O Cavalo de Troia das histórias

Já contei neste espaço sobre a “Verdade e o Conto”, ou seja, a verdade pode ser dura demais, mas com a ajuda do conto, ela consegue entrar no coração das pessoas.

Ouvi outra analogia do tipo. As histórias são como um cavalo de Troia, remetendo à famosa lenda do cavalo de madeira, que entrou pelos portões da cidade murada intransponível, com guerreiros escondidos em seu ventre, que abriram os portões de Troia ao exército grego.

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Contar diretamente o que queremos transmitir pode ser muito rápido, não dá tempo de imaginar uma situação, assimilar os dados e entender a ideia.

Exemplo:

– Você conhece o bar Gelo? É um lugar muito bom…

– (Comentário interno: E daí????)

Versus:

– Você conhece o bar Gelo, que fornece três tipos de gelo?
– Como assim, três tipos de gelo? Para mim, gelo é tudo igual…
– Há bebidas em que o gelo tem que ser maior, para derreter devagar. E há outras em que o gelo tem que derreter rápido, para a água se misturar à bebida na medida certa. E o terceiro tipo é para as bebidas que estão entre o derreter rápido e devagar.

Desta forma, ao contar toda uma história elaborada, mostra-se que o bar Gelo tem grande preocupação com a qualidade das bebidas servidas. Além de que é uma história curiosa, certamente vai ficar na memória das pessoas.

Na comunicação entre computadores, a informação redundante é inútil, apenas desperdício de bytes – segundo a Teoria da Informação de Claude Shannon. Entretanto, na comunicação entre pessoas, esta informação redundante aumenta a eficácia da mensagem (contanto que a redundância seja criativa).

Portanto, para aumentar o seu poder de comunicação, comece a contar histórias interessantes.

Para falar a Verdade, eu gosto muito de histórias de mitologia, sendo a Ilíada uma das minhas histórias favoritas. E só estou colocando este assunto para justificar o meu tempo gasto lendo mitologia…

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Fonte da história: The Teaching Company, How Ideas Spread

Pedir ajuda

Pedir ajuda é uma excelente forma de inovar, e também de criar novas conexões.

Em geral, as pessoas gostam de ajudar, contanto que esta ajuda seja pontual, humilde por parte do solicitante e de alto nível técnico.

A primeira lei de Newton, da ação e reação, vale aqui:

– Se a pessoa se sentir explorada, obviamente ela não vai gostar.
– Se for com um tom de obrigação, a ajuda vai ser somente o mínimo necessário para responder a questão.
– Se for algo de alto nível técnico, engrandecedor para quem ajudar, a resposta também será de alto nível.

O ideal é que a ajuda extrapole a pergunta: indique novas oportunidades de aplicação, abra novas portas, dê novas ideias.

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A inovação que funciona de verdade vem de networks: várias pessoas (competentes, diga-se de passagem), colocando novas aplicações e elementos que contribuem para o sucesso do trabalho.

Por fim, quando o trabalho estiver concluído, agradeça pela ajuda, por menor que esta tenha sido.

Ação: peça ajuda, mesmo se não precisar. Mas saiba pedir.

 

Três contos sobre o Trabalho

Os dois comerciantes

Um conto budista sobre o diálogo de dois comerciantes, o normal e o esforçado, no meio de uma longa jornada para comprar os produtos para revender posteriormente.

Normal: Que trabalhão, ter que atravessar essa montanha imensa, carregando tantos fardos! Queria que a nossa jornada fosse mais simples.

Esforçado: Pois eu queria que a montanha fosse maior, o caminho fosse mais tortuoso, e os perigos maiores.

Normal: Ah é? Mas por que motivo?

Esforçado: Se a jornada fosse mais árdua, menos pessoas se prestariam a tal. Desta forma, os frutos do meu trabalho seriam mais valiosos, e por consequência, a recompensa seria maior!

Leia também: a Associação dos Burros Esforçados.


Hermes e o trabalho

Um conto de Esopo

Zeus, após criar os seres humanos, designou Hermes para ensiná-los a sobreviver de seu trabalho na Terra.

Hermes os levou até Gaia, a Terra, e ensinou-os a labutar.

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A Terra, porém, não gostou nem um pouco. Hermes obrigou-a, dizendo que Zeus tinha ordenado. Ela retrucou: podem cavar a terra, mas terão que pagar caro por isto.

Este é o motivo pelo qual temos que trabalhar tanto para sobreviver neste mundo…


Os dois sapatos

Este conto é meu mesmo.

Numa vila, haviam dois sapateiros, um mediano e um excelente.

O sapateiro mediano colocou 10 horas de trabalho para fazer um sapato também mediano: costuras imperfeitas, pés desiguais, pontas sobrando.

O sapateiro excelente fez um sapato excelente: costuras perfeitas, acabamento bem feito, detalhes bem pensados. Utilizou 15 horas para tal.

Um cliente comprou um par do sapateiro mediano e um par do sapateiro excelente, pagando algo proporcional a 10 e a 15 moedas, respectivamente.

O sapato mediano incomodava o pé do cliente, e estava cheio de falhas. O cliente voltou para ajustes ao sapateiro mediano mais três vezes antes de desistir do mesmo – mas no total ele gastou muito mais tempo e dinheiro do que o preço original.

Já o sapato excelente funcionou perfeitamente, sem necessidade de retorno para ajustes. Obviamente, o cliente passou a comprar sapatos apenas com o sapateiro excelente.

Entregar um bom trabalho requer uns 50 por cento a mais de tempo, esforço e concentração do que um trabalho ruim, na primeira vez em que é realizado.

A diferença é que o trabalho ruim vai voltar para ser refeito o triplo de vezes do que o trabalho bom, na melhor das hipóteses.

No final das contas, vale muito mais fazer um excelente trabalho desde o início.

A Corrida do Ouro (virtual ou não)

Atualmente vejo uma grande quantidade de pessoas, algumas delas brilhantes, correndo atrás da mineração de criptomoedas como o bitcoin.

Isto lembra a corrida do ouro da Califórnia, de 150 anos atrás. Ou a corrida do ouro de Serra Pelada, mais recentemente. Ou a corrida do ouro do Klondike, que aparece nas histórias do Tio Patinhas.

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Fulano de tal conseguiu riqueza em pouquíssimo tempo. Ele apareceu no jornal, por encontrar uma pepita de ouro no meio do barro. Dezenas de outros seguem atrás, com a pá no ombro e esperança no coração.

Trecho de reportagem, cuja fonte está nos links:

O ouro que brotava na Califórnia era generoso. Nos primeiros meses depois da descoberta, era possível coletar as pepitas diretamente do solo. Bastava agachar e pegar. O metal precioso era encontrado em leitos de rios e em ravinas aos borbotões. O mexicano Antônio Franco Coronel, por exemplo, abandonou o emprego de professor em Los Angeles e em três dias de mineração recolheu 4,2 kg de ouro.

 

Em pouco tempo, o rancho de John Sutter foi cercado por milhares de caçadores de fortuna. Barcos que atracavam em São Francisco, a 212 km dali, eram abandonados pelos marinheiros. Em agosto de 1848, a notícia chegou a Nova York. Em dezembro, depois de receber um pacote com pepitas, o presidente americano James Polk foi ao Congresso para anunciar o achado. Nos 5 anos que se seguiram à descoberta, 300 mil pessoas do mundo todo correram para a Califórnia.

Porém, a grande maioria vai falhar…

O avanço sobre a terra foi tão grande e rápido que em 1853 o ouro começou a escassear. Agora só se conseguia extrair o metal com bombas de sucção e esteira mecânica. O tempo do heroísmo individual havia acabado. Para Slotkin, a corrida do ouro “foi uma terrível perda de vidas e empobrecimento de pessoas, em que pouca gente fez fortuna”. De fato, James Marshall, que descobriu o ouro, morreu na miséria em 1885. Sutter também não ficou milionário – ele trocou ouro por gado e ovelhas, que acabaram roubadas por garimpeiros, e faliu em 1852.

 

Alinhado à minha concepção do que é dinheiro e riqueza, o problema principal é que tanto capital humano poderia ser direcionado para outras atividades produtivas: produzir bens e serviços, trabalhando na indústria ou comércio. O capital intelectual e computacional poderia ser utilizado para fins mais nobres, como biologia computacional, pesquisar a cura do câncer.

A verdadeira riqueza está em resolver problemas importantes do mundo real.
Ou, como disse Napoleon Hill:

“Mais ouro foi minerado do cérebro humano do que da terra”.

 

 

Fotos de Serra Pelada, do site monomaníacos:

 

 


 

Links:

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/era-industrial/a-corrida-do-ouro-da-california.phtml#.Wn6g5-cfPIU

https://www.wdl.org/pt/item/16791/

Como foi o garimpo em Serra Pelada?

http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/serra-pelada-corrida-do-ouro.htm

 

http://www.monomaniacos.com.br/historia/inferno-serra-pelada-1980/

 

Haikais (ou quase)

Em resposta à provocação do meu amigo José Antônio Espíndola, seguem algumas palavras sobre Haikais.

Haikai, ou Haiku, são poemas japoneses simples, de 17 sílabas (poéticas), divididas em três linhas: 5 – 7 e 5 sílabas.

Um exemplo, do mestre Matsuo Basho (1644 – 1694):

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Cansei da viagem
hoje faz quantos dias?
Vento de outono.

São poemas bastante simples, que podem ter relação com a natureza ou estações do ano.

Borboletas e
aves agitam voo:
nuvem de flores.

Versos simples e bonitos

Entretanto, como em tudo na cultura japonesa, há várias regras chatas para criar um simples haiku de verdade: o tema, a métrica, etc.

Não sou nenhum especialista em haikus, portanto não vou arriscar a quebrar regras que nem conheço direito.

O que vou fazer é escrever alguns fake-haikus. Haikus em versão livre.

Cronos

O Passado volta,
O Presente não é vivido,
O Futuro clama!

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Leve

Pássaro feliz.
Ar, vento, liberdade.
Eterno Azul.

Related image

O Vaso

Vaso imóvel.
Esbarrão… gravidade,
Cacos voando…

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Três filhas

A Haru graceja.
A Hikari canta e dança..
A Hiromi brinca…

(Tenho três filhas, chamadas Haru, Hikari e Hiromi)

Deixe o seu Haikai nos comentários.


Links

http://www.revistaprosaversoearte.com/matsuo-basho-dez-haikais/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Haiku

https://en.wikipedia.org/wiki/Matsuo_Bash%C5%8D