Idiota

Uma mensagem do Bastter:

 

idiota

 

A forma mais simples de ser enganado é achar-se esperto demais. Isto vale para qualquer um, desde um mero mortal qualquer, até um prêmio Nobel.

 

Já contei aqui a história de pessoas que se achavam gênios e se deram mal.

A história de dois prêmios Nobel de Economia, que inventaram uma fórmula mágica para vencer na bolsa de valores, e quase quebraram o mundo.

 

Por outro lado, também já contei histórias de pessoas que assumiram que não sabiam tudo, e se precaveram:

https://ideiasesquecidas.com/2016/06/11/assimetria-de-resultados-termoeletricas-e-herois-esquecidos/

 

Na minha primeira gaveta de trabalho, tenho impresso este recado sutil do Bastter, para me relembrar de encarar o mundo com humildade. “Nunca se esqueça que você é um idiota”.

 

*O Bastter é um educador financeiro, que tem o site http://www.bastter.com. Gosto muito de suas ideias e postura quanto a decisões financeiras.

 

 

 

Um novo paradigma de aprendizado: aprender por osmose

Um dia, há muito tempo atrás, eu estava ensinando matemática a uma pessoa que tinha passado pelo método de ensino Kumon.

Para quem não conhece, o método Kumon consiste em repetir as operações básicas (digamos 5 x 7) infinitas vezes, por inúmeras horas, e ir aumentando a dificuldade gradativamente. A pessoa, de tanto olhar para os números, acaba virando uma calculadora humana.

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E o meu aluno era literalmente uma calculadora humana. Fazia contas de cabeça num piscar de olhos, mais rápido do que se eu digitasse numa calculadora eletrônica.

 

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Entretanto, ele não sabia o mais importante de tudo: qual a conta a fazer. Ele sabia apenas a mecânica das operações, mas não dominava os conceitos do que tinha que ser feito para chegar na resposta correta.

Por isso, sempre fui muito crítico ao método Kumon, que se baseia na memorização e repetição. Preferia que a pessoa aprendesse a pensar, aprendesse a racionar por si só, ao invés de decorar um método de solução.

Mas hoje, mudei de ideia, ao ler o excelente artigo de Bárbara Oakley, na revista Nautil.us.

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Aprender por osmose

Bárbara Oakley conta que nunca gostou da área de exatas. Ela tinha uma dificuldade enorme com matemática no ensino básico. Por isso, ela fez letras – russo – em sua graduação. Mas um dia chegou à conclusão de que saber russo não era o que ela realmente queria, e decidiu seguir o caminho da Engenharia.

Sendo alguém que não tinha a menor capacidade de entender o raciocínio das derivadas e integrais de um curso pesado de engenharia (engenharia de produção não conta, rs), ela usou as únicas armas que tinha: memorização e repetição. Memorização e repetição. Memorização e repetição. Memorização e repetição…

Digamos que cada pedacinho de conhecimento matemático que ela conseguia dominar separadamente fosse um “bloco de informação”.

Pouco a pouco, a partir do arsenal de “blocos de informação” que ela tinha, ela foi unindo o quebra-cabeça destes pedaços e começando a compreender o todo.

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Repetindo este mesmo processo arduamente, em alguns anos ela conseguiu remodelar o cérebro para a área de exatas.

A explicação de Oakley faz muito sentido para mim. Pensando bem, nem tudo o que aprendi estudando foi puramente raciocínio logo de início. Teve muita coisa que guardei para mim, sem entender direito o significado, e só depois de muito tempo consegui sacar a lógica deste “bloco de conhecimento”.

O cérebro humano não é um computador eletrônico, em que a informação é colocada e não muda mais. O cérebro precisa de prática, muita prática. Precisa de tempo para processar a informação. Precisa de memorização, mesmo sem saber direito para que serve. Precisa de repetição para internalizar conceitos. Precisa entender o raciocínio, mas também precisa exercitar, senão esquece.


Síntese

Como tudo na vida, não há paradigma eterno.

O filósofo alemão George Hegel (1770 – 1831) afirmava que o processo de evolução do conhecimento, a dialética, era formada da tríade Tese – Antítese – Síntese.

A minha Tese era a de que devemos entender o raciocínio, a lógica do conhecimento.

A Antítese, de Bárbara Oakley, mostrou que memorização e repetição são igualmente importantes para o aprendizado.

A Síntese é que para o aprendizado ser efetivo, devemos entender o raciocínio, mas também treinar, memorizar, e repetir este ciclo inúmeras vezes até internalizar o conhecimento.

Aprender por osmose não é tão ruim assim. Na verdade, talvez o cérebro humano só aprenda mesmo por osmose…

 

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Qual é o seu pitch?

O que você quer ser quando crescer?

As crianças ouvem muito a pergunta, “O que você quer ser quando crescer?”. Obviamente, elas dizem qualquer coisa, “astronauta”, “piloto de fórmula 1”, “o Homem Aranha”, porque não têm a mínima ideia concreta do que serão.

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Os adultos não ouvem tal pergunta, embora a grande maioria não saiba o que quer ser no futuro, quando “crescer”. O grande Peter Drucker dizia que ele não sabia o que queria ser quando crescesse, mesmo quando tinha 80 anos.

Entretanto, os adultos comumente ouvem uma pergunta diferente: “O que você faz?” “No que você está trabalhando?”. Esta pergunta é muitas vezes mais simples, porque é no tempo presente, e não no futuro.

Ao invés de “O que você faz?”, proponho uma pergunta diferente: “Qual o seu pitch?”

 


 

Discurso de elevador

Um discurso de elevador é uma conversa de uns trinta segundos, não planejada, com alguma pessoa para a qual queremos vender uma ideia. Tal qual o nome sugere, é como encontrar o presidente da empresa no elevador e explicar algo complexo e importante em poucas palavras.

 

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O pitch tem que ser simples de ser entendido: ocupar a cabeça da pessoa receptora com uma ideia, a ideia principal, fácil de servir como referência.

E o pitch não precisa contar a história toda. Precisa apenas transmitir a ideia principal, o valor gerado e principalmente despertar a curiosidade da pessoa. Ou seja, servir como um gancho para chamar outra reunião mais detalhada, ou fazer com que ela acesse um site para mais informações.

 


Como diminuir o desperdício de comida no Brasil?

Vi uma apresentação de Lee Fu Kuang, que participou de um programa chamado Masterchef. Ele é formado em medicina, trabalha com oncologia, e gosta muito de cozinhar.

 

O pitch dele é: ensinar as pessoas a não desperdiçar comida.

Como? Mostrando que é possível fazer pratos extremamente saborosos e saudáveis utilizando ingredientes que ninguém usa (como nabo) ou joga fora (como a cabeça e o rabo do peixe).

Como? Usando o seu background em medicina para pesquisar qualidade de alimentos em laboratório. Por exemplo, receitas sem lactose para quem tem alergia. Outro exemplo: a folha da cenoura dá umas receitas boas, mas ninguém sabe exatamente o quanto de agrotóxico fica impregnado na folha. O laboratório gastrômico dele se propõe a fazer esta análise.

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Este é o pitch de Lee.

E o que você faz? Qual o seu pitch?


 

Adendo

O pitch do Lee é tão interessante que desperta a curiosidade para saber mais:

Lee nasceu em Taiwan, e ele e os pais migraram para o Brasil quando ele era pequeno. A migração foi por motivos políticos, então eles vieram sem patrimônio algum.

Em países orientais como a China e o Japão, que passaram por épocas de fome terríveis em sua história, é comum tentar aproveitar o máximo da comida. A minha mãe, por exemplo, frita sardinha com  cabeça e o rabo, e faz um excelente tempurá de folha de cenoura! O Brasil, talvez pela abundância de alimentos, talvez por cultura mesmo, desperdiça muita comida, ao mesmo tempo em que boa parte da população passa fome. A inovação de Lee é unir a cultura oriental de aproveitar alimentos com os pratos que são do gosto dos brasileiros.

 

Não sei se Lee vai ser bem sucedido em sua empreitada, mas pelo menos o pitch dele é muito bem feito, e a moqueca de cabeça de peixe parece muito boa!

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http://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2016/08/lee-do-masterchef-ensina-fazer-moqueca-economica-e-sem-desperdicios.html

 

http://www.ecycle.com.br/component/content/article/35/1188-brasil-desperdica-30-de-sua-producao-mas-tem-13-milhoes-de-pessoas-que-passam-fome.html

 

Nomes: criação e destruição

“O Mar da cor vinho-escuro” é a frase usada por Homero,  na Odisseia, há cerca de 2800 anos. Por que ele não usou “mar azul escuro”? Porque a cor azul não existia.

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Esclarecendo a afirmação acima.

Em 1858, um acadêmico chamado William Gladstone notou que esta não era a única referência estranha a cores. Ferro e ovelhas eram violetas, mel era verde.

Gladstone decidiu contar as referências a cores. Preto é mencionado umas 200 vezes, e branco, umas 100. Mas não tinha azul. Ele procurou em outros textos gregos, mas não encontrou. A palavra “azul” não existia.

 

O que acontece é que eles não tinham um nome para a cor azul. E, por isso, tinham que descrever o mar azul, que viam no mar à frente de seus olhos, de outras formas.

 


 

O poder dos nomes

Nomes criam a realidade, à medida em que focam a atenção das pessoas para alguma coisa, padronizam um conceito.

Todas as pessoas têm um nome, todas as empresas têm um nome. Um ovelha sem nome é uma ovelha qualquer dentre tantas outras, a ovelha “Dolly” é única.

Uma ideia qualquer é apenas uma ideia, já a “Teoria da Evolução de Darwin” é A Idea.

Um primeiro erro que podemos cometer é não dar nome a novos produtos, ideias e conceitos que são criados.

 


O Tao dos nomes

Por outro lado, o poder dos nomes é tão grande que tem a capacidade de ofuscar o que não tem nome.

A cor azul descreve não só o azul, mas azul claro, escuro, e uma miríade de cores possíveis. Os gregos eram cegos em relação ao azul, mas será que nós mesmos não somos cegos em relação à alguma nova cor, ou uma nova ideia?

O segundo erro que podemos cometer é olhar só para o que já existe, e deixar de notar que o mundo anônimo é infinitamente maior do que o mundo “nônimo”.

 


Criar e destruir

Primeiro, deve-se criar nomes para descrever novos processos, conceitos, ideias, empresas.

Depois, deve-se destruir esses nomes, para não ficarmos presos a eles.

 


Referências

https://en.wikipedia.org/wiki/Studies_on_Homer_and_the_Homeric_Age

http://www.businessinsider.com/what-is-blue-and-how-do-we-see-color-2015-2

Por que um engenheiro brilhante trabalharia para a Coreia do Norte?

No último semestre do último ano da faculdade militar que fiz, um dos meus possíveis destinos era o Instituto de Aeronáutica e Espaço, na qual eu já tinha estagiado antes. É um instituto fantástico, onde eu teria acesso a quantidade gigantesca de material de pesquisa, juntamente com outras mentes de altíssimo nível. Por isso, eu queria muito ir ao IAE na época.

O detalhe era que o IAE desenvolve foguetes e lançadores. Bombas para explodir cidades e pessoas…

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Míssil Piranha, tecnologia do IAE

 

O final da história foi que o IAE não abriu vagas para o meu curso, então segui um caminho completamente diferente. Mas sempre fiquei com isso na cabeça. E se eu estivesse ajudando a fabricar armas de destruição em massa?

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O IAE é do bem. Faz veículos lançadores de satélite. E tem pessoas bastante íntegras em seu grupo. Mas, nem por isso deixa de pesquisar e desenvolver bombas.

 


 

Testes nucleares na Coreia do Norte

O famigerado estado da Coreia do Norte fez, nos últimos dias, um teste supostamente atômico no mar. É o quinto teste desde 2006, quando eles abandonaram tratativas de diálogo sobre o assunto.

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O problema é que cada teste vem performando melhor do que os anteriores, e está ficando perigoso. Este último teste atingiu um nível de destruição semelhante ao da bomba de Hiroshima, em 1945.

Uma das preocupações da comunidade internacional é a ogiva ser suficientemente pequena para caber num míssil, o que aumentaria consideravelmente o alcance dos norte-coreanos.

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Mas uma bomba não surge do nada, só porque um ditador louco quer. Para ter uma bomba, tem que ter pesquisadores brilhantes por trás disto. Engenheiros com alta capacidade de execução. Físicos que entendem as técnicas de enriquecimento radioativo. Empresas de precisão que produzem peças sofisticadas.

 

Esses físicos, engenheiros, matemáticos e administradores brilhantes têm plena consciência do que é o estado da Coreia do Norte? Se têm, mesmo assim dedicam seus esforços para ajudar?

 


 

Dilemas

Adolph Eichmann foi um dos piores nazistas da história. Era encarregado da “solução final do problema judaico na Alemanha nazista”.

 

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Adolph Eichmann

Entretanto, em seu julgamento em 1961, ele não demonstrava o menor ressentimento pela morte, direta ou indireta, de 5 milhões de judeus.

Em resumo, não me arrependo de nada.

Eu era apenas mais um cavalo puxando a carruagem, e não podia ir para a direita ou para a esquerda por causa da vontade do condutor da carroça.

Nós nos encontraremos novamente. Eu acredito em Deus. Obedeci às leis da guerra e fui fiel à minha bandeira.

A psicóloga Hannah Arendt testemunhou o julgamento. Descreve que Eichmann não parecia um monstro, mas uma pessoa comum, que a gente encontra tomando café na padaria.

Hannah citou “erros de percepção e julgamento” como possíveis causas de alguém aparentemente comum como Eichmann ser capaz de cometer tamanhas atrocidades.

 


 

Além do bem e do mal?

Obviamente, a minha opinião é que não somos cavalos sendo guiados. Temos vontade própria para contestar ordens. Podemos nos esconder em algum canto, fugir para outros países. Num caso extremo, podemos nos recusar a cumprir ordens – seríamos executados por isso, mas não cumpriríamos a mesma.

Mas, infelizmente, nada na vida é tão simples. Há vários graus de julgamento entre o bem e o mal, e talvez a nossa escolha seja o grau em que a nossa moral permite.

Eu trabalharia numa empresa que fabrica cigarros?

Seria advogado de alguém escandalosamente culpado?

Trabalharia numa empresa que recebe dinheiro público, normalmente mal empregado? (Só para constar, muitas das grandes empresas do Brasil recebem verba do BNDES)

Pagaria um guarda de trânsito que está solicitando um incentivo?

Deixaria de andar a 100 km/h quando o limite é 60 km/h e sei que não há radares?

Devolveria o troco recebido a mais por engano?

Deixaria de baixar filme pirateado? Música pirateada? Youtube com conteúdo pirateado? Software pirata?

 


 

Posfácio: Quem sou eu para criticar?

Após vários meses tentando criar a minha vaga no IAE, no final do ano de 2002 finalmente me chega a notícia de que o trabalho foi em vão: eu não iria ao IAE. Fiquei vários meses chateado, lamentando a bola que bateu na trave e foi para fora.

 

Agora, imagine que eu estivesse entrado no IAE, em 2003. E que mantivesse um desempenho fantástico, por 30 anos. E que em 2033, o Brasil tivesse um ditador comunista (algo que ainda pode acontecer, se depender do PT e partidos correlatos). E que este ditador comunista brasileiro, culpando os EUA de todos os males do mundo, resolvesse investir pesadamente num programa nuclear…

Será que eu jogaria fora 30 anos de conhecimento? Jogaria fora uma carreira inteira? Ou abracaria a causa, sendo mais uma engrenagem na grande máquina? Não sei, e graças ao rumo que a vida tomou, nunca terei que tomar tal decisão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fogo x Água

Há pessoas que tentam achar o seu caminho derrubando os que estão na sua frente, como o Fogo.

Há pessoas que tentam achar o seu caminho contornando os obstáculos, como a Água.

 

São estilos diferentes para pessoas diferentes. Os resultados são diametralmente opostos.

O Fogo deixa um rastro de destruição no seu caminho.

A Água deixa um rastro de harmonia em seu caminho.

 

 

Novela sobre japoneses sem japoneses? E daí?

A novela “Sol Nascente”, da rede Globo, tem como tema central descendentes de japoneses no Brasil. O detalhe é que não tem ator principal de ascendência japonesa no elenco…
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A bela Giovanna Antonelli interpreta uma japonesa, pelo que entendi.
Qual a minha opinião sobre este fato, como sansei (descendente de terceira geração de japoneses)?
Minha opinião: E daí? Tanto faz. Dane-se. Não é preconceito, racismo, nada. É uma decisão puramente econômica, baseada na estratégia de líder do setor.
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Esse velhinho ao lado da Giovanna também é japonês, na novela. Talvez o cara segurando a haste também seja.

 


A estratégia da Globo
A Rede Globo é uma empresa privada, que toma decisões baseada em suas décadas de experiência no setor audiovisual. Ela tem os seus paradigmas. Um deles é que Globo arrisca pouco.

A Globo prefere que os atores ou novos formatos de programa despontem em canais menores. Somente se, e quando, der certo é que Globo vai lá e contrata o ator ou o programa. Digamos, Caldeirão do Huck é um caso desses: Luciano Huck fez muito sucesso na Bandeirantes, antes de mudar para a Globo. Outro caso: Angélica, esposa do Huck, ficou muitos anos na extinta TV Manchete antes de ir para a Globo.

Outro paradigma é de que toda novela de ponta da Globo precisa ter astros famosos nos papeis principais. Os astros de ponta alavancam a audiência, mesmo se o enredo for uma porcaria. No caso da novela Sol Nascente, não encontraram astros de ponta nipônicos e não apostaram num desconhecido.
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A Daniele Suzuki não serviu para o papel principal
A Globo é como um gigante forte, porém lento e inflexível: arrisca pouco, tende a agradar a maioria e quer manter o monopólio.
As estratégia de “líder” do setor incluir comprar a transmissão do tênis para não passar na Tv aberta. Ou colocar o futebol às 22h para esperar a novela acabar. Ou ter contratos com atores famosos, mas não usá-los – deixá-los na geladeira.
Durante anos, tais estratégias funcionaram. E agora?

O resultado será puramente econômico
Se a estratégia da Globo é puramente econômica, o resultado também o será.
Quem se sentiu ofendido com os atos acima, simplesmente não assista. Não haverá sentimento em deixar a Globo para assistir outro canal.
O mundo está mudando. Dois dos principais concorrentes da Globo não são a Record e o SBT, mas sim o YouTube e a Netflix.
Uma série na Netflix pode ser algo extremamente bem feito, sobre um tema específico para um nicho específico. Não precisa ser um arrasa-quarteirão para agradar a maioria do público.
Centenas de canais no YouTube não têm a mesma qualidade da Globo, porém exploram a “cauda longa” de milhares de assuntos possiveis, sendo produzidos por pessoas comuns, contando com atores não globais.
O monopólio do Golias gigante Globo está sendo quebrado por milhares de ágeis Davis.

A estratégia da Globo está correta?
Não é a choradeira, discursos de discriminação ou similares que vão dizer se a Globo está correta ou não. Será o Tempo e o Mercado.

 

 

​ Comprar um disco por uma faixa

Há 200 anos, assistir a uma ópera era algo caro, demorado e restrito à nobreza. Imagine ter que sair de casa, colocar roupas pomposas, viajar por várias horas até chegar ao teatro, onde os músicos performavam ao vivo.
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Por isso, o espetáculo tinha que ter uma quantidade razoável de tempo. Durava umas 3, 4 horas. Não fazia sentido uma ópera durar 3 minutos, mesmo que a única música legal dela seja esta de apenas 3 minutos.
O avanço da tecnologia permitiu um enorme barateamento da distribuição de informação. Com o surgimento dos discos LP, e depois CD, qualquer plebeu poderia ter acesso à música.
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Mas mesmo assim, era preciso produzir o disco, e tê-lo fisicamente. Mesmo que a única música legal do disco tivesse 3 minutos, o disco vinha com 40 minutos.
Com a internet, não é mais necessário ter um cd físico. É possível comprar somente a faixa de 3 minutos que era o que o consumidor queria mesmo.
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Em física, há o Princípio da Inércia, formulado por Isaac Newton. Um objeto em repouso tende a continuar em repouso, e um objeto em movimento tende a continuar em movimento. Para sair do repouso para o movimento, deve-se aplicar uma força (proporcional à massa e à aceleração), e para parar o movimento, idem.
A tecnologia diminiu a inércia das transações, no sentido de sair de um estado (não tenho música) para outro estado (tenho música).

Com os livros é exatamente igual. Para justificar o custo de R$ 80,00 de um livro (impressão, transporte, exposição na livraria) este deve ter umas 300 páginas, mesmo que somente 10 páginas sejam o cerne do conteúdo inteiro.
Isto está mudando também. Com blogs que custam muito pouco para produzir, é possível expor somente o conteúdo essencial do trabalho, sem enrolações e encheções de linguiça.

Um filme no cinema deve durar umas 2 horas, para justificar o tempo gasto indo ao cinema, esperando na fila, etc. Mas um filme no youtube pode ter apenas o tempo necessário, porque não é necessário ir a um cinema para assisti-lo.

Na faculdade, uma aula presencial tem que mobilizar alunos e professores. Com o tempo que se perde no início e distrações, a aula tem 50 minutos. Mas uma aula no YouTube pode
conter somente os 20 minutos de conteúdo real.

O expediente padrão de 8 ou mais horas de trabalho também tem uma série de distrações. Ninguém consegue ficar todo o tempo ligado, concentrado. O tempo líquido é muito menor. E grande parte do trabalho poderia ser à distância, e focado no que realmente é efetivo.

Aulas e expediente de trabalhos ainda são muito tradicionais para mudar. Pode-se argumentar que é legal para o ser humano ter estes contatos não produtivos. Mas é legal até um certo ponto. O jeito atual é 100% rígido. A tendência é que muito do que fazemos hoje seja mais flexível e rápido, direto e produtivo, devido à redução da inércia provocada pela tecnologia.