O país que não aceita cartão de crédito

Um aviso aos turistas: ninguém aceita cartão de crédito na China!

 

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Fui à China, todo confiante que os meus cartões Visa e Mastercard seriam aceitos em muitos lugares. Qual nada. O mesmo vale para outros cartões americanos, Amex, Dinner’s club.

 

Primeiro, quem aceita cartão de crédito: Os hotéis aceitam. Grandes lojas, idem. Alguns restaurantes. Mas a chance de ficar na mão é enorme!

 

O comércio, em geral, não aceita cartão. O táxi não aceita. Restaurantes, em geral, não aceitam, mesmo em cidades gigantescas como Beijing e Shanghai. E, a tendência não é boa. A cada dia que passa, menos lugares estão aceitando cartão de crédito. Chega a ser desesperador!

 

 

Desisti de passar o cartão após este ser recusado 4 vezes seguidas. Em metade das vezes, o atendente nem sabia o que fazer com o cartão – ele não sabia se era só para aproximar, ou passar ao lado da máquina, ou inserir na máquina. O rapaz inseriu, apareceu uma mensagem, coloquei a senha, mas deu algum erro bizarro, uma mensagem em chinês. Fiquei com medo de bloquear o cartão (ainda tinha hotel a pagar) e passei a usar só dinheiro. Procurei uma casa de câmbio e troquei dólares de reserva por um bolo de yuans. Pelo menos, eles aceitam dinheiro vivo (por enquanto).

 


 

Então, se não usam cartão, usam o que?

 

A resposta é simples. Usam WeChat. Ou AliPay. Ou alguma outra modalidade de pagamento via celular de mesma natureza.

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Pelo que entendi, olhando as pessoas e conversando com o pessoal da Missão China StartSe, é o seguinte.

 

– O caixa registra as compras
– O comprador abre o WeChat (ou algum outro), e pelo celular gera um código QR
– O caixa escaneia o código QR
– Confirma e pronto, acabou.

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Vídeo mostrando várias aplicações.

 

Eu tentei abrir uma conta de pagamento no WeChat, mas não consegui. É necessário ter conta em um banco chinês, de modo que um estrangeiro nunca vai conseguir usar tão facilmente.

 

Os chineses nunca chegaram a ter cartão de crédito. Eles pagavam tudo em dinheiro. Pularam a etapa do cartão de crédito e foram direto para a era do dinheiro pelo celular.

 

Segundo minhas fontes (nota sobre fontes*) esta tecnologia de transação por celular surgiu para preencher uma necessidade. No e-commerce, como o vendedor e o comprador vão poder confiar uns nos outros, se um dos dogmas daqui é desconfiar primeiro? A solução dada pelo Tao Bao (site de vendas, do grupo AliBaba) foi ele mesmo intermediar isto. O site recebe o pagamento do comprador, segura até o vendedor entregar, e só depois libera a verba.

 

Ora, mas se toda a transação já era eletrônica, não era necessário um banco, o próprio AliBaba poderia ser o banco. Daí, criaram o AliPay.

 

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O WeChat é uma espécie de Whatsapp chinês, muito comum no Império do Meio. Também passaram a intermediar transações, concorrendo com o AliPay.

 

As taxas das transações por celular são baixíssimas. Os teraytes de dados de consumo gerados são fonte inestimável para Big Data. Toda esta informação possibilitou dezenas de outros produtos financeiros adicionais.

 

 

Tendo tantos dados, dá para calcular com acurácia o risco de calote, o que possibilita o empréstimo em segundos. São 3 segundos para cadastrar, 1 segundo para aprovar, e zero intervenção humana (frase esta conhecida pelo número 310).

 

Outro produto interessante. Como a carteira é 100% digital, é muito fácil uma pessoa emprestar dinheiro para outra. Ou fazer doações, digamos de centavos, a cada vez que a pessoa quiser recompensar um bom artista.

 

Hoje a China lidera de forma incontestável o ranking de transações on-line do mundo, com mais de 12 trilhões de dólares em transações on-line, contra menos de 1 trilhão nos EUA .
Todo este ecossistema só foi possível devido à infraestrutura de conexão e ao baixo custo dos aparelhos celulares – até mendigos estão aceitando esmolas em WeChat!

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(https://www.ft.com/content/00585722-ef42-11e6-930f-061b01e23655)

 

Há dois pilares maiores que sustentam as transações por celular: conexão e smartphones.

 

Um dos pilares é a conexão com a internet, para realizar a transação. E há muita cobertura celular na China, até debaixo da terra, no metrô, pega celular, o governo chinês investe muito na infraestrutura.

 

Outro pilar é o baixo custo de smartphones. Na China, uma marca conceituada (digamos a Apple) vai ser cara, por conta de impostos. Mas uma marca chinesa vai ser barata, de modo que cada pessoa tem o seu smartphone.

 

Quanto aos bancos tradicionais. Pelo que deu para perceber, não é que os bancos vão morrer, até porque há diversos produtos financeiros diferentes da aplicação no varejo. O que pode acontecer é de eles terem suas margens reduzidas devido à esta competição. No Brasil, em que há um oligopólio de bancos e muitas barreiras à inovação, os bancos ainda vão reinar por um bom tempo…

 

Na China, quem sabe daqui a alguns anos, talvez nem o dinheiro vivo seja necessário.  O resultado é este: o país com mais transações on-line do mundo. Ponto para o Império do Centro!

 

Nota: o NFC (tecnologia que permite comunicação através do contato) não pegou. Talvez por cada fabricante ter a sua especificação, o que pode causar incompatibilidade de hardware. Já o QR code é universal, tira uma foto e pronto.

 

*Sobre fontes utilizadas. A China divulga pouquíssimos dados oficiais. As informações aqui descritas foram com base em conversas com pessoas, portanto, não são totalmente confiáveis. Além disso, como a China muda muito rápido, provavelmente essas informações estarão obsoletas em poucos meses…


Links:

https://www.statista.com/statistics/226530/mobile-payment-transaction-volume-forecast/

https://www.scmp.com/tech/apps-gaming/article/2134011/china-pulls-further-ahead-us-mobile-payments-record-us128-trillion

https://www.ft.com/content/00585722-ef42-11e6-930f-061b01e23655

https://www.forbes.com/sites/zennonkapron/2016/03/01/why-chinas-fintech-will-change-how-the-world-thinks-about-banking/#167c6c5621ba

https://www.forbes.com/sites/zennonkapron/2016/03/06/china-banks-lost-22b-to-alibaba-and-tencent-in-2015-but-thats-not-their-biggest-problem/#1eec07d36094

 

Sobre idiomas na China e no Brasil

Sobre o idioma inglês

Quase ninguém fala inglês na China. No aeroporto e hotéis, sempre tem alguém que fala inglês. Executivos de cargo mais alto nas empresas também sabem falar inglês, alguns deles, muito bem. Analistas menores das empresas até arranham uma palavra ou outra, mas não são fluentes. O povo, em geral, não fala absolutamente nem uma palavra em inglês. Pensando bem, é mais ou menos como no Brasil, mas numa escala gigantescamente maior.

 

O jeito é se virar na mímica. Nas lojas, apontar para o que quiser. Nos restaurantes, apontar para o prato no menu. Teve uma vez que a moça perguntou se eu queria apimentado ou não (eu acho), e não consegui responder, nem ela entendeu nada. No final, fiz que sim com a cabeça, e veio um noodles bem apimentado…

 

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(Foto: cardápio de uma das lojas. Tudo na base da mímica)

 

O ser humano é muito bom em linguagem corporal, melhor do que a gente imagina. Dá para sobreviver na China, sem falar uma palavra em chinês – tendo dinheiro, é claro. De vez em quando aparece alguém para ajudar, mas é raro, bem raro.

 

A diferença no Brasil é que as pessoas são mais abertas, é muito mais fácil aparecer algum voluntário para ajudar um gringo.

 

 


Sobre o idioma chinês

 

 

Estudei chinês por um ano, e parei por falta de tempo, após nascer a minha filha número 2 (hoje tenho 3). Mas sei meia dúzia de palavras, bom-dia, boa-noite, e uns 100 hanzi (caracteres chineses) – e isto ajudou muito.

 

A gramática do chinês é fácil, e a tonalidade, aprende-se. O difícil mesmo são os caracteres. Há uns 20 mil caracteres, e para minimamente se virar, tem que dominar uns 3 mil. O efeito disto é que, para alguém ser alfabetizado na China, precisa gastar várias dezenas de anos estudando. Poucos são ricos o suficiente para tal, e o efeito é que há (e sempre houve) uma massa gigantesca de pessoas analfabetas na China.

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(Foto: caracteres chineses antigos. Foto tirada de exposição dentro da Cidade Proibida)
Caso:  Vimos um velhinho, na estação do trem-bala em Hangzhou. Ficamos uns 50 minutos na fila, infernal, uma desgraça, porque havia muita, muita gente querendo pegar os trens.

 

A estação de trens de Hanganzhou é a maior da China. É maior do que muitos aeroportos brasileiros. Exemplo, é maior do que o terminal de passageiros de Congonhas. Na China, é tudo big, mega, gigante.

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Tínhamos que pegar a fila, porque éramos estrangeiros e precisávamos apresentar passaporte para comprar o ticket. Do lado, havia uma série de maquininhas de auto-serviço. Um velhinho ficou ali, numa das maquininhas, este tempo todo. Meu amigo, Roberto Farina, pediu ao Manuel Netto, que fala chinês fluente, para ajudar o velhinho. Ele foi lá, perguntou se precisava de ajuda, e o velhinho foi embora. Um minuto depois, ele voltou, e lá estava ele de novo, mexendo nas maquininhas.

 

 

Provavelmente o velhinho não sabe ler. E pior, não confia em ninguém, não quer ajuda de ninguém, e também não vai ajudar ninguém.

 

 

Esta desconfiança, dizem alguns, tem as bases nas revoluções políticas ocorridas na segunda metade do século passado (Grande Salto para a Frente e Revolução Cultural), em que qualquer pessoa poderia denunciar atividades suspeitas de qualquer outra pessoa. O governo estimulava inclusive que pessoas da própria família denunciassem outras, de forma que o Partido era mais importante do que a família.

 

 

No ocidente, a princípio a gente confia em quem não conhece, e só desconfia quando esta não cumpre o prometido. Na China, é o oposto, a princípio desconfia, só depois de muito tempo é que se ganha a confiança da pessoa. Eu diria que no Japão é mais ou menos neutro, nem confia demais nem desconfia.

 

 

Em comum a todos os lugares, a confiança é muito importante. Não consigo trabalhar com quem quebrou a minha confiança.

 

 

Há uma palavra especial em chinês, Guanxi, que descreve relações de conhecimento e confiança.

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Sobre o idioma do futuro

Há muitas pessoas que dizem, “não sei por que pedem inglês no currículo, nunca usei inglês na empresa”. Ok, saber ou não outra língua é escolha de cada um, entretanto, sem outra língua, fecham-se duas portas: conhecimento e relacionamento.

 

A porta do Conhecimento: toda produção científica, política e cultural relevante está em inglês. O profissional que espera um livro ser traduzido para o português vai esperar três anos. Uma aula simples, digamos Álgebra Linear, vai ter 20 vezes mais opções de cursos e vídeos em inglês do que em português. O profissional que não sabe inglês vai sempre ficar muitos anos atrás de quem sabe e corre atrás.

 

A porta do Relacionamento: há 200 milhões de pessoas no Brasil, e 7 bilhões no mundo. O idioma universal é o inglês, qualquer reunião de alto nível entre pessoas de diferentes países será em inglês. Não é possível ter relacionamento sem comunicação, e o inglês é ferramenta básica.
Sobre o chinês como língua do futuro. Talvez não ocorra, porque os chineses de alto nível falam inglês. Mas, a cada ano em que a China ressurge como um império, cada vez mais eles verão com bons olhos aqueles que sabem o idioma deles.

 

O hanzi de China significa “país do meio”, e a cada ano, eles estão cada vez mais no centro do mundo. E têm tudo para ficarem mais milhares de anos como um dos maiores impérios do mundo.

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Gosto muito de um livro chamado Maus, que conta a história de Vladek Spiegelman. Sendo um judeu na Alemanha de Hitler, ele acabou num campo de concentração. Uma das coisas que o salvou, destacando-o da multidão, foi que ele sabia inglês. Perto do fim da guerra, estava evidente que os EUA venceriam a guerra. Um tenente alemão queria aprender inglês, e Vladek foi o professor de inglês dele. A sobrevivência, em troca das aulas de inglês. Conclusão: tem vantagem quem fala a língua do vencedor.

 

Linguagem é hábito. Linguagém é convivência e uso, se não usar, certamente a gente esquece. Por isso, é muito mais vantajoso usar o inglês como primeira língua: e-mails em inglês, livros em inglês, sistema operacional em inglês (ou na língua escolhida para estudar).

 

 

Outra coisa, é que a língua é apenas a forma de transmitir a mensagem. O conteúdo é milhares de vezes mais importante do que a forma. Tendo conteúdo, dá-se um jeito de fazer a comunicação. Não adianta falar inglês fluente, se não tiver o que falar.

 

Agora, imagine competir com alguém que tem o conteúdo e também a forma. Este estará numa vantagem competitiva enorme, difícil competir. Prefiro eu ser a pessoa com o conteúdo e a forma.

 

Conclusão: Inglês é o básico. Um executivo de alto nível tem que ter inglês fluente. Uma segunda língua é muito bom, ajuda bastante a abrir a cabeça e a fazer relacionamentos novos.

 

Foto tirada na Nanjing Road, um dos pontos turísticos mais legais de Shanghai. À noite, há uma multidão enorme de pessoas indo e vindo, como a rua 25 de março em São Paulo. A diferença é que a 25 de março vende só porcaria, enquanto a Nanjing Road é só artigo de luxo.

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China, o país das contradições

Assaltos e furtos

 

Na China, não há problemas com assaltos ou furtos. Sequestro-relâmpago, arrastão, são palavras que nem tem como traduzir para esta realidade. Dá para andar sossegado na rua, ir a qualquer lugar, a qualquer hora do dia, sem problemas.

 

Dizem que um dos motivos para tal comportamento é o rigor das punições. Se pegarem o ladrão, ele estará completamente ferrado. Será penalizado com um rigor excessivo, e até onde sei, aqui não tem a onda de direitos humanos do ocidente.

 

Entretanto, se roubar ativamente não é permitido, é permitido enganar os outros, ser levemente desonesto.

Alguns casos que passei:

– O taxista quer cobrar o dobro do valor da corrida, principalmente aqueles que correm sem taxímetro. Se custa 100 yuans, ele quer cobrar 200 yuans. Daí, você pechincha, pechincha de novo, e chega em algum valor não abusivo.

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– Nas lojas de rua, o mesmo. Ao comprar qualquer coisa, algum presentinho, o atendente vai jogar um preço alto, principalmente se entender que você tem dinheiro.

 

– Troco errado.

O atendente vê que você é estrangeiro, fala em chinês quanto deu, e te devolve o troco errado. Na primeira vez, é possível até dar o benefício da dúvida, erro humano. Mas a linguagem corporal diz tudo: o rapaz que me atendeu baixou a cabeça, fugiu para outro canto da loja, e tive que chamá-lo.

 

Por incrível que pareça, até no aeroporto internacional de Shanghai isto acontece. Desta vez, fiquei olhando com atenção. A moça disse que faltavam 10 yuans. Sei que estava errado, mas queria ir até o fim para ver o que aconteceria. Dei os 10 yuans. Fitei os olhos dela, que desviou o olhar e não se atreveu a levantar a cabeça. Ok, pensei, mais uma desonestidade para a lista. Aí, quando eu estava indo embora, ela me deu uma coleção de postcards, disse que era presente. Obviamente, ela percebeu, bateu um sentimento de culpa e me deu algo para compensar.

 

Foto dos postcards que “ganhei”:

 

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– Muitos taxistas são analfabetos. Não lêem nem em inglês, nem em chinês. Tem muitos analfabetos na China. E, por isso, você tem que ler o endereço para o taxista, o que é impossível para um estrangeiro.

 

Resultado: vira e mexe, o taxista aceita a corrida, te larga num lugar aleatório, no lugar que ele entendeu, errado, e você tem que pegar outro táxi. Como andei muito pouco de táxi, isto ocorreu apenas uma vez comigo, mas outras pessoas do grupo relataram ocorrências do tipo.

 

Em geral, essas desonestidades ocorrem nas lojas de rua, táxis, em que os funcionários são de baixo nível econômico – é claro que em hotéis de alto nível, isto não vai ocorrer. E, mesmo nas lojas de rua, não é regra geral, nem todas as pessoas fazem isto.

 

As desonestidades existem em todo lugar do mundo – no Brasil, no Rio de Janeiro, São Paulo, já tentarem me passar a perna várias vezes.

 

O que é diferente é a proporção. A probabilidade é muito alta, de pessoas que praticam tais desonestidades. Tentar ser trapaceado meia dúzia de vezes em uma semana, isso porque o tempo de turismo foi pouquíssimo, é muita coisa. Mas também, é cultural. Para eles, isto não deve ser totalmente errado. Não sei como é ser gringo turista no Brasil, mas suponho que haja muito mais transações honestas – e também, assaltos, arrastões, etc…

 


Chinês gosta de dinheiro

 

A frase acima, “Chinês gosta de dinheiro”, é clássica. Ouvi umas 5 vezes de várias pessoas diferentes. E é verdade.

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Como não dá para usar cartão de crédito (Visa, Master, nenhum), fui obrigado a andar com um bolo de dinheiro. Muitos chineses, quando viam uma carteira cheia de grana, ficavam de olhos bem abertos, dava para ler no rosto deles. Duas das desonestidades acima foram depois que os caras viram a cor do dinheiro. Depois disto, passei a esconder o grosso do dinheiro em outra carteira.

 

 

É cansativo ficar pechinchando. Entrar na loja, o atendente pedir 150 yuans, você dar 70, e ir barganhando. Eu não tenho muita paciência para isso. Enquanto o fulano dá a vida por 10 yuans, para mim isto significa 6 reais. Prefiro desistir logo, fica com o troco, do que perder tempo e energia barganhando. Porém, não sei direito o que isto significa do ponto de vista cultural (meus amigos chineses, quem quiser comentar, fique a vontade). Não sei é motivo de orgulho barganhar ao máximo. Ou o chinês vê a gente como alvo fácil (um vendedor chinês ficou me seguindo a rua toda). Não sei as respostas, mas sei que é verdade, o chinês gosta muito de dinheiro, muito mais do que qualquer outro povo que já conheci.

 

 

Isto certamente é efeito do sofrimento de um povo que, poucas décadas atrás, estava entre os mais pobres do mundo. E, na verdade, a grande massa da população continua pobre, analfabeta, na área rural, pouco assistida. Para muitos deles, assim como para muitos brasileiros, um real significa a diferença entre almoçar ou não no dia.

 

Se o Brasil é cheio de contradições, a China é contradição a um nível exponencial. Na mesma cidade em que há pessoas dispostas a ficar uma hora barganhando 1 real, há inúmeros carrões como Mercedes, BMW, Tesla, Ferrari. Ao mesmo tempo em que é possível andar sem medo de assaltos, ninguém confia em ninguém. Uma cidade gigantesca e belíssima, como Shanghai, possui as pessoas mais ricas e as mais pobres do mundo ao mesmo tempo.

 

Se o Brasil não é para principiantes, não dá para entender a China nem sendo profissional.

01_Shanghai.JPG(Foto minha na belíssima Shanghai)

 

 


Nota sobre a tradução
Dirão os puristas que o plural de “yuan” é “yuanes”, e não “yuans”. Porém, fazer isto é aportuguesar demais a experiência – e este post é sobre a China. Portanto, dane-se o português correto.

A Arte da Guerra antiga e moderna

Resumo: Um pouco da Arte da Guerra dos livros antigos, e o que encontrei na China atual.


 

Parte 1 – A Arte da Guerra

A minha fascinação pela China é de longa data.

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Tudo começou com a Arte da Guerra, de Sun Tzu – um tratado pequeno, simples, mas poderoso:

“Toda a guerra é baseado no logro (em enganar o inimigo)”,

“Na defesa, seja impassível como uma montanha. No ataque, atue como uma águia ataca uma presa”,

“A energia é como o retesar de uma besta. A decisão é como apertar o gatilho”.

 

Lembro que este foi uma recomendação de um executivo que estava palestrando para alunos do segundo grau, eu incluso – e por isso, hoje estou sempre aberto a conversar e recomendar livros para os outros.

 

Napoleão Bonaparte, sem dúvida um dos maiores generais de todos os tempos, carregava a Arte da Guerra para onde quer que fosse.

A “Arte da Guerra” me fascinou tanto que tenho umas dez versões do mesmo em minha biblioteca: diferentes traduções, diferentes interpretações, versão em quadrinhos, etc… A foto a seguir é da minha biblioteca.

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Depois de ler as notas desses livros, descobri outro tratado igualmente poderoso, capaz de alterar os rumos de uma batalha, decidir o destino de uma nação inteira: “Os trinta e seis estratagemas secretos“. É outro livro muito simples, direto:

 

“Observe o fogo do outro lado do rio”,

“Roube um bode pelo caminho”,

“Dê tijolos para obter jade”.

 

Tenho outros como o “Livro do Mestre Chang”, “A arte da guerra de Sun Pin”, e mais um monte, mostrando que a China passou por milênios de guerras entre os seus estados e contra estrangeiros (mongóis por exemplo). Estamos falando de 5 mil anos de história, é profundo, pesado – para efeito de comparação, o Brasil tem 500 anos de história.

Nesta jornada, descobri algo muito mais fascinante do que todos os livros acima juntos. Se juntar todo o conhecimento e histórias acima, não dá nem um terço deste último, que deixo aqui como o ponto alto desta exposição: O Romance dos Três Reinos.

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O maior estrategista da história da China não é Sun Tzu. Longe disso. O maior estrategista da história da China chama-se Zhuge Liang Kong Ming, o “dragão agachado”, e suas inúmeras estratégias e artimanhas que fariam Ulisses, da Odisseia, parecer um amador.

O nome “Três reinos” está errado, na verdade eram três impérios. Haviam muito mais reinados menores, que foram sendo consolidados (ou seja, derrotados), até sobrarem apenas os três reinos de Wei, Wu e Shu Han. Foram dezenas de anos de batalhas entre esses, até chegar ao vencedor que consolidou a China como um todo.

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A Arte da Guerra na China moderna

Vim para a China achando que encontraria diversas mênçãos à sua gloriosa história, e que as minhas referências como Sun Tzu e Zhuge Liang Kong Ming seriam populares e conhecidos por aqui.

Ledo engano.

E este é o motivo:

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A partir da revolução comunista de 1950, Revolução cultural nos anos 70, parece que o passado foi deletado, e tudo recomeçou do zero.

Ainda é possível encontrar sobre os mais de 5000 anos de história da China preservados em tradições e no estilo de vida chinês, porém, para estudar sobre isto, só no museu. Nas ruas, observa-se claramente o controle do Estado em todas as vidas deste país – mas isto é tema de outro assunto, mais detalhado.

 

Não encontrei a Arte da Guerra antiga, somente os efeitos da Arte da Guerra moderna. E, dizem as lendas, que Mao Tsé Tung sempre carregava uma cópia do Romance dos Três Reinos com ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Missão China

Os próximos posts deste espaço serão dedicados à “Missão China”, minha viagem ao país do meio, para conhecer um pouco mais da cultura local e de empresas de tecnologia deste país. Aliado a isto, colocarei temas de vários anos estudando sobre a cultura chinesa, que me fascina.

Serão meia dúzia de posts, mais ou menos.

Adiantando alguma coisa. O framework mental para entender um país diferente tem que mudar completamente.

Uma coisa é ouvir falar, outra sentir de verdade. Só assim para entender.

– O Estado é muito mais forte e presente do que é possível imaginar num país ocidental. E isto não é de agora, há milênios é assim.

– Pouquíssimas lojas aceitam cartão de crédito, o que dá até um certo desespero. Não aceitam Visa, MasterCard, nada. Eles usam dinheiro ou meios de pagamento móveis, via celular, como WeChat Pay e AliPay.

– Beijing é gigantesca, blocos com um quilômetro de extensão, megablocos residenciais, e só tem vias expressas. Há muitos shoppings, maiores e mais imponentes do que qualquer coisa que eu tenha visto em São Paulo (que é enorme). Lembra um pouco New York, pelo gigantismo das lojas, mas é diferente: enquanto nos EUA essa moda de shoppings e mega lojas está passando, aqui está começando.

– A comunicação é bem difícil. Poucas pessoas falam inglês. Falam mais nos aeroportos, hotéis grandes e pontos turísticos, mas o cidadão comum não fala. Mais ou menos que nem no Brasil, se abordar alguém aleatoriamente na rua, dificilmente ela vai saber inglês. A gente se vira com mímica, apontando para as coisas. O ser humano é bom em linguagem corporal, dá para sobreviver – mas não dá para fazer negociações complexas, claro.

Zaijian!

Qual a importância de uma única opinião?

Qual a importância de uma única opinião, no meio do mar de opiniões deste mundo?

 

Só no Brasil, são 200 milhões de pessoas, cada uma com a sua cabeça. No mundo, 7 bilhões de seres humanos – o que é uma única voz no meio de tanta gente?

 
Só para dar uma dimensão, imagine que um trem de 140 m é a população total do mundo. Um único ser humano representa 0,00002 mm do comprimento deste trem!

Qual a importância de opiniões como as seguintes?

 

A minha resposta é: uma única opinião vale muito, vale muito mais do que a gente imagina! A seguir, explico o por quê.


O Paradoxo de Sorites

Tome um monte de areia. Um grão de areia não é nada perto deste monte de areia. Então, retire um grão de areia deste monte – o mesmo permanece exatamente igual, não faz diferença alguma.

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Um monte de areia menos um grão de areia é igual a um monte de areia.

Então, retire mais um grão de areia, depois outro grão de areia… de grão em grão, o monte vai sumir, chegando a zero grãos.

“Soros” significa “monte” em grego – será que George Soros sabia disso?

 

A ideia é essa, o todo é tremendamente maior do que cada uma das partes, entretanto, cada partezinha dessas é o que forma o todo.

 


 
Redes de opiniões

 

Seres humanos não são grãos de areia, e uma das principais diferenças está na forma de conexão. Grãos de areia são todos iguais, indistinguíveis uns dos outros, e se ligam apenas a seus vizinhos. Seres humanos não, são todos diferentes entre si, e alguns tem conexões milhares de vezes maiores do que outros, segundo uma lei de Pareto.

 

Uma personalidade como Neymar tem 100 milhões de seguidores, e a opinião dele acerca de qualquer coisa, um shampoo novo que seja, potencialmente atingirá muita gente.

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Potencialmente, todos nós temos uma série grande de contatos, principalmente a se considerar um perfil de classe média num grande centro urbano de um país como o Brasil.

 
Além disso, há pouquíssimas novas opiniões. O que há de monte são as mesmas ideias, copiadas e coladas, repetidas à exaustão até virarem verdade absoluta. A internet é um enorme ctrl+c e ctrl+v. Mais fundo ainda, o cérebro é um grande ctrl+c ctrl+v de ideias prontas, lugares comuns.

O senso comum é a opinião de meia dúzia de pessoas que viralizou e atingiu um público enorme.

Exemplo. O quadro mais famoso do mundo é o de Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Por quê? Os críticos de arte dirão que este é sensacional, enigmático, revolucionou a história das artes, etc. Talvez este realmente seja enigmático, mas esta não é a única causa de seu sucesso. No livro Hitmakers, o autor Derek Thompson argumenta que a Mona Lisa era somente mais um quadro esquecido no museu, até que foi roubado, ganhou as manchetes, e recuperado tempos depois, e entrou no imaginário popular apenas após a paródia L.H.O.O.Q de Marcel Duchamps, que apresenta a Mona Lisa de bigode….

 

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Há pessoas famosas por serem famosas, num ciclo eterno de realimentação.
Uma opinião bem embasada, forte e diferente do senso comum tem um valor inestimável, é isto que faz com que a cultura mude, é isto que faz toda a diferença, por mais que seja apenas uma única pessoa gritando “o Rei está nu”.

 


 

Um raio laser de ideias

O laser, hoje em dia onipresente em nossas vidas (scanner de código de barras, leitor de cds, impressoras a laser), significa “amplificação da luz por emissão estimulada de radiação” – o que não quer dizer muita coisa a princípio.

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Trocando em miúdos, é mais ou menos assim, “ampliação de luz a partir do efeito Maria-vai-com-as-outras“.

Um átomo é colocado num estado de alta energia. Na presença de uma onda de luz já existente, este átomo libera energia na forma de um fóton (luz), na mesma frequência e mesma fase da onda de luz que a estimulou. Quando passa uma luz, estimula a liberação de outros fótons com as mesmas características, de forma coerente e sincronizada – daí vem o seu poder.

 
Somos como cada átomo desses, cada um com a sua luz interna, que pode ser estimulada e entrar em sintonia com outras luzes de outras pessoas, quem sabe, assim, formando um raio laser poderoso de ideias – sendo este capaz de mudar alguma coisa de verdade no mundo.

Quando o primeiro grita “o Rei está nu”, outros tantos que estão acompanhando também podem o fazer, em coro, expondo aquilo que cada um de nós, individualmente, não conseguiria.

O paradoxo de Sorites não existe no caso do ser humano, porque é como se pudéssemos sincronizar os grãos de areia: ao cair um, caem todos de uma só vez.

Daí a importância das opiniões. Muitas vezes, não vai dar em nada – é como um fóton isolado que se perdeu no universo, mas, outras vezes, pode se transformar num raio laser, capaz de deixar a sua marca no universo.

 


Links:

https://en.wikipedia.org/wiki/Sorites_paradox

https://en.wikipedia.org/wiki/Laser

 

O que é felicidade para mim?

É uma pergunta difícil, porque cada um tem o seu conceito de felicidade.

 

Felicidade para mim é o momento em que podemos viver livremente, levemente, respirando fundo o ar à nossa volta sem preocupações e desfrutando aquele instante sem a necessidade de pensar no próximo segundo.

 

Fácil?
Nem tanto…

 

Há uma série de pré-requisitos para viver tal momento. O ambiente deve ser bom, não consigo me imaginar assim no metrô lotado no horário de pico, por exemplo.

 
Devemos estar com a consciência tranquila. Não dá para pensar neste momento sem estar orgulhoso de seus próprios atos, com a certeza de ter oferecido ao mundo mais do que o recebido, com a certeza de que o trabalho realizado até agora foi duro, honesto e honrado.

 

Também é necessário estar em paz com o futuro, sem tormentas à vista, sem preocupações reais ou imaginárias.

 

Estar de bem com as pessoas que fazem a sua vida ter algum significado.

 
Nem sempre é possível ter todas essas condições ao mesmo tempo, o que torna tais momentos mais importantes ainda – portanto, que sejam reconhecidos e celebrados, que tais momentos sejam eternos!

 
Independente do que temos, do que já alcançamos e o que queremos, a felicidade é válida somente hoje, no presente. É como se a vida nos desse um ticket, que é válido por um único segundo, somente agora – se não for utilizado neste instante, perderá a validade para todo o sempre.

 

O presente é o maior presente que possuímos.

 

Trilha Sonora: O Que Será (À Flor da Pele) – Chico Buarque

Dica para ouvir: Dedicar os próximos 3 minutos totalmente para ouvir a música. Escolha um lugar tranquilo, feche os olhos, aperte play e desfrute. Neste vídeo histórico, se encontram presentes Toquinho, Miúcha, Vinícius de Moraes e Tom Jobim, imortalizando uma noite fantástica.

 

 

 

https://www.letras.mus.br/chico-buarque/1217237/

 

 

O homem mais forte do mundo e o Bobo da corte

Esta é a história do Homem Mais Forte do Mundo, forte não em termos de força física, mas no sentido moderno, do business corporativo.

Ele era um executor de tarefas impiedoso. Meta dada era meta cumprida, qualquer fosse o custo para tal. Cobrava as pessoas com força e autoridade, utilizando ferozmente suas armas, os chicotes e as cenouras do mundo corporativo. Com seus escudos e lanças, matava os leões modernos de cada dia.

Trabalhava de 8 da manhã às 9 da noite no escritório e até de madrugada em casa, frequentemente exigindo que os subordinados o fizessem também. Ao mesmo tempo, ele era cuidadoso no linguajar, de forma que as palavras não o pudessem comprometer pelas regras modernas de assédio moral. Entretanto, o seu gesto corporal era claro: ou se submetia às regras, ou estaria fora…

Ele navegava bem pelas conexões deste mundo, fazendo as alianças necessárias para subir às mais altas das montanhas, frequentemente utilizando alguns dos ex-parceiros como degraus no meio do caminho.

Desafiá-lo era enfrentar alguém com uma couraça impenetrável e um gancho de direita nocauteador, rude, preciso e impiedoso.

A moral e a ética, embora fossem apregoadas incessantemente da boca para fora, frequentemente ficavam de lado na prática.

De fato, ele subiu alto. Depois de um tempo, o Homem Mais Forte do Mundo era frequentemente capa de revistas corporativas, conhecido como alguém que resolvia qualquer parada, que valia qualquer dinheiro.

 
Numa dessas festas corporativas, ele encontrou o Bobo da Corte, vil e inútil, da mais baixa camada social. E o Bobo o desafiou para um duelo de palavras, para ver quem era o mais forte de verdade.

Bobo:

Sou o bobo, sou um nada.
Sou um palhaço, uma piada.
Porém, a verdade conto:
Mais bobo, menos que nada, és tu,

És um zero à esquerda,

És um boçal, o verdadeiro palhaço,

Um inútil, um merda,
A verdadeira piada.

Homem forte: Estás de brincadeira? Sou grande, sou forte, sou admirado por todos, alcancei o que poucos alcançaram, fiz o que poucos fizeram.

Bobo:

Sim, tens razão,
És tão forte, mas tão forte,
Que a tua grossa couraça
Impede qualquer sentimento,

Tuas glórias são as desgraças de outrem,
Por onde passas, terras arrasadas,
Onde caminhas, não nasce a grama.

Homem forte: Tu me insultas, me calunias, mas o que tens além de palavras? Eu tenho tudo, sou alto gestor da empresa, tenho milhões no banco, imóveis, investimentos, e você, nada tem.

Bobo:
Deixarás o teu saco de ouro na Terra no dia que partires,
Assim como deixarás um mar de ressentimento,
Veja só, os fantasmas dos que ficaram para trás,
Os que foram traídos por tuas promessas vazias,
Os que foram apunhalados por tuas fofocas,

O teu ouro é tirado de outrem,
Colhes o fruto e derrubas a árvore,
Desfrutas do presente e cauterizas o futuro.
És o mais covarde dos homens.

Homem forte: Mentiras contas a mil, sou admirado pelos colegas à minha volta, sou idolatrado pelos meus amigos.

Bobo:

Amigos verdadeiros não tens,
Apenas interesseiros e bajuladores,
Não o admiram, apenas o temem,
Por trás, esses mesmos fazem piadas com o teu nome,

És denominado “coração de gelo”,
És denominado “grandíssimo FDP”,
O domingo é o teu dia mais triste,
Em que ficas com tua verdadeira companhia,
Em que ficas com a Solidão.

Homem forte: Novamente mentes, namoro uma linda modelo, atriz de novelas, a mais cobiçada de todas.

Bobo:

Novamente, enganas a ti mesmo,
Ela não enamora a ti, apenas a teu dinheiro,
A presença dela é alugada,
Movida a joias e luxos,

Não há mulher verdadeira que o suporte,
Acabas invariavelmente sozinho.
Tens um filho, mas é como se não tivesse nenhum,
Já que nenhum é o tempo que passam juntos,
Conheces mais a foto dele do o mesmo de verdade.

Homem forte: Pelo menos, sou saudável e viril, não um mirradinho como tu és.

Bobo:

Qual nada,
Corpo algum aguenta ser maltratado,
Não és uma máquina infalível,
És movido a estimulantes,

Dormes com sedativos,
Começastes devagar, mas agora
Do álcool és escravo,

Derrotas a todos, menos a ti mesmo.

O Homem forte pensava na resposta, quando viu os colegas a seu redor gargalhando, rindo com escárnio, apontando-lhe os dedos, liberando o sentimento verdadeiro preso nesses anos todos.

Bobo:

Tua couraça dura consumiu o interior macio,
És forte por fora e um vácuo interno.
És por fora reluzente como o ouro,
És por dentro, vazio, inerte, um nada.

Mais bobo, menos que nada, és tu,
És um boçal, o verdadeiro palhaço,
A verdadeira piada.

O Homem forte sabia que tinha sido derrotado, pela primeira vez na vida, e pôs-se a chorar, a soluçar com todas as forças, incessantemente.

Por fim, o Homem Mais Forte do Mundo chegou à sua conclusão: “Não sou o homem mais forte do mundo, mas sim, o homem mais fraco do mundo…”

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2015/07/02/a-vida-e-como-uma-peca-de-teatro/

https://ideiasesquecidas.com/2015/07/25/como-ler-shakespeare-e-como-ler-algebra-abstrata/

6 Dicas de redação de George Orwell

O escritor George Orwell é um dos maiores escritores de todos os tempos, autor de livros lendários como 1984 e A Revolução dos Bichos.

A seguir, 6 dicas simples de redação que valem a pena ser seguidas:

  1. Evite figuras de linguagem e ditados populares
  2. Nunca use uma palavra longa se uma curta é suficiente
  3. Se for possível encurtar o texto, encurte
  4. Nunca use a voz passiva se puder usar a ativa
  5. Nunca use uma frase estrangeira, um termo científico ou um jargão se você consegue pensar em um equivalente comum
  6. Quebre qualquer destas regras antes de escrever alguma barbaridade

 

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A fonte original é o artigo “Politics and the English Language”, disponível em http://www.orwell.ru/library/essays/politics/english/e_polit

 

Os livros 1984 e A Revolução dos Bichos são dois dos mais interessantes que conheço, e convido para tomar um café quem quiser bater um papo sobre estes.

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Related image

 

Nota:

Belo texto do Scott Adams, autor do Dilbert

http://dilbertblog.typepad.com/the_dilbert_blog/2007/06/the_day_you_bec.html

(enviado pelo leitor Pedro Arka)

 

“A perfeição é atingida não quando não há mais nada a acrescentar, mas quando não há mais nada para tirar”- Antoine de Saint-Exupéry

(enviada pelo amigo Daniel Santamaria)

Sobre os forecasts de Inteligência Artificial da Copa 2018

Após a eliminação do Brasil (e Alemanha, Espanha, Argentina, Portugal) na Copa do Mundo de 2018, é possível dizer que a grande maioria das previsões baseadas em coisas da moda com nomes bonitos, como Inteligência Artificial, Machine Learning, Redes Neurais, falhou!

E daí? O que isto quer dizer? Duas coisas:

– Não ridicularizar as análises porque erraram,

– Não endeusar as análises quando acertam.

Forecast 1:

Forecast02.png

Forecast 2:

Forecast1.png

 

Forecast 3:

Forecast03.png

Forecast 4:

Forecast04.png

 

Todos os algoritmos citados são baseados em modelos, que por sua vez derivam de dados do passado. Cada algoritmo em particular leva em conta algum aspecto relevante: seja a tradição do time, o desempenho destes nas últimas partidas, histórico contra times semelhantes aos dos jogos da Copa… alguns algoritmos podem tentar ser mais precisos, e modelar o desempenho de cada jogador de um time contra cada jogador de outro, etc…

Porém, o que interessa não é desempenho passado, mas sim, o futuro. A hipótese utilizada em 100% desses modelos é a de que o passado pode ser utilizado para fazer uma previsão do futuro. Há domínios em que esta hipótese é verdadeira, digamos, para fazer reconhecimento de imagens (reconhecemos um carro porque este vai continuar tendo características de um carro, tanto hoje quanto no futuro).

O futebol não é um domínio muito bom para forecasts, porque o passado não necessariamente vai explicar o futuro. Cristiano Ronaldo pode ter arrebentado em 99% dos jogos, mas no único jogo decisivo, pode passar em branco. Casemiro pode ser muito eficaz contra os belgas, mas não dá para prever quando ele ficará fora por cartão. Se dois times jogassem 100 vezes, é provável que a média estatística se concretizasse, porém, na vida real ocorre um único jogo, em que uma retranca de um time mediano pode parar o melhor ataque do mundo.

 

A conclusão é que as análises são válidas, importantes, e devem ser levadas em conta, principalmente num domínio em que o histórico pode explicar o futuro, como o comportamento do consumidor.

E o contraponto é que algumas análises podem até acertar, mas isso não quer dizer que vão acertar tudo para todo o sempre. Diante de inúmeras previsões de inúmeras pessoas, alguma delas acertará exatamente o campeão. O ser humano tem a tendência de se impressionar com quem acerta o futuro, como o polvo Paul, que simplesmente teve sorte.

Ao invés de tentar prever o futuro, devemos estar preparados para os melhores e os piores cenários que podem ocorrer.

E o meu chute?
Inglaterra campeã, pelo efeito Guardiola (quando ele trabalha no país em questão, o nível do futebol do país sobe).

 

 

 

Os cegos e o elefante

Há uma lenda hindu antiga, mais ou menos assim.

Um grupo de cegos estava discutindo sobre o elefante.

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Um disse: O elefante é fino e comprido como uma mangueira.

Outro retrucou: Não, o elefante é largo e grande, parece uma parede.

Um terceiro comentou: Vocês dois estão errados. O elefante parece o tronco de uma árvore.

Um quarto: Não, não, ridículo. O elefante parece uma folha…

 

E continuaram a discutir, sem chegar a um consenso.

 

Todos estavam certos localmente, mas todos estavam errados no todo.

Cada um defendia a sua verdade, sem levar em conta que poderiam haver outras verdades.

 

E, já que ninguém consegue ter a visão de toda a realidade, apenas de parte dela, não podemos rir da tolice desses cegos, já que todos nós também somos cegos tolos.

Um passeio com Godel e Einstein

Uma longa caminhada é uma excelente forma de ter boas ideias. Que tal uma caminhada na companhia de Albert Einstein e Kurt Godel, dois dos maiores cérebros do século passado, talvez, de todos os tempos?

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Einstein, todo mundo conhece, é O CARA da Teoria da Relatividade, que abalou as fundações da Física e modificou profundamente o nosso modo de entender o mundo.

Godel é menos conhecido do público, entretanto, é O CARA da Teoria da Incompletude, que abalou as fundações da Matemática, e pôs em xeque todo o conhecimento lógico da mais abstrata das ciências.

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Dois rebeldes, dois revolucionários que destruíram os alicerces das duas ciências mais exatas de nosso tempo, a Física e a Matemática.

Einstein e Godel faziam caminhadas diárias, quando trabalhavam juntos no Instituto de Estudos Avançados em Princeton. Caminhavam na ida ao instituto, e no fim do dia, voltando do mesmo.

Godel, nascido em 1906, era 27 anos mais jovem do que Einstein, nascido em 1879. De comum, o fato de serem geniais, terem fugido da Alemanha de Hitler, e estarem trabalhando em Princeton, nada mais. Godel era taciturno, pessimista, solitário, de hábitos esquisitos, como comer papinha de nenê e gostar do filme da Branca de Neve e dos Sete Anões. Einstein era mais gregário, gostava de violinos e de Mozart.

Sobre o que falavam? Sobre grandes viagens abstratas no espaço e o tempo? Sobre as fundações das fundações das fundações das fundações da matemática? Sobre mitologia grega clássica? Sobre política? Sobre suas esposas? Sobre outros colegas de trabalho? Sobre como os americanos eram diferentes dos alemães? Sobre futebol (difícil, os jogos do São Paulo FC não passavam nos EUA naquela época)? Ninguém nunca vai saber exatamente…

No fundo, eram apenas dois seres humanos, como quaisquer outros. Apenas bons amigos, que gostavam de trocar ideias…

(Dedicado a todos os bons amigos com quem já passei horas caminhando e trocando ideias)


“A vida é como andar de bicicleta, para manter manter o balanço você deve estar sempre se movimentando” – A. Einstein

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