. Este é um caso específico em que o ambiente regulatório conta muito. Nos EUA, por exemplo, podem surgir regulações impedindo carros autônomos. Ou, imagine a repercussão, no caso de acidente! Já na China, pela força maciça do Estado, os carros autônomos provavelmente teriam menos interferência.

Abordagem das empresas

Duas formas de uma startup abordar a AI. Uma, é tentar abordar o problema genericamente, sem se especializar em alguma área. Algo como um power grid, e tal qual a analogia, a empresa tem que ser grande e pesada para suportar uma abordagem dessas. A segunda é algo como carregar baterias. Seriam empresas para resolver um problema específico (digamos, reconhecimento de imagens no agronegócio), e seriam mais leves, por serem focadas.

IA geral e empregos

A inteligência artificial geral, aquela dos filmes de ficção onde os robôs tomam conta do mundo, está longe de se tornar realidade. Por enquanto, temos algumas aplicações específicas.

E, mesmo quando a AI geral começar a ficar mais próxima da realidade, o problema real não será o mundo ser destruído e a humanidade, escravizada. O problema real será a diminuição dos empregos.

Kai Fu cita outros autores, como o israelense Yuval Harari, que prediz o surgimento de uma nova classe social, a classe dos inúteis. Seriam aqueles que não têm a qualificação mínima para fazer algum trabalho de valor maior do que um algoritmo fará.

AI e o poder do amor

Kai Fu, neste ponto, cita que conheceu o poder do amor. Ele conta como dedicou o mínimo de tempo possível para a família, ao longo da carreira, a fim de otimizar o tempo para a busca de seu aperfeiçoamento profissional. Um exemplo: ele quase perdeu o nascimento da primeira filha, por conta de uma reunião importante!

Há alguns anos, Kai Fu foi diagnosticado com câncer. Isto mostrou a importância do ser humano, que o dinheiro e o sucesso não conseguem comprar.

Um exemplo, de algo que apenas o ser humano pode prover. Uma das empresas de Kai Fu lançou um aplicativo para idosos. Este tinha ícones grandes, interface simples, e permitia uma série de serviços a um clique: comprar insumos, encomendas de restaurantes, etc… Também tinha um service-desk, para falar com um atendente humano.

Qual foi o serviço mais acessado? O service-desk. Para uma boa parte dos atendimentos, os idosos nem tinham a necessidade de acessar algum serviço. Eles queriam apenas companhia, alguém com quem conversar. Esta é uma necessidade bastante grande entre os idosos, ainda mais nos tempos modernos.

Talvez a resposta para o desemprego estrutural crescente seja o amor. Recompensar interações sociais. Distribuir riqueza ao mesmo tempo em que se distribui atenção às pessoas necessitadas. Cuidar de quem precisa. Ter filhos.

Kai Fu Lee tem diversas publicações em chinês e é uma espécie de celebridade por ali. O livro AI Superpowers é a única obra em inglês, até o momento, e traz um background cultural oriental e reflexões bastante pertinente para os anos e décadas que viveremos.

Veja também:

Link da Amazon

https://ideiasesquecidas.com/2019/10/30/a-classe-dos-inuteis-veio-para-ficar/

https://ideiasesquecidas.com/2018/08/01/10-topicos-para-entender-a-china/

https://ideiasesquecidas.com/2019/07/27/recomendacoes-de-livros-sobre-a-cultura-e-historia-da-china/

Indústria Americana

Um documentário para este carnaval

“Indústria Americana”, vencedor do Oscar de melhor documentário, mostra o choque cultural entre chineses e americanos.

A história começa com uma fábrica da GM, em Ohio, que fecha as portas.
Anos depois, um grupo chinês instala uma fábrica de vidros automotivos, a Fuyao, nas instalações da GM. Com ela, vem a cultura do país oriental.

Um primeiro ponto é que o chinês comum trabalha longas horas, podendo ficar 10, 12 horas no expediente, com pouquíssimos feriados ao longo do ano. (nota: existe uma expressão na China, o “996”, significando que o chinês entra no trabalho às 9 da manhã, sai às 9 da noite, 6 dias por semana).

A empresa cobra empenho semelhante dos americanos, que claramente não acham justo uma carga dessas.

Um relato impressionante: um trabalhador chinês conta que veio aos EUA pela Fuyao, sem ganhar nenhum adicional no salário ou ajuda de custo extra. Ele vai ficar alguns anos longe da família, tudo isso pelo dever de estar servindo a companhia.

Uma cena ilustra como os chineses pensam: o gerente da fábrica, um americano, quer instalar um toldo, para a inauguração da fábrica. O presidente da empresa, chinês, diz: não coloque o toldo. O gerente retruca: Mas, e se chover? O presidente devolve: Não se preocupe. Não vai chover. (Um autêntico manda-chuva)

A empresa coloca metas muito fortes de produção, exigindo de todos um empenho além do normal para recuperar o investimento realizado (mais de 500 milhões de dólares). Comenta-se que os chineses querem produzir, ao custo de colocar em risco a qualidade do produto final.

Nota-se também pouco empenho em termos de segurança das pessoas. Numa das cenas, uma chinesa coleta cacos de vidro com as mãos nuas, sem a mínima proteção. Em outra cena, um chinês conta como o material é quente, e que ele tem cicatrizes em todo o corpo. Em outra, um americano conta como nunca tinha se acidentado no trabalho, até que aconteceu um acidente com ele, na Fuyao.

Em especial, há um foco na luta da Fuyao para os trabalhadores americanos não se sindicalizarem.

Na visão dos chineses, a fábrica toda é como um grande navio. Se o navio não for para frente, todos serão prejudicados, ocorrendo o fechamento da mesma (como a da GM).

Muitos funcionários, insatisfeitos com jornada pesada, salários baixos, riscos de segurança, se organizaram em pedir a sindicalização. Outros tinham medo de represálias e de não ter outra ocupação possível.

A Fuyao faz uma grande campanha para evitar o sindicato. Contratam uma consultoria americana, especializada em motivar os trabalhadores a não se sindicalizarem (esta consultoria custou US$ 1 MM). A empresa também passou a perseguir de forma indireta os maiores defensores do sindicato, demitindo-os. No final das contas, eles não se sindicalizam.

Indústria Americana está disponível na Netflix, e foi produzida pela empresa do casal Obama.

A sabedoria do mulá Nasrudin

O mulá Nasrudin é um personagem de anedotas populares da região do Oriente Médio. Em geral, são contos engraçados e provocativos. Abaixo, alguns dos contos que mais gosto.

Dando um preço ao imperador

Um dia, o novo conquistador da cidade perguntou ao mulá Nasrudin:

Se eu fosse um escravo, por quanto você me venderia?

  • Eu te venderia por R$ 500,00.
  • Espere um pouco – disse o homem furioso – só as roupas que estou vestindo já custam mais de R$ 500,00!
  • Sim, e foi isso que eu levei em conta!

A inteligência depende do contexto

Um dia, o mulá Nasrudin estava a trabalhar de barqueiro, atravessando as pessoas no rio. Entrou um doutor bastante famoso, que o repreendeu por ter errado a concordância gramatical de uma frase.

  • Desculpe-me pelo erro, é que não tive a chance de estudar.
  • Estudar é bom. Eu fiz duas graduações, sou mestre e doutor em Economia, com pós-doc no MIT e em Oxford.
  • E você sabe nadar?
  • Não, por que?
  • Porque tem um furo no barco, e ele vai afundar daqui a pouco…

A falácia do custo perdido

O mulá Nasrudin estava sentado numa praça, comendo pimentas e chorando. Um amigo perguntou a razão.

  • Eu comprei esse saco de pimentas, achando que fosse amendoim.
  • E por que você não joga fora o saco?
  • Porque custou muito caro!

Especialistas para todos os lados

O mulá Nasrudin estava a construir uma casa.

Todos os amigos que o visitavam davam um pitaco: a sala deve ser maior, a janela do quarto deve dar para o norte, o teto está muito baixo, e assim sucessivamente.

Quando a casa ficou pronta, não parecia uma casa nova. Estava assimétrica, parecia uma série de puxadinhos sem harmonia.

Nasrudin, o que você fez? – perguntaram os amigos.

Ora, respondeu o mulá, eu apenas segui todos os seus conselhos!

Questão de ponto de vista

Um homem queria atravessar um rio, e viu o mulá Nasrudin na outra margem. Ele gritou:

  • Ei, amigo, como faço para chegar do outro lado do rio?
  • Você já está do outro lado, respondeu Nasrudin.

O pote

Um dia, o mulá Nasrudin pediu um pote emprestado a um amigo. Depois de um tempo, ele devolveu o pote juntamente com um pote pequeno.

  • O que é isto?, perguntou o amigo.
  • O seu pote procriou, respondeu Nasrudin.

Em outra ocasião, o mulá Nasrudin pediu novamente o pote emprestado.

Depois de um tempo, o amigo pediu o pote de volta.

  • Não dá, o seu pote morreu, disse Nasrudin.
  • Como assim? Como um pote pode morrer?
  • Ora, se você acreditou que um pote pode procriar, deve acreditar que pote pode morrer também!

A sopa da sopa da sopa

Um dia, o mulá Nasrudin recebeu a visita de um conhecido, que lhe trouxe um ganso. O mulá fez uma sopa com a ave, e compartilharam o jantar.

No dia seguinte, um parente do conhecido bateu à porta de Nasrudin, querendo partilhar da sopa (mas sem trazer nada).

E, assim sucessivamente, vieram os amigos dos parentes do conhecido original, querendo um pouco da sopa (e sem trazer ingredientes novos):

Olá, eu sou o amigo do amigo do amigo do amigo do parente do conhecido que lhe trouxe o ganso.

Nasrudin prontamente o convidou para jantar, e após um tempo, trouxe uma tigela de água quente.


O que é isso? – perguntou a visita.
É o que sobrou da sopa da sopa da sopa da sopa da sopa da sopa do seu amigo do amigo do amigo do amigo do parente do conhecido que me trouxe o ganso!

Alguns links:

http://www.nasrudin.com.br/classicas-de-nasrudin.htm

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/05/e-depois/

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/16/resposta-ao-enigma-na-teoria-da-evolucao/

Jogando xadrez com Deus

Richard Feynman, vencedor do Prêmio Nobel de Física 1965, descreve o processo de descoberta das leis da física a um jogo de xadrez jogado por Deus.

O jogo já começou e não sabemos as regras. Tentamos desvendar as regras a partir da movimentação das peças. Um peão que anda uma casa para frente. Um bispo que anda apenas na diagonal… Baseado nessas observações, criamos o nosso modelo do jogo.

Quando achamos que sabemos todas as regras, subitamente um peão alcança a oitava casa e se transforma numa rainha. Temos que mudar os nossos modelos para explicar este novo movimento, nunca visto anteriormente.

E assim, continuamos, na finitude de nossas vidas, a tentar entender os mistérios deste jogo infinito…

Trilha sonora: Se eu quiser falar com Deus – Elis Regina

Jogo do Prisioneiro

Como de costume, registro aqui os agradecimentos aos puzzles que ganho de presente.

O amigo Marcos Melo trouxe do Nordeste o joguinho da foto abaixo.

O objetivo é retirar o prisioneiro (a peça grande, quadrada, com um ponto amarelo), movendo as demais peças (não é permitido girar).

Eu achei a posição 1 (supostamente fácil) bastante complicada, e nem comecei a tentar a posição 2.

Para quem quiser comprar, o link é https://www.enigmais.com.br.

Três indicações de literatura em quadrinhos

1) “A mágica da arrumação em quadrinhos” é uma versão em mangá do método Marie Kondo.

É uma história curta e com desenhos muito bem feitos. Eu, particulamente, acho que a grande sacada de Kondo é fazer o link entre arrumar e a felicidade de ter um lugar limpo e organizado.

Pode (e é) simples e óbvio, porém, só passei a arrumar direito o meu armário após aprender a técnica dela.

Há também uma série sobre a arrumadora na Netflix.

2) Fahrenheit 451 – versão em quadrinhos de livro do mesmo nome.

É sobre um futuro distópico, em que bombeiros queimam livros e a patrulha está sempre de olho no que as pessoas podem fazer ou não. Os grandes autores, filósofos e poetas são banidos do cotidiano. Apenas os vídeos oficiais bombardeiam a vida das pessoas, em geral completamente embriagadas com a sua vidinha perfeita e alienadas da dureza do mundo real.

Um bombeiro passa a questionar o sistema após um encontro com uma menina, e o trama se desenrola a partir daí.

3) “Fujie e Mikito” é sobre a história de um casal japonês que emigra para o Brasil, nos anos 1950. O Japão vivia uma grave crise econômica, e diversas famílias fizeram a travessia para o outro lado do mundo.

Uma narrativa simples, despretensiosa, conta as agruras e dificuldades sofridas, na terra do “em se plantando tudo dá”.

Mais links:

Cálculo em quadrinhos

Edital de inovação e coragem

No último edital de inovação industrial do Senai – Klabin, um grupo chamou a atenção.

Três pós-graduandos cruzaram o país (de ônibus), com a cara e a coragem, para participar da fase do pitch day.

Eles não tinham cases anteriores, não tinham equipamentos próprios e nem resultados concretos. Contudo, tinham um plano de trabalho que fazia muito sentido, know-how (pelo menos o teórico) e vontade de fazer acontecer.

Não cabe a mim dizer se eles vão para a próxima fase ou não, mas gostei da coragem, e fica o exemplo para todos nós.

Parabéns aos heróis invisíveis da FAB

O heróis vazios do BBB ficam famosos, aparecem todos os dias na TV e ganham seguidores no Instagram e no Twitter.

Enquanto isso, nem sabemos os nomes dos heróis invisíveis da Força Aérea e dos médicos que foram resgatar os compatriotas isolados em Wuhan, China.

Os militares também vão ficar de quarentena, entrando junto com o primeiro passageiro e saindo com o último.

Quantos dos que só criticam topariam fazer esta missão?

Parabéns a todos os envolvidos!

Os gêmeos e o Bitcoin

Quando estive no frio de Chicago, em Nov de 2019, vi um anúncio curioso no metrô: uma empresa chamada Gemini, convidando o cidadão comum a comprar e vender criptomoedas como o Bitcoin.

Guarde a informação acima, e passemos para outra. Aproveitei os poucos dias em que estive lá para visitar livrarias. As livrarias brasileiras faliram. Não há muitos títulos interessante nas poucas que sobraram. As livrarias americanas também estão indo no mesmo caminho, diante do mundo digital, porém, elas ainda são infinitamente melhores do que as daqui.

Numa Barnes & Noble, além dos puzzles e cubos mágicos, um livrinho me chamou a atenção: Bitcoin Billionaires. Li a contra-capa, e era algo sobre os irmãos Winklevoss e o mundo das criptomoedas.

Os irmãos Winklevoss ficaram mundialmente famosos no filme “A Rede Social”. Cameron e Tyler Winklevoss, irmãos gêmeos de quase 2 metros de altura, competidores olímpicos de remo, de família rica, foram superados por um pirralho nerd, Mark Zuckerberg, na criação do Facebook. Para quem não assistiu ainda, sugiro fortemente.

O livro começa da onde terminou a participação dos Winklevoss junto ao Facebook: nos tribunais, com os irmãos tentando fechar um acordo com Mark Zuckerberg. O acordo (de US$ 65 milhões) acontece após muitas mágoas e negociações.

Após finalmente colocarem uma pedra neste episódio, eles estão em busca de novas oportunidades de negócio no Vale do Silício… apenas para serem rejeitados pelas empresas dali. Isso era estranho, qual startup diria “não” a milhões de dólares de funding? A questão era que as empresas do Vale queriam fazer negócios com o Facebook, o gigante da época (era mais ou menos 2010). Se os Winklevoss eram as pessoas mais odiadas por Zuckerberg, e a startup queria fazer negócios com o Facebook, era melhor evitar qualquer contato com os gêmeos!

Depois de idas e vindas, os Winklevoss acabam conhecendo alguns gênios desajustados que lhes apresentaram o mundo do Bitcoin.

Após estudarem muito o assunto, consultarem professores de Harvard (esses não tinham nem ideia do que estavam falando, o que era um sinal positivo), os gêmeos decidem entrar de cabeça no negócio. Um negócio de potencial altíssimo e risco igualmente imenso – exatamente o que eles queriam.

O Bitcoin é o representante mais famoso das criptomoedas. É o início da Internet do dinheiro.

Convencidos de que o investimento valia o risco, os gêmeos passam a comprar milhões de dólares de Bitcoin, com 1 Bitcoin a 10 US$.

Além de comprar a moeda, eles investiram numa startup para intermediar transações, o BitInstant. A lógica é que ninguém fica rico apostando. Quem fica rico é sempre a banca.

Com o aumento do preço da moeda, que chegou a 20 mil dólares, os Winklevoss se tornaram os primeiros bilionários de Bitcoin do mundo.

O livro cobre outros pioneiros do Bitcoin. Nem todos lucraram. Um deles é um libertário radical que lutava por uma moeda livre da interferência do estado, e acabou preso. Outro, um jovem que controlava o site Silk Road, e foi condenado à duas prisões perpétuas.

Após o BitInstant, os Winklevoss fundaram a Gemini (gêmeos em latim), incorporando as lições aprendidas. A Gemini é uma instituição que segue a legislação americana. Tem muita compliance além da tecnologia. Ela quer passar segurança a quem quer transacionar criptomoedas. Além disso, eles querem popularizar a sua adoção: não é mais necessário ser um nerd de computador ou um investidor de alto risco, mas uma pessoa comum, que anda de metrô!

Tyler e Cameron Winklevoss

Uma coisa é líquida e certa: criptomoedas vieram para ficar. Você também usará alguma criptomoeda em futuro próximo, talvez 10 anos, talvez 20 anos, não se sabe (nota: não necessariamente o Bitcoin).

Este texto não é uma recomendação de investimento. Embora haja um potencial imenso, há muitos problemas com o Bitcoin.

Listei alguns abaixo:

– Possível interferência governamental.

– Imensa volatilidade (chegou a passar de 20 mil US$ para menos de 7 mil).

– É difícil de lidar diretamente, sendo a pessoa comum obrigada a confiar em instituições como a Gemini dos Winklevoss (no Brasil, há várias similares surgindo).  Como confiar que tais empresas são idôneas?

– Imagine se alguém descobrir uma falha não descoberta até agora, a confiança no sistema por cair a zero.

– Existe sempre a concorrência de outras criptomoedas.

– Surgimento de uma tecnologia superior. Computação quântica pode ser uma delas, porém está a muitos anos de maturar.

Notas aleatórias:

Tyler e Cameron são gêmeos espelho. Gêmeos univitelinos, vieram de um mesmo óvulo que se separou após alguns dias de gestação. Um é o espelho do outro. Se um tem uma marca de um lado do corpo, o outro tem a mesma marca do lado oposto. Um é destro, outro é canhoto, um é racional, outro é emocional.

A constelação de Gêmeos é em homenagem aos personagens gregos Castor e Polideuces. Ambos são irmãos da Helena de Troia (aquela que provocou a Guerra de Troia). Ambos eram gêmeos, porém tinham pais diferentes: Castor era um simples mortal, Polideuces era filho de Zeus. Eles viveram muitas aventuras, uma delas foi fazer parte da tripulação da Argonáutica. Após a morte de Castor, Polideuces pediu que ambos partilhassem da imortalidade, e eles se transformaram na constelação de Gêmeos.

Prometeu e Epimeteu eram irmãos (não eram gêmeos). Prometeu tinha o dom da antevisão, e o Epimeteu, o dom da visão retrospectiva. Prometeu criou os seres vivos, e Epimeteu deu aos animais habilidades (garras, asas, etc). Chegando a vez do ser humano, o estoque de habilidades tinha acabado… Prometeu apiedou-se e deu ao ser humano o poder de planejar o futuro, e roubou o fogo dos deuses para dar aos homens.

Links:

https://ideiasesquecidas.com/2017/12/31/%e2%80%8bprometeu-e-epimeteu/

https://ideiasesquecidas.com/2017/12/17/o-que-e-dinheiro-para-mim/

https://ideiasesquecidas.com/2018/08/25/dinheiro-e-termodinamica/

Livro na Amazon: https://amzn.to/2wzILzP

Machine-learning-não-resolve-tudo-sua-besta

Hoje em dia, Inteligência Artificial e Machine Learning estão na moda – e realmente são métodos extremamente poderosos.

Porém, não são os únicos: estatística tradicional, classificadores lineares e pesquisa operacional da década passada resolvem muita coisa.

Além disso, o gargalo hoje são os dados. Dados ruins, bases que não falam com outras, ou simplesmente ausência de informação são comuns no mundo real. O IoT está chegando para cobrir esta lacuna, mas ainda vai demorar um tempo para baratear e popularizar (inevitavelmente vai ocorrer).

Eu diria aos startupeiros para não citar em vão o Machine learning, e sim quando realmente fizer sentido. E, quando os dados forem o gargalo, recomendar que as empresas dêem um passo para trás, a fim de coletar e estruturar a informação.

Porcaria na entrada = porcaria na saída, não há inteligência alienígena que resolva.

https://images.app.goo.gl/Hx1DrBcEVKc4hEaDA

https://ideiasesquecidas.com/2013/12/01/a-solucao-otima-para-o-problema-errado/