​ Lastro e argumentos ad-hominem

Imagine encontrar um mendigo, na porta de um bar, e ouvir ele dizer:
“Dinheiro não traz felicidade. Aproveite as coisas pequenas da vida.”
Certamente, a mensagem dele, por mais verdadeira que seja, não passa credibilidade alguma. O mensageiro precisa ter um lastro, algo a mais que dê força à mensagem.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer escreveu extensivamente sobre estratégias de debates. Atacar o emissor da mensagem, ao invés da mesma, é uma estratégia ad hominem. Atacar a mensagem em si, é uma estratégia ad rem. Teoricamente, deveríamos nos preocupar apenas com ataques ad rem, mas na vida real, os ataques ad hominem são muito poderosos.
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A questão é: por que o ser humano precisa de um lastro? Se o que alguém diz é verdade, qual a diferença entre ser dito por um mendigo ou por um prêmio Nobel de Economia? E se o mendigo fosse Sêneca, o sábio romano (e aristocrata milionário) que costumava andar como um mendigo de vez em quando?
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Sêneca, o jovem.
Talvez uma das respostas possíveis estejam no trabalho de Daniel Kahneman e Amos Tversky. Eles sugerem que a mente humana é dividida entre o
Sistema 1, rápido, intuitivo, emocional, e o Sistema 2, pesado, devagar, racional.
É inevitável passar pelo Sistema 1, que avalia instantaneamente: “um mendigo, não sabe nem ler nem escrever, não tem um tostão no bolso e pode me roubar”. A mensagem para na parte emocional. Nem passa para a análise do Sistema 2.
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Por isso, precisamos de um livro de economia de 1000 páginas com um monte de teorias e fórmulas incompreensíveis para sustentar uma afirmação simples.
Ou um adolescente, que não dá a menor bola ao que dizem os pais, mas segue a recomendação de alguém que ele admira.
Ou escrever um texto, citando um milhão de teorias e nomes de outros pensadores, para mostrar que as palavras não são vazias, o autor estudou para escrever.

O ser humano julga o livro pela capa. Pelo menos, num primeiro filtro, a capa é importante.
E, pela teoria de Tversky e Kahneman, é inevitável que isto aconteça.
O genial Steve Jobs usava a palavra “impute”, para dizer que a capa importa. Os produtos da Apple tinham um design fantástico (e também um conteúdo excelente). A ideia era que a Arte e o Produto deveriam ser uma coisa só, pensados nos mínimos detalhes para garantir a melhor usabilidade do cliente.
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Conclusões

A capa do livro importa para outros seres humanos. Capriche não só no conteúdo, mas na capa também. Isto significa roupas condizentes com a situação. Uma apresentação no Power Point clara, bonita, sem erros de português. Postura adequada. Afirmações que tenham lastro em teorias e ideas, números que venham de fontes consistentes. Produtos e serviços que sejam arte também.

Por outro lado, se os outros olham muito para a capa, tente ignorar a capa e olhar para o conteúdo. Utilizar argumentos ad rem. Avaliar o argumento de forma lógica. Atacar os pontos fracos ou hipóteses ruins. Não se deixar levar por argumentos ad hominem.
Portanto, não se vista de mendigo ao falar com alguém, mas se um mendigo vier falar contigo, não o ignore logo de cara!

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