O índice X-Men de Inflação

O Dragão dos anos 80

 

Este post é para quem só conhece o Real como moeda brasileira.

 

Quem tem menos de 30 anos hoje não conhece na pele as garras do dragão dos anos 80, a Hiperinflação. Foi uma época de inúmeros planos econômicos, troca de moeda constante, perda de valor monetário e descrença no futuro, que só mudou com o Plano Real de Fernando Henrique Cardoso.

 

Eu era muito jovem nos anos 80, mas senti muitos dos efeitos nefastos de uma hiperinflação. Não chega nem perto do que sentiram as pessoas da população economicamente ativa da época, como os meus pais, mas mesmo assim senti.

 

Esta história começa em 1986. José Sarney era o primeiro presidente civil do Brasil em muitas décadas.

 


 

O Plano Cruzado

 

Em fevereiro de 1986, Sarney anunciou o Plano Cruzado. As medidas econômicas foram congelamento de preços, troca de moeda de Cruzeiro para Cruzado, cortando 3 zeros.

 

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X-Men 1 – nov 88. Cz$ 260

 

 

Em novembro de 1988, a épica revista X-Men número 1 foi lançada pela Editora Abril, a um preço de capa de Cz$ 260,00 (Cruzados). Na capa, Vampira, Tempestade, Colossus, Cíclope, Kitty Pride, Wolverine e Noturno – bons tempos aqueles.

 

As histórias desta época eram do fantástico roteirista Chris Claremont, e eram um mix de aventura, drama, suspense. Mas o que quero trazer para o post são somente as capas. Na verdade, somente os preços da capa. Esta era em formatinho padronizado com 80 páginas e tiragem mensal, o que faz com que a revista tenha praticamente o mesmo valor anos depois, sendo a variação de preços devida somente à inflação.

 

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X-Men 2 – dez 88: Cz$ 350 – o povo brasileiro também sentia-se traído!

 

 

A revista X-Men n.2 já custava Cz$ 350,00. No mês seguinte, Cz$ 450,00. Um aumento de 200 cruzados (80%) em 2 meses!

 

Em 1988, o plano Cruzado (e o Cruzado II) já tinha afundado completamente. O congelamento de preços não funcionou (nunca funciona), os gastos públicos não diminuíram. Foi como dar um analgésico sem tratar a causa da doença.

 

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X-Men 3 – jan 89: Cz$ 450. O Brasil e a Inflação, até que a morte os separe!

 

 

Lembro-me de que neste época todo mundo era “Fiscal do Sarney”: responsável por fiscalizar se algum malvado comerciante capitalista estava aumentando preços congelados. Vira e mexe alguém aparecia no jornal, preso, por furar o congelamento artificial do governo.

 

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Congelamento de preços sempre causou e sempre causará desabastecimento de produtos. Desabastecimento sempre gera um mercado negro.

 

Imagine uma dona de casa que faz bolos para vender. Se ela gastar Cz$ 80 para fazer o bolo e coloca uma margem de Cz$ 20, o produto final terá um preço de Cz$ 100. Mas, se o bolo tiver o preço congelado a Cz$ 50, a dona vai tomar prejuízo se vender o bolo. Ela vai preferir não vender o bolo, ou não fazer o bolo – vale mais a pena comer o bolo do que trabalhar para fazer e vender o mesmo. Ou ela pode vender panquecas. Ou vender o bolo a Cz$ 100 no mercado negro, para quem realmente estiver precisando do bolo ao preço justo deste.

 

Mercado Negro não é um lugar secreto de piratas, longe da polícia. Mercado negro é qualquer lugar onde o comprador e vendedor simplesmente ignoram o congelamento e acordam o preço. Ou seja, qualquer lugar com quaisquer pessoas.
Caso descrito pelo livro “Saga Brasileira”, da jornalista Miriam Leitão. Um efeito bizarro do congelamento de preços, foi que o carro usado (sem tabela de congelamento) passou a ser mais caro do que o carro novo (preço tabelado). Mas é óbvio que ninguém conseguia comprar o carro novo na concessionária, só via mercado negro.

 

 

As três edições de X-Men em Cruzados geram o gráfico a seguir. Anualizando o índice X-Men de inflação desses dois meses, dá uma inflação de 3.300% ao ano!!

 

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Plano Verão

 

O Plano Verão veio em janeiro de 1989. Mudança de Cruzado para Cruzado Novo, cortando 3 zeros, congelamento de preços (de novo, esse pessoal não aprende).

 

A revista X-Men n. 4 veio com o preço de capa de NCz$ 0,45 (Cruzado Novo), o que reflete exatamente o corte de três zeros do preço em Cruzados (Cz$ 450,00).

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X-Men 4- fev 89: NCz$ 0,45. O Brasil também viveu uma jornada de horror!

 

O preço de NCz$ 0,45 se manteve pelos próximos dois meses. E aí, o dragão adormecido voltou, e com força total. NCz$ 0,58, NCz$ 0,75, NCz$ 1,00.

 

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X-Men 8 – jun 89: NCz$ 0,75. O Brasil abandonado à própria sorte!

 

Em janeiro de 1990, a revista X-Men n. 15 já custava NCz$ 17. No mês seguinte, NCz$ 30, e no posterior, NCz$ 53. Um aumento de 8 mil porcento em um ano!

 

 

Sarney, quando questionado sobre o que poderia fazer para acabar com a inflação, disse: “Nada. É tudo culpa da crise internacional!”. Infelizmente, mais de 20 anos depois, uma certa presidenta do Brasil também colocou a culpa da economia pífia numa suposta “crise internacional”.

 

 

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X-Men 17 – mar 90: NCr$ 53. Fim da linha para o Futuro do Brasil.

Para dar um paralelo de como era a situação, imagine uma nota de 100 reais. Hoje, 100 reais pode comprar um monte de coisas. Mas, daqui a um ano, a nota de 100 reais tem um poder de compra equivalente a 1 (um) real, e o governo tem que inventar notas de 500 reais, 1000 reais, etc. Depois que um pãozinho passa a custar 1000 reais, o governo corta três zeros, inventa uma moeda chamada “real novo” ou “real verdadeiro”, e o pãozinho passa a custar 1 real novo.

 

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1000 Cruzados passaram a valer 1 Cruzado Novo

 

 

Lembro-me que nesta época ninguém carregava moedas no bolso. A gente recebia um troco em moedas, e dois meses depois a moeda não valia mais nada. Era mais válido receber o troco em balas – pelo menos o açúcar da bala não evaporava com o tempo. Mas como o dono da padaria não era bobo, ele fazia questão de empurrar as moedas sem valor como troco.

 

 

Lembro-me também que fui ao Japão com os meus pais. Algo que me chamou a atenção foi que eles utilizavam moedas. Tudo quanto era máquina de refrigerante aceitava moedas, a moeda de 100 ienes. Hoje, mais de 20 anos depois, as moedas de 100 ienes continuam existindo no Japão.

 

As edições de X-Men em Cruzados Novos geram o gráfico a seguir, começando em NCr$ 0,45 e terminando em NCr$ 53,00. Anualizando o índice X-Men de inflação deste período, dá uma inflação de 8.000% ao ano!! Note que o gráfico é exponencial. Se nada fosse feito, o dragão só iria ficar cada vez mais forte.

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O Plano Collor

 

Lembro-me bem do primeiro presidente eleito democraticamente pelo brasileiro após décadas. Lembro-me de que ele era a esperança de salvação deste povo sofrido. Lembro-me da cobertura das revistas e jornais da época, e de uma ministra da Economia chamada Zélia Cardoso de Melo.

 

Logo nos primeiros dias de governo, era lançado o Plano Collor 1, em março de 1990. A moeda passou de Cruzado Novo para Cruzeiro, sem corte de zeros. A primeira revista deste novo governo era a X-Men 18, com preço de Cr$ 30,00.

 

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X-Men 18 – abr 90: Cr$ 30. Amargo destino do brasileiro sob Collor.

 

 

Ocorreu nesta época uma dos experimentos econômicos mais bizarros da história: o confisco da poupança. Imagine todo o seu dinheiro guardado no banco. E imagine que agora ele não é mais seu. Aliás, é seu, mas você não pode sacá-lo, nem usá-lo para nada, e este estará sujeito à uma taxa de correção arbitrária, obviamente abaixo da inflação. Ou seja, um confisco, na prática.

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X-Men 19 – mai 90: Cr$ 30. Brasil sob Ventos e Tempestades!

 

 

A lógica é mais ou menos assim: o excesso de dinheiro em circulação causa inflação. Então, vamos tirar o dinheiro de circulação na marra, isto vai acabar com a inflação e os brasileiros vão ficar felizes.

 

O Plano Collor 1 foi radical. Destruiu inúmeros sonhos, quebrou centenas de empresas. Tinha muita gente com dinheiro na poupança para comprar um apartamento, e que estava esperando Collor assumir para ver se os preços baixavam – ficaram sem apartamento e sem dinheiro. Foi uma época de desesperança, depressão, suicídios e ataques cardíacos. Não é nada agradável ver todo o dinheiro de uma vida confiscado. Todo mundo conhecia alguém que tinha sido muito afetado pelo plano de Collor e Zélia.

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X-Men 20 – jun 90: Cr$ 40,00

 

Tirar dinheiro de circulação na marra causou uma recessão. O PIB brasileiro encolheu 4% no ano. Pequenos empresários que não tinham capital de giro quebraram, porque não recebiam e tinham que pagar os salários em dia.

 

O plano foi tão desastrado que levou, indiretamente, à queda de Collor. O impeachment foi por uma denúncia qualquer de corrupção, mas a indignação popular foi causada mesmo pelo pior plano econômico de todos os tempos.

 

E o pior é que a inflação não morreu. Só deu uma acalmada no começo.

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X-Men n.30 – abr 91: Cr$ 180. Cerco ao sofrido povo brasileiro!

 

Em abril de 1990, a revista X-Men n. 18 custava Cr$ 30,00. Em julho de 90, já custava Cr$ 60,00. Em dez /90, já custava Cr$ 180,00.

 

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X-Men n. 33 – jul 91: Cr$ 330. Vingança da inflação, que voltava com tudo

 

O governo Collor foi liberando o confisco da poupança para os setores amigos. O governo continuava a gastar como sempre. Como em todos os planos econômicos, quem pagou o pato foram os mais fracos, que não conseguiam se proteger e tiveram o dinheiro de uma vida toda preso no banco. Ao Collor I sucedeu-se o Plano Collor II, com congelamento de preços (de novo?!?!) e outras medidas que nada resolveram.

 

 

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X-Men n. 35 – set 91: Cr$ 430,00.O mistério da Fênix da inflação, que retorna das cinzas.

 

 

Em agosto de 1992, a revista custava Cr$ 5.200,00, 172 vezes o valor do início do plano.

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X-Men n. 46 – ago 92: Cr$ 5.200. Não tinha melhor título do que Inferno!

 

Nesta época, eu tinha uma estratégia. Esperava dois meses para comprar a revista, com o preço corroído pela inflação. Em setembro de 92, a editora abril cansou de remarcar os preços, e adotou uma tabela. A revista custava o valor B7 da tabela. E o jornaleiro só tinha que trocar a tabela, todos os dias, arruinando a minha estratégia de comprar revistas de meses passados.

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X-Men n. 50 – dez 92. A capa não tinha mais preço. A inflação era tão alta que desistiram de remarcar o preço.

 

 

Collor prometeu dar um tiro na inflação. Acabou dando um tiro nos brasileiros, e o dragão da inflação continuou firme e forte. Note o comportamento exponencial do gráfico do índice X-Men. Neste período, a inflação anualizada foi de 800%!

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O comportamento exponencial do gráfico nem permite que se veja os números.

 

Disponibilizei neste link os dados tabulados da série histórica da revista dos X-Men.

 

 

A minha família é de ascendência japonesa. Nesta época, diversos familiares emigraram para o Japão – tornando-se dekasseguis. Oitenta anos depois dos japoneses emigrarem para o Brasil, a terra prometida, era a vez de seus filhos e netos retornarem para o Japão.

 

A insegurança econômica (não adianta acumular cruzados, pois desvalorizarão) e a insegurança jurídica (não adianta colocar no banco, pois o o governo confiscará) geraram um Brasil sem futuro. Quanto mais o futuro é imprevisível, mais gasto tudo no presente.
Se não posso guardar, tenho que consumir tudo o quanto antes. Era comum as pessoas ganharem o salário e fazerem no mesmo dia a compra do mês no mercado, estocando commodities. E o escambo (troca de mercadorias sem uso de dinheiro) tinha voltado, já que a moeda tinha cada vez menos valor.

 

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Imagine uma nota de 100 mil reais…

 


 

O Plano Real
Em fevereiro de 1994, depois do fracasso de três ministros da fazenda em dois anos, o presidente Itamar Franco chamou Fernando Henrique Cardoso ao ministério da Fazenda. Ele montou uma equipe de economistas predominantemente da PUC-RJ, e adotou uma série de medidas consistentes para atacar a causa do problema da inflação.

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X-Men n. 71 – set 94: R$ 1,45

 

Não foi um caminho fácil, é claro. Foi necessário abrir a economia, quebrar monopólios, permitir a competição. Modernizar a estrutura produtiva, gastar somente o que fosse arrecadado (Lei de Responsabilidade Fiscal). Muito estudo, planejamento, coragem para encarar políticos irresponsáveis, mas eis que agora o Brasil voltava aos eixos!

 

O mais importante de tudo: o Brasil voltou a ter futuro. Era possível planejar. Grandes investimentos poderiam ser feitos com segurança.
A história do Plano Real pode ser acompanhada no livro Saga Brasileira, da jornalista Míriam Leitão.Um efeito disto: a editora Abril voltou a publicar o valor da revista na capa.

 

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X-Men n. 85 -nov 95: R$ 1,90

A inflação é o mais cruel dos impostos. É a forma do governo taxar sem colocar uma arma na sua cabeça. O problema é que são os mais fracos são os mais prejudicados. É como uma corrida em que quem aumenta primeiro sai ganhando. Quem não tem poder de barganha para negociar aumentos fica para trás, e vai comprar tudo com preço de hoje mais caro, a partir de um salário nominal do mês retrasado.

 

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X-Men n. 95 – set 96: R$ 2,20

 

 

O Brasil colheu os frutos de uma moeda forte por 20 anos, o que permitiu um avanço inimaginável na economia, política, e na sociedade. Não mais troca de moedas. Não mais corte de três zeros. Não mais troca de ministro da Economia a cada meio ano, como um time troca de técnico quando sofre derrota atrás de derrota.

 

Mais de 90 meses depois, em março de 2000, a revista X-Men n. 137 custava R$ 2,50. Para quem esperava que ela custasse 250.000.000 reais, aquilo era um sonho! As pessoas voltaram a usar porta-moedas, o dono da padaria voltou a empurrar balas como troco.

 

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X-Men n. 137, mar 2000: R$ 2,50. O resgate do Brasil, finalmente!

 

 

Note como o índice X-Men de inflação é muito melhor para o período pós Plano Real. Em seis anos, o aumento do preço de capa foi de apenas 1 real. O comportamento exponencial já não existia mais. A moeda de 1 real existe até hoje, em 2018.

 

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A revista dos X-Men em formatinho acabou poucos meses depois, passando a ter um outro formato, outro número de páginas, etc. Mas eu não colecionava mais as revistas nesta época.

 


 

Conclusão – a Fênix dos anos 2010

 

Quem viveu o período de hiperinflação provavelmente entrou com zero e saiu com zero. Apenas sobreviveu, não acumulou patrimônio.

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A Fênix ressurge das próprias cinzas

 

Quem sabe, se os rumos políticos e econômicos fossem menos desastrosos no passado, hoje estivéssemos num nível de desenvolvimento como o da Coreia do Sul, por exemplo.

 

Ousei sonhar com um Brasil de primeiro mundo, após o Plano Real. Parecia que o Brasil começava a decolar. Mas o Dragão da inflação, do desgoverno, das políticas econômicas demagogas e ineficazes, voltou das cinzas como uma Fênix, ameaçando engolir o futuro, nos anos 2006 – 2016.

 

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O que é possível fazer, neste contexto? Pelo menos a minha parte: trabalhar, criar novas soluções criativas para as necessidades atuais, tornar-se cada vez mais produtivo dentre as dificuldades. É para isto que trabalho, e é para isto que este espaço existe.

 

Arnaldo Gunzi

Ago 2018

(Repostando a partir de original de 2016)

 

Tilha sonora. Legião Urbana, Que país é este.


 

Leitura recomendada

 

Saga Brasileira, a longa luta de um povo por sua moeda. Míriam Leitão.

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http://www.livrariacultura.com.br/p/saga-brasileira-22491015

 

Veja também

Dinheiro e Termodinâmica

Telefonia nos anos 80

Crise e Oportunidade

 

Dinheiro e Termodinâmica

Dinheiro é como energia. Energia em si mesmo não é nada, o seu valor é como intermediário. A energia é a equivalência entre calor e trabalho. E o dinheiro, a equivalência entre dois produtos, ou dois serviços diferentes. A energia é o algo que se conserva na transformação entre um e outro.

 

 

Sendo dinheiro uma espécie de energia, valem as leis da termodinâmica. A termodinâmica se refere à relação entre calor, trabalho e energia, e há duas leis principais.

 
A primeira Lei da Termodinâmica é a da conservação de energia: a energia não pode ser criada ou destruída, apenas transformada. Portanto, não espere que haja resultados sem trabalho, ou resultados alavancados com pouco trabalho. Aquele que consegue mobilizar uma quantidade grande de energia pode mobilizar uma quantidade enorme de trabalho.

 
A segunda Lei da Termodinâmica é a da entropia: na transformação entre calor e trabalho, sempre se perde alguma coisa. Nem todo o trabalho vai gerar resultado – uma boa parte do trabalho não vai gerar resultado algum, vai se perder como entropia. O que existe de fato são meios mais eficientes de trabalhar, que geram menos desperdício de resultados.

 
Sobre a fórmula mágica do sucesso. Assim como não existe o tão sonhado moto-contínuo da termodinâmica, não existe o moto-contínuo do sucesso ilimitado sem trabalho. Qualquer um que venda o sucesso sem trabalho estará mentindo. Não há almoço grátis. Todos os atalhos são perigosos.

 

Conclusão: não espere que valor seja criado do nada.

 

 

Se encontrar alguém melhor do que você, contrate-o

David Ogilvy foi um publicitário de sucesso, frequentemente considerado como o “pai da propaganda”. Escreveu alguns livros, como “Confissões de um publicitário”, cheio de ensinamentos valiosos.

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Segue um punhado de frases deste gigante.

 

Se encontrar alguém melhor do que você, contrate-o. Se necessário, pague a ele mais do que você ganha.

 

Tolere os gênios.

 

Tente fazer com que trabalhar seja divertivo. Quando as pessoas não estão se divertindo, raramente produzem bons resultados.

 

O que você mostra é mais importante do que o que você diz.

 

Grandes ideias são normalmente simples.

 

Delegue, faça o seu pessoal pensar. Esta é a única maneira de descobrir se são realmente bons.

 

 

Procure o conselho de seus subordinados. Ouça mais e fale menos.

 

Despreze os bajuladores dos chefes. São geralmente as mesmas pessoas que tiranizam seus subordinados.

 

A melhor forma de conquistar novas contas é criar para os nossos clientes atuais.

 

A busca pela excelência é menos lucrativa que a busca pelo tamanho, mas é mais gratificante.

 

Somente negócios de Primeira Classe, em uma maneira de Primeira Classe.

 

 

Fonte: Citações de David Ogilvy.

É o elefante que tem que aprender a andar de bicicleta?

 

Vira e mexe, surge alguma startup (sempre com a ideia mais inovadora do mundo) querendo aplicar o seu produto numa grande empresa.

 

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Entretanto, parece que algumas não entendem que uma empresa grande tem processos complexos, burocráticos, e às vezes até com mais exceções do que regras. E que o seu produto tem que se adequar à realidade.

 

Algumas tentam forçar que a empresa grande mude todo o seu processo só para usar a brilhante solução dela. Se o processo não entra na ferramenta, o processo é que está errado.

 

Ao invés de design thinking, é um “design goela abaixo”.

 

É o elefante que tem que aprender a andar de bicicleta, ou é a bicicleta que tem que adaptar ao elefante? Talvez um pouco de cada, mas é muita pretensão achar que todos os elefantes vão aprender a andar de bicicleta, por mais inovadora que esta seja…

 

 

 

Serendipidade

O termo “serendipidade” é muito utilizado nas palestras sobre inovação. Significa uma descoberta por acaso, imprevisto.

 

Trocando em miúdos, significa algo que dá certo “Sem querer querendo”.

 

Remonta à uma história persa, chamada “Os Três Príncipes de Serendipe”. Estes príncipes eram bastante curiosos, e viviam fazendo descobertas devido à astúcia e ao acaso.

 

Com o processo de inovação é semelhante. Você mira em uma coisa e acerta em outra. Dá saltos de fé, apostando no potencial, e frequentemente colhe frutos bem diferentes do esperado.
Para a serendipidade fazer a sua mágica, existe a necessidade de sair da rotina, explorar novidades, quebrar paradigmas, estar sempre buscando melhorias. E, é claro, conhecer e conversar com muitas pessoas de habilidades distintas.

 

Afinal, como dizia Louis Pasteur:

O acaso favorece a mente preparada.

 

Um Cisne Negro paira sobre a China

O todo-poderoso império chinês foi apresentado em uma série de posts (vide aqui, aqui e aqui). Este último post fecha a série.
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A China é segunda maior economia do mundo, caminhando fortemente para ser a primeira. Um bilhão e meio de habitantes. País que mais cresceu nos últimos 30 anos, retirando da pobreza absoluta 500 milhões de pessoas e dobrando o PIB per capita. A China tem programas internacionais de bilhões de dólares, como o One Belt One Road e o Made In China 2025…. perfeito, não?

Não, não é perfeito. O colosso chinês é reluzente, porém tem rachaduras em suas fundações. É como um castelo magnífico, alto o suficiente para eclipsar todos os outros prédios: suas portas são da melhor madeira nobre, o mármore de seu piso é da mais alta qualidade, os detalhes são feitos de ouro e de pedras preciosas. Porém, tudo isto suportado por fundações mal executadas, erguidas às pressas e cheias de falhas estruturais.

Um Cisne Negro gigantesco paira no ar…

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Cisne Negro é um evento de baixa probabilidade e impacto enorme, como um terremoto, ou como a crise mundial de 2008. Para saber mais sobre o assunto, recomendo este link, ou este.


Motivo?

São vários motivos. Em poucas linhas:

O Estado chinês está presente em tudo, incluindo as empresas.
Apesar de privadas, a presença do Estado é muito forte. O Estado injeta uma quantidade absurda de dinheiro em suas campeãs nacionais.

Esta oferta de dinheiro abundante e barato faz com que os riscos sejam mascarados, e investimentos que nunca se pagariam tornem-se viáveis.
Isto também estimula a formação de mega empresas, que se tornam rapidamente too big to fail.

A pressa em investimento do governo nas últimas décadas levou à capacidades de produção assombrosas, sem maiores preocupações com a qualidade e a excelência técnica (atualmente estão correndo atrás do prejuízo, melhorando a técnica, diminuindo a capacidade, olhando para a poluição).

Efeito: A China produz, anualmente, 50% do aço do mundo! Sua produção é 10 vezes maior do que a dos EUA. Há assombrosos 150 milhões de toneladas de capacidade ociosa que eles querem cortar!

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Com relação ao cimento, mais da metade do cimento do mundo é produzido na China. Em três anos, a China consumiu mais cimento do que em 100 anos nos EUA!

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Há obras extravagantes e duplicadas. Um exemplo é uma réplica da Torre Eiffel e complexo residencial, construído em Hangzhou para 10 mil pessoas, mas que atualmente está esparsamente ocupada.

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Outro exemplo. A cidade de Wuhan planeja construir metrô, dois aeroportos, um novo distrito financeiro, um distrito cultural e uma torre comercial tão alta quanto o Empire State, a um custo de 120 bilhões de dólares…

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Capitalismo de Estado, empreendimentos megalomaníacos, lembram os malfadados investimentos de Eike Batista e suas empresas X: OGX, CCX, e outras, só para fazer uma analogia.

Obesidade: Fazendo uma analogia, imagine alguém que passou por subnutrição por toda a infância e adolescência. Na idade adulta, este enriqueceu, e agora pratica o exato oposto, a supernutrição, mesmo já obeso além da conta. Tanto a subnutrição quanto a supernutrição são nocivas a seu modo.

Shadow Banks
Para financiar tais empreendimentos, há os bancos oficiais, mas também há uma série de bancos que atuam de forma pouco transparente, os chamados “shadow banks”. Estes seguem poucas regras claras, o que permite que financiem  empreendimentos de retorno duvidoso.


O que fazer com tal capacidade ociosa?

O ciclo vicioso está em não deixar a economia desacelerar, por conta da ameaça de desemprego. Isto significa mais investimentos, já que o consumo interno não é suficiente. Coloco mais dinheiro em estradas, portos, ferrovias e cidades, para que estes possam produzir mais, e com isto tenho capacidade para produzir mais outras estradas, portos, ferrovias e cidades.

Porém, investir por investir não faz sentido, o investimento tem que valer a pena. Os retornos dos investimentos estão cada vez menores, o que é natural, porque as frutas mais acessíveis já foram colhidas: a primeira estrada tem muito mais valor do que a segunda estrada no mesmo lugar.

No fechar do dia, o investimento tem que se pagar. É como alguém que toma emprestado hoje com a promessa de um bom investimento, e quer pagar amanhã. Chega amanhã, toma outro empréstimo, e assim sucessivamente, uma bola de neve.

Faz pelo menos uns 10 anos que economistas vêm falando de uma crise na China, que nunca ocorreu. Aqui, cabe o problema do Peru, que ilustra a noção de que o passado não explica o futuro:

Um peru é alimentado por 999 dias consecutivos, e nada de mal lhe ocorreu até hoje. Ele está seguro e confiante de que o dono gosta dele. Porém, amanhã, o dia 1000, é o dia do Natal. Adivinha quem vai para o forno?

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Falando em Peru, quem vai pagar o pato?

O risco de crise bancária mundial é remoto, devido à elevada poupança interna chinesa, atualmente por volta de 40% do PIB. Outro fator é a impossibilidade de os poupadores chineses investirem suas economias em outros países.

Pelo motivo acima, dificilmente haverá uma crise internacional de grandes proporções.

Entretanto, causas geram consequências. É difícil imaginar que não haverá efeito algum, dado tamanho desbalanço de contas.

Provavelmente, quando o inevitável ajuste chegar, as famílias chinesas serão chamadas a cobrir o rombo. Provavelmente não haverá uma explosão, afetando o mundo todo, mas sim algo parecido com uma implosão, causando problemas internos.

Este processo pode ser bem conduzido, minimizando danos, ou não, ferindo ou não vários no caminho. Não é possível prever como será. Talvez um destino como o do Japão, saindo de um crescimento exponencial para duas décadas de economia patinando sem sair do lugar (mas mesmo assim, é a terceira economia do mundo).

O que sei é que ninguém gosta de ter a poupança de uma vida toda afetada por decisões de outrem. Isto pode causar distúrbios na Harmonia, que é um dos pilares de sustentação do país, causando problemas aos governantes chineses e em seu mandato dos céus.

O que leva à conclusão: não é nada fácil ser um chinês

Mas, pensando bem, também não é nada fácil ser brasileiro. A hiperinflação dos anos 80 foi um aspirador da poupança das famílias brasileiras, e por consequência, do futuro do país. O Plano Collor dos anos 90 foi mais direto e radical, prendeu a poupança das famílias nos bancos. (Vide o Índice X-Men de hiperinflação dos anos 80). Daqui para a frente, pós eleições, sabe-se lá o que virá…

E, outra coisa, não há para onde correr. O colosso americano também tem as suas rachaduras estruturais, assim como os europeus, japoneses, etc…

Conclusão final: Não dá para ganhar, não dá para empatar e não dá para sair do jogo. O negócio é deixar a vida te levar, um dia após o outro.


Fontes:

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

Livro: Economia Chinesa, Roberto Dumas Dantas, editora Saint Paul

https://www.forbes.com/sites/niallmccarthy/2018/07/06/china-produces-more-cement-than-the-rest-of-the-world-combined-infographic/#1c7b11ef6881

https://www.nbcnews.com/news/photo/eiffel-tower-replica-looms-over-chinas-parisian-style-ghost-town-flna6C10833193

http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html

https://qz.com/699979/how-chinas-overproduction-of-steel-is-damaging-companies-and-countries-around-the-world/

https://www.nytimes.com/2011/07/07/business/global/building-binge-by-chinas-cities-threatens-countrys-economic-boom.html

https://www.worldsteel.org/media-centre/press-releases/2018/World-crude-steel-output-increases-by-5.3–in-2017.html

https://www.nytimes.com/2016/02/23/world/asia/china-economy-overcapacity.html

http://www.chinadaily.com.cn/business/2014-08/04/content_18243657.htm

http://www.global-labour-university.org/fileadmin/GLU_conference_2016/papers/3A/Xingguo.pdf
http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html
https://www.businessinsider.com/fake-chinese-buildings-that-look-like-the-world-famous-originals-2015-7#one-development-company-started-building-a-fake-paris-back-in-2007-in-hangzhou-in-the-zhejiang-province-complete-with-a-scaled-eiffel-tower-although-it-was-designed-for-10000-people-the-development-is-sparsely-populated-and-is-now-considered-a-ghost-town-according-to-reuters-6

Oportunidades

Duas ideias simples, mas eficazes, do pai da administração, Peter Drucker.

 


Oportunidades

É você que encontra a oportunidade, não é a oportunidade que te encontra – Peter Drucker

Ação: Analise oportunidades, respondendo as seguintes questões:

– Quais as restrições e limitações de seu business?
– Quais os desbalanços?
– Do que temos medo?

 


 

Senso comum

O senso comum é simplesmente um conjunto de pressupostos, ou seja, de crenças, ideias, intuição e reflexão que alguém, um grupo de pessoas ou especialistas de dentro ou fora das organizações acumulam sobre determinadas questões.

Não podemos aceitar o senso comum como verdade, sem mais análises.

 

Ação: Questione o senso comum.

 

 

 

Aquarela e Uma rosa em minha mão

 

Por que Vinícius de Moraes aparece nos créditos da famosa música “Aquarela”, sendo que esta já estava morto havia dois anos?
Para mim, esta indagação começou de outra forma.

 

Um dia, ouvindo playlist do poetinha Vinícius de Moraes, me deparei com esta belíssima canção:

 

 

Esta música é chamada “Uma rosa em minha mão”. E nota-se que a melodia é idêntica à “Aquarela”. É a única semelhança, porque a letra é bastante diferente, há outro tipo de arranjo e elementos musicais.
Embora bem mais simples, “Uma rosa em minha mão” é extremamente bonita, fiquei muito tempo tocando-a.

 

 

Já “Aquarela” remete à minha infância. Em 1983, um comercial de TV da Faber Castell usava imaginação, criatividade, lápis de cor e a canção “Aquarela”. Foi a primeira vez que ouvi esta melodia.

 

 

Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo…

Agora, qual o link entre as músicas?

 

Segundo algumas das fontes pesquisadas, o grande músico Toquinho, parceiro de longa data de Vinícius, estava trabalhando na Itália com outro músico, Maurizio Fabrizio

 

“Peguei meu violão e Maurizio foi para uma pianolinha que eu tinha em casa – uma coisinha ridícula (risos). Daí ele começou a tocar uma música. Achei chata a primeira parte. Mas quando entrou na segunda parte, eu lembrei da Uma Rosa em Minha Mão. Toquei pra o Maurizio ouvir, e assim que terminei ele atacou com a segunda parte da música dele. Tudo se encaixou logo de primeira. Gastamos nem três minutos para fazer o que seria conhecido como Acquarello.”

 

Gravei o disco e fizemos o lançamento em Sanremo – conta Toquinho. – Depois da primeira apresentação de “Acquarello”, começaram a pipocar comentários os mais maravilhosos, o disco saiu com 30 mil cópias, que se esgotaram no segundo dia. Essa música tem realmente um aspecto emocional muito forte, um apelo comercial, as pessoas ouvem e se envolvem. De repente, o Franco passou a me telefonar: “Olha, a música estourou por aqui, está nos primeiros lugares das paradas”. Voltei lá para fazer promoção, aí, ninguém segurou mais

 

Como “Aquarela” utilizou a melodia de “Rosa em minha mão”, os créditos a Vinícius deveriam ser dados pela co-criação da música. Creio que Toquinho achou a homenagem bastante justa, após inúmeros anos de parceria, e creio também que Vinícius continua a inspirar muitos de nós até hoje, tanto pela poesia quanto pelas melodias.
Há um ditado que diz “É possível reconhecer um tigre pelas suas garras”.

 

Em “Aquarela”, o trecho final é Vinícius puro, mesmo sendo escrito por Toquinho!

Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá

 

 

Bônus: Aquarela em italiano, Acquarello

 


Links

https://musicaemprosa.wordpress.com/2016/11/20/a-historia-da-musica-aquarela-de-toquinho/

http://barelanchestaboao.blogspot.com/2015/08/numa-folha-qualquer-eu-desenho-um-sol.html

Livro: História de Canções – Vinícius de Moraes.

 

https://i.pinimg.com/originals/2a/a5/25/2aa525123b3b7eef4136df2de280eb70.jpg

Fonte da imagem:  https://www.pinterest.pt/pin/344173596494447128/?lp=true

Pigmaleão

Na mitologia grega, Pigmaleão foi um escultor que dedicou todos os esforços para esculpir a mulher que ele considerava perfeita.

 

Pigmaleão trabalhou com esmero em sua obra, por infindáveis horas, preocupando-se com cada mínimo detalhe.

 

A belíssima estátua recebeu o nome de Galateia. O escultor apaixonou-se de tal forma pelo seu trabalho que passou a tratá-la como um ser humano de verdade, dando-lhe presentes, carinho, e considerando-a como a sua esposa de verdade.

 

A deusa Vênus apiedou-se de Pigmaleão. Ela procurou entre as mulheres alguma que fosse tão perfeita quanto Galateia, mas não encontrou mortal à altura. Daí, Vênus deu vida à estátua. Galateia se tornou uma mulher de carne e osso e se casou com Pigmaleão.

 

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O mito de Pigmaleão inspirou a peça “My fair lady”

Este mito é comumente associado à ideia de profecia auto-realizável. Se dedicarmos paixão suficiente em nosso trabalho, qualquer seja, conseguiremos fazer com que este seja tudo o que esperamos dele.

 

 

De modo geral, é simples perceber quando um trabalho foi feito com paixão ou quando foi feito de forma burocrática. A dica é sempre fazer o melhor trabalho possível, dedicando o máximo carinho e paixão, e o resultado com certeza virá.

 

 


 

Links

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Pigmale%C3%A3o

https://www.infoescola.com/mitologia-grega/pigmaliao-e-galateia/

http://hbrbr.uol.com.br/o-lider-pigmaleao/

Que língua estrangeira devo aprender?

Após a série de posts sobre a China, várias pessoas me perguntaram se estudar o mandarim seria uma boa estratégia para a carreira.

 

A resposta é: depende.

 

Há tantas outras línguas estrangeiras a dominar, como o inglês, espanhol, alemão, japonês. O gargalo é o tempo e recursos, não dá para aprender tudo. E o mito de que algumas línguas são mais fáceis do que outras não é verdade. Não é só saber a língua, é entender a cultura, a história e costumes, o que consome muito tempo.

 

Além disso, há outro custo, um custo mais alto do que o dinheiro, que é o custo de oportunidade: poderíamos estar estudando outra coisa mais importante, digamos finanças, projetos, certificações, linguagens de programação, passar mais tempo em casa com a família, etc – tudo concorre com o nosso recurso mais escasso, o tempo.

 
Para ajudar a responder a tal questão, seguem alguns modelos de pensamento.

 

Imagine que temos as habilidade principais (core competence), e todas as habilidades auxiliares (diferenciais).

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O core é aquilo em que somos realmente bons, que gostamos muito, e que têm valor para o mercado.

 

O core tem que ser profundo, focado. O limite é a nossa própria capacidade de tempo, esforço e inteligência.

 

Já as habilidades auxiliares são todas habilidades que ajudam, porém não são essenciais para o nosso core. Seria algo mais amplo e superficial, digamos, saber opinar sobre política e economia geral de determinado assunto.

 
É algo como o modelo atômico, um núcleo duro, pequeno, pesado, e órbitas enormes, dispersas, leves. E, assim como no modelo atômico, podemos ter várias camadas, habilidades diferenciais mais importantes do que outras.

 

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Saber a língua por saber não leva a nada. Há 1,5 bilhões de pessoas que sabem falar mandarim. Já dominar um assunto altamente especializado, digamos novos algoritmos de inteligência artificial, é algo que pouquíssimas pessoas conseguem. Se, além do core em inteligência artificial, soubemos inglês, é um diferencial a mais, esta é a ideia.

 
O inglês é muito mais importante do que o mandarim, no contexto em que vivemos no Brasil. O inglês estaria no nível 1, e o mandarim, no nível 2, ou seja, se você não domina o inglês, deve começar por este. Se já se vira bem em inglês, gosta da cultura chinesa e planeja fazer negócios por lá, aí sim faz sentido pensar no mandarim.

 
Este modelo atômico consiste em preencher as colunas de competências core, auxiliares níveis 1 e 2, e com isto saber identificar gaps e alocar os nossos escassos recursos.

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Outro conceito importante é o de possível adjacente, proposto pelo pesquisador de inovação Stuart Kauffman. Ele estudou toda a história da inovação, e chegou à conclusão de que podemos apenas dar um passo por vez. Tentar dar passos maiores do que a perna não vai dar certo.

 

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Para fechar, uma frase popular que sintetiza o possível adjacente:

“Cabeça nos céus e pés no chão.”

 

 

 

10 tópicos para entender a China

Ir até a República Popular da China e vivenciar o cotidiano é completamente diferente de acompanhar pelos jornais. Seguem 10 tópicos para ajudar a entender o Império do Centro.

 

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1. Os EUA são os designers do mundo, a China é a fábrica do mundo, o Brasil é o celeiro do mundo?
2. Mão de obra numerosa e miserável?
3. Produtos xing ling de baixa qualidade?
4. Poluição e respeito ao meio-ambiente
5. Estado e Liberdade
6. Desaceleração da economia e Dívida pública
7. Educação e criatividade
8. Superpopulação e filho único
9. Harmonia e mandato dos céus
10. Sobre Guanxi e perder a face

Bônus: Escolha sua lagosta viva no supermercado!

 

Há muitos mitos sobre a China. De certa forma, os mitos são verdadeiros. O que acontece é que a China muda com velocidade impressionante. Eles são extremamente agressivos em suas ações e na perseguição de metas. Um livro sobre a China escrito há 10 anos já não é válido. E este post também tem validade limitada, no máximo alguns meses.

 

Primeiro, vide nota sobre as fontes utilizadas*.

 


 

1. Os EUA são os designers do mundo, a China é a fábrica do mundo, o Brasil é o celeiro do mundo?

 

Já foi verdade. Entretanto, desde a crise mundial de 2008 a China fez uma mudança de rumos, e passou a trabalhar fortemente em serviços.

 

Há pesquisa e desenvolvimento forte em Big Data, Inteligência Artificial, Carros Autônomos, Internet das Coisas, Indústria 4.0. Tudo o que os EUA buscam como provedores de serviços de inovação, a China está fortemente engajada também.

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E o investimento é extremamente pesado. Uma startup brasileira que lida com Inteligência Artificial tem uns 20 funcionários. Na China, visitamos uma empresa de reconhecimento de vídeos que tem mais de 6000 pessoas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento!

 

A China contrata os especialistas mais badalados do mundo. Eles também não hesitam em comprar empresas promissoras, despejando um caminhão de dinheiro para atrair mentes e produzir em escala. A ordem de grandeza de tudo na China é absurdamente grande!

 

Esqueça o Google e a Microsoft. Os próximos líderes serão chineses como Tencent e AliBaba.

 

Outro ponto é que o governo investe muito em infraestrutura e logística, de modo que tais barreiras são muito menores do que num país como o nosso Brasil…

 

Existe até um plano para isto tudo. É o Made in China 2025, um dos motivos pelos quais os EUA iniciaram a recente guerra comercial. Uma coisa é ter um alguém fabricando os seus produtos, outra coisa é ter um concorrente do mesmo porte intelectual. A Apple tem os seus produtos manufaturados na China, o que não a prejudicou em ter valor de mercado de 1 trilhão de dólares – mas imagine o estrago de uma Huawei com qualidade e capacidade de inovação superior à Apple!

 

Acostume-se a ver a China como provedor de serviços, batendo de frente com os EUA. E o Brasil? Continua sendo fornecedor de commodities, o celeiro do mundo.

 

 


 

 

2. Mão de obra numerosa e miserável?

 

A China já teve mão de obra miserável. A “armadilha da classe média” já chegou, cidades como Beijing e Shanghai têm muita gente na classe média. O salário mínimo dessas cidades chega a 5000 yuans, o que equivale a uns 3 mil reais – é num nível bastante superior ao brasileiro.

 

O aluguel de um apartamento em Shanghai é mais caro do que em São Paulo.

 

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Fonte: www.numbeo.com

 

 

 

Esse pessoal já não quer se sujeitar às mesmas condições de seus pais em trabalhos perigosos, mal remunerados e jornadas longas.

 

A classe média alta emergente gosta muito de produtos de luxo. Não faltam carros importados caros. Shoppings, apenas marcas top. Filas de pessoas para comprar relógio Cartier.

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Nanjing road em Shanghai

Os chineses seguem à risca a seguinte frase de Deng Xiaoping (que iniciou as reformas no anos 1980):

 

Pobreza não é socialismo. Ser rico é glorioso.

 


3. Produtos xing ling de baixa qualidade?

 

Fui à China achando que encontraria ruas semelhantes à uma 25 de março em SP (ou o Saara no RJ), cheia de camelôs vendendo tranqueiras inúteis e mal produzidas. O que encontrei foram ruas e ruas semelhantes à 5a Avenida de New York, com marcas internacionais extremamente caras, caras demais para mim.

 

A China está passando exatamente pelas mesmas fases do Japão: primeiro copiar, depois aprender, para enfim produzir o seu próprio trabalho.

 

A China está velozmente apagando essa imagem de produtos de segunda mão. Esses fake markets foram muito reduzidos (tanto é que não deu tempo de eu visitar nenhum).

 

As empresas em geral ainda não chegaram num nível de qualidade alto, mas dentro de poucos anos, marcas chinesas fortes e extremamente qualificadas concorrerão de frente com seus pares americanos.

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Robô chinês

 


4. Poluição e respeito ao meio-ambiente

 

A China já foi um dos lugares mais poluídos do mundo. Há diversos relatos de céu com nuvens pretas, principalmente quando algum outro fenômeno meteorológico como tempestade de areia ocorre também.

 

É comum ter aulas canceladas por causa da poluição, assim como esportes cancelados.

 

Atualmente, a China está lutando fortemente para fazer com que a poluição diminua. E isto não é por acaso. Conforme tópico anterior, o padrão de vida da população aumentou, e com isso, suas exigências, seguindo claramente uma pirâmide de Maslow.

 

Para ter uma ideia, os chineses sempre consultam o serviço de poluição do ar antes de sair de casa (http://aqicn.org/city/beijing/).

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Poluição em Beijing

Acima de 100 é ruim. São Paulo nos piores dias, chega a uns 80. Beijing sempre está acima de 100, e já foi pior ainda, chegando a mais de 500 num passado recente, segundo relatos.

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Poluição no Aeroporto de Congonhas

 

A China é quem mais investe no mundo em energias limpas, como eólica e solar. Motivos: pelo fator poluição e para diminuir a dependência chinesa de importação de combustíveis fósseis.

 

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A lógica foi primeiro sair da miséria, depois começar e pensar nos impactos ambientais de médio e longo prazo, dentro do conceito de Harmonia chinesa.

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Sol artificial da Hanergy, uma empresa de placas solares

Portanto, a poluição ainda não está em níveis bons, mas a preocupação com o meio-ambiente vem ganhando força, por necessidade de harmonizar produção com suas consequências.

 

 


5. Estado e Liberdade

 

O Estado está claramente presente em todo lugar.

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As empresas são privadas, entretanto, com uma mão forte do Estado por trás.

 

A política de campeões nacionais, que deu tão errado no Brasil, é visível e extremamente pesada por aqui. É o mesmo modelo de Capitalismo de Estado do Japão pós-guerra, que por um lado pode desperdiçar uma montanha de recursos, mas por outro, fortalece sobremaneira o escolhido. É um misto esquisito. Uma empresa que começou em 2012 com capital de 4 mil dólares hoje vale 40 bilhões de dólares, por exemplo.

 

O Estado está na vida de todos:

 

– Uma cidade como Beijing é totalmente zoneada: blocos residenciais imensos, blocos de escritórios.
– Todo metrô tem um ponto de inspeção, raio X.

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Raio X em todas as estações de trem e metrô

 

 

– Pontos turísticos (Cidade Proibida, Tianamen – praça da paz celestial) têm um ponto de checagem de identidade ou passaporte, para estrangeiros.

 

– Controle dos meios de comunicação. O Google não funciona na China. Nem o Whatsapp, Youtube, que têm relação com o Google. O Facebook também não funciona, Amazon idem. Como regra geral, os grandes do ocidente não entram na China facilmente.

 

Isto tem dois motivos.
– Proteger as empresas chinesas, que têm um equivalente a cada um desses serviços: Baidu no lugar do Google, WeChat no lugar do Whatsapp, Youku no lugar do Youtube, AliBaba no lugar da Amazon, QQ no lugar do Facebook e assim por diante.

 

– Facilitar o controle estatal. O WeChat, por exemplo, é monitorado. Comentar sobre uma palavra chave controversa (os três Ts: Taiwan, Tibet e Tianamen) é pedir problemas.

 

Empresas grandes são “too big to fail”, o Estado não vai deixar quebrar.

Portanto, tenha em mente que não se faz negócios sem envolver o Estado.

 


6. Desaceleração da economia e Dívida pública

 

A Economia Chinesa é bastante individada e isto pode causar problemas, quando tais dívidas tornarem-se impagáveis. Pelo tópico anterior, as empresas privadas são também do Estado, os bancos são do Estado, e há muita poupança interna, então boa parte do calote seria para com o próprio povo chinês, o sofrido povo chinês.

 

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Outro ponto importante é a desaceleração da Economia. Se esta crescia 10% ao ano, e vai passar a 7%, depois a 5%, isto significa que a produção de aço vai cair pela metade, que metade das super siderúrgicas que funcionavam na exuberância vão parar de funcionar, e com, isso, desemprego.

Em dois anos, a China consumiu mais cimento do que em 100 anos dos EUA.

Por que a China vai implodir

 

Essas duas imagens resumem o frenesi construtivo dos chineses.

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Shanghai em 1987

 

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Shanghai em 2013

Fonte: https://www.theatlantic.com/photo/2013/08/26-years-of-growth-shanghai-then-and-now/100569/

 

O que fazer com tal capacidade ociosa?

 

Resposta: que tal construir estradas gigantes e portos colossais, para ligar a China a países asiáticos e africanos? É o mega-mega-megalomaníaco plano Belt and Road.

 

 

São questões difíceis, não dá para prever a resposta. Para o bem do mundo, espero que haja um soft landing.

 

 


 

7. Educação e criatividade

 

Um dos pilares do confucionismo é a educação. A educação tem uma importância fundamental em países como a China e o Japão.

 

No Brasil, esperto é aquele que não estuda e passa no final, dá um jeitinho. Esquisito é o cdf que presta atenção nas aulas.

 

Nestes países, é o contrário. O objetivo dos alunos é tirar nota 10 em tudo e estudar insanamente para tal. Não há vergonha em ser cdf, a vergonha é passar com notas baixas.

 

Tem como o brasileiro competir com um pessoal desses?

 

Talvez. Há um ponto fraco, um calcanhar de Aquiles. Na China, a educação tende a ser com base no decoreba: decorar ipsis litteris as respostas corretas. Conta um dos contatos, que a filha dele tira 7 na escola, e os colegas, 9.5. Mas conversar com eles é como conversar com alguém de QI 50 – apenas se esforçam em decorar o correto, sem capacidade de pensar além disto, como robozinhos.

 

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Nas empresas, o reflexo. Diz um outro contato que tudo deve ser micro-gerenciado nos mínimos detalhes. Deve-se pedir tudo bem especificado, senão eles não conseguem fazer, ou no máximo vão copiar exatamente igual algo já existente.

 

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Rede popular de café na China. Lembra um pouquinho o Starbucks?
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Loja de produtos eletrônicos de uma marca chinesa. Achei que fosse a Apple store!

 

A China vai mudar isto também, porém, vai demorar muito tempo, o tempo de formação de pessoas. A criatividade é uma vantagem competitiva do ocidente – por enquanto.

 



 

8. Superpopulação e filho único

 

Na China, tudo é gigantesco. Visitei as cidades de Beijing (20 milhões de habitantes), Shanghai (também uns 20 milhões de habitantes) e Hangzhou (uns 10 milhões).

 

No transporte público, dezenas de milhares de pessoas se espremem nos trens. Nas atrações turísticas, como a Cidade Proibida, também, dezenas de milhares de pessoas.

 

A foto a seguir foi tirada em Hangzhou. Imagine um prédio imenso, residencial, de uns 30 andares de altura. Agora, imagine uma centena de prédios idêntico a este sendo construídos ao mesmo tempo. É o que esta foto tenta mostrar.

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O Ano Novo Chinês, que ocorre em meados de fevereiro, é a maior movimentação humana do mundo. Por hábito, as pessoas voltam para a casa dos pais, o que implica em um bilhão de pessoas viajando em 5 dias.

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Lotação de trens

Uma norma cultural extremamente chocante: é permitido furar fila, empurrar, falar alto. Nem todos fazem isto, é claro, mas há uma porcentagem expressiva que fura a fila, na cara de pau. Empurrões no meio da multidão também são comuns. E eles brigam muito entre si, falando alto e xingando-se. Quando retornei ao Brasil, eu mesmo me vi empurrando os outros no metrô.

 

A superpopulação fez com que o governo decretasse a política do filho único. Porém, como num navio gigante, corrigir os rumos pode fazer o navio ir demais para o outro lado, tamanha a inércia deste.

 

Devido à política do filho único, a China é o país que vai envelhecer mais rapidamente na história da humanidade, com consequências incalculáveis em termos de aposentadoria e bem-estar social.

 

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https://www.populationpyramid.net/china/2017/

 

Atualmente, há centenas de milhares de jovens com dois pais, e quatro avós. Preocupa, porque este 1 ser humano terá que prover recursos para sustentar os outros 6 seres humanos. Outra coisa, sendo a primeira geração rica da história, esses jovens vão herdar tudo o que os seis ancestrais têm: apartamento, carro. Ou seja, tende a ser uma geração de pessoas mimadas.

 

Se vão continuar mimados quando entrarem efetivamente no mercado, não se sabe, não dá para prever.

 

A China abriu mão desta política do filho único, e espera-se que em algum momento, haja um equilíbrio entre jovens e idosos, e homens e mulheres.

 

 


 

9. Harmonia e mandato dos céus

 

A Harmonia é uma palavra muito importante para entender a China.

 

A China sempre foi um Império, com um imperador mandando em tudo. Para justificar o seu poder, criaram há milênios atrás o conceito de “mandato dos céus”.

 

O imperador recebe dos céus os poderes para conduzir a nação. E o imperador, na teoria, é um servo de todas as pessoas, ele é quem mais deve trabalhar para garantir o bem-estar e harmonia de todos (pelo menos na teoria), como a abelha rainha da colméia.

 

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O imperador perde o mandato dos céus quando falta comida, as revoltas se acentuam, há descontentamento geral de todos, ou quando ele é destronado por outro competidor.

 

Por harmonia entende-se emprego para todo este povo, condições mínimas de viver, comida e felicidade.

 

São muito pragmáticos. A política econômica monetária não importa, o que importa é a realidade, o dinheiro na conta no final do mês. Ninguém sabe quem é o presidente do banco central, nem quem é o ministro da Economia. Enquanto perdemos tempo discutindo as peripécias de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e cia, os chineses estão trabalhando. Não interessa saber quem são as pessoas, o que interessa é que as instituições funcionem, e estão muito certos neste ponto.

 


 

10. Sobre Guanxi e perder a face

 

A regra default de relacionamento é a princípio desconfiar. Para criar confiança, os chineses passam longos períodos conhecendo as pessoas com quem vão negociar. Leis escritas não interessam tanto quanto a norma social. Para criar este vínculo, são comuns jantares e muito álcool.

 

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Esta rede de relacionamentos é importante em qualquer lugar do mundo, mas na China é um pouco mais profundo. É ser mais que um conhecido, é ser quase um amigo.

 

Por outro lado, é comum as pessoas comprarem produtos da China que vêm errados. O ocidental tem a “culpa cristã”, que é muito mais fraca por ali.
Um caso. Um conteiner com produtos defeituosos. O brasileiro reclamou, ameaçou não pagar. O chinês ficou bastante tempo negociando, e disse até que os filhos morreriam de fome caso ele não pagasse pela carga. O brasileiro consultou um especialistas nas relações chinesas, que disse que era normal eles apelarem baixo assim para conseguir o pagamento da carga.

 

É paradoxal, investir horas num guanxi de relacionamento, mas ser permitido mandar produtos ruins para os outros. É paradoxal como tudo mais neste Império.

 

 

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Por fim, o conceito de perder a face. É o conceito da vergonha. Vergonha de ter feito algo errado e prejudicado o país (não é prejudicar a si mesmo, ou a empresa, é envergonhar o país). Digamos, roubar algo é vergonhoso. Ou perder um processo judicial por conta do problema de conteiner acima e ficar caracterizado que houve uma trapaça.  Deve-se tomar cuidado para não fazer um chinês perder a face, é pesado para ele, é quase a vida dele.

 

 


 

Conclusão

 

A China sempre foi uma potência mundial, e está retornando ao seu lugar. O projeto da vez é o plano Road and Belt, que busca construir uma infraestrutura gigantesca de rodovias e portos, ligando a África e a Ásia inteiras à China.

 

 

O Brasil tem que aprender a operar num mundo cada vez mais centrado no Império chinês, sob o risco de ficar mais para trás do que já está. Enquanto o Brasil está caminhando devagar quase parando, a China está 10 km à frente correndo alucinadamente – estudam mais, trabalham mais, brigam mais e são mais numerosos.

 

 

Os tópicos apresentados são apenas o início, nem arranham o entendimento deste gigante.

 

 

Napoleão Bonaparte: A China é um gigante adormecido. Deixe este dormir, pois quando acordar, o mundo tremerá!

 

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*Sobre fontes utilizadas. A China divulga pouquíssimos dados oficiais. As informações aqui descritas foram com base em conversas com pessoas, portanto, não são totalmente confiáveis.

 


 

Bônus: Visitei um supermercado, o Henan, em que há vários aquários com criaturas vivas. É só escolher, que o atendente pega e te entrega.