O anel de Giges

O anel de Giges é uma das passagens mais famosas da discussão sobre moral e ética.

Giges é um pastor que obteve poderes mágicos através de um anel. Ele conseguia fazer o mal sem ser detectado, e com isso conseguiu glória e riquezas.

A narrativa da história ocorre num diálogo entre Sócrates e Glauco, irmão mais velho de Sócrates.

Glauco defende que qualquer pessoa que tivesse poderes semelhantes seria igual a Giges: pegaria tudo para si, sem medo de impunidade – e é mais ou menos o que acontece com as pessoas com muito dinheiro e poder político.

Já Sócrates argumenta o contrário, que o homem justo, com ou sem o anel, agiria da mesma forma.

Este debate é milenar, e vai continuar atual mesmo daqui a mil anos.

Alguns trechos do livro “A República”, de Platão, na narrativa de Glauco:

“Giges era um pastor que servia na casa do soberano da Lídia.
Devido a uma grande tempestade e um tremor de terra, rasgou-se o solo. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e com um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu.

Os pastores estavam reunidos, de maneira habitual, e Giges foi lá também. Estando ele, pois, no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, e ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel para fora, e tornou-se visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim tomou o poder.

Se houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses.

O supra-sumo da injustiça é parecer justo sem o ser.
Até os deuses são flexíveis. Com suas preces, suas oferendas, libações, gordura de vítimas, os homens ruins tornam-se bons.”

Pergunta: um homem justo com poderes ilimitadores tornaria-se como Giges? Deixe sua opinião nos comentários.

Nota 1: Alguns pensadores defendem que moral é algo interno, enquanto a ética é do ambiente, da sociedade em que a pessoa está inserida. Uma pessoa com alta moral se comportaria igualmente com ou sem anel.

Nota 2: É impressionante a força do anel como símbolo. Anel de Giges, anel dos Nibelungos, o Senhor dos Anéis…


2 comentários sobre “O anel de Giges

  1. Yanes Tomaszewski

    Eu acredito que a corrupção seria ainda pior.

    Pois é facil não se tentar ao crime com um poder como esse imagino eu. Mas é difícil resistir assim como para Boromir frente ao poder do um anel e a possibilidade de salvar e fazer justiça com as proprias mãos.

    Acredito que assim como nos tempos de hoje, os mais perigosos homens não são aqueles que roubam ou corrompem, e sim aqueles que pelos mais diversos motivos tentam pela força impor sua felicidade ou sua justiça aos outros. E acredito que isso sim mostraria a moral de alguem.

    A chance de com um poder como esse um homem virar rei tem como origem um homem já egoista, talvez um homem naturalmente mais altruísta se corrompesse em uma versão de vigilante homicida ainda mais perigosa.

    Mas temos em nossa historia exemplos das duas faces dessa moeda, infelizmente os exemplos bons e moralmente elevados sendo poucos em menor numero.

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