O homem que mereceu um prêmio de 1 milhão de dólares. E recusou.

A Matemática é a mais pura das ciências. “Pura” no sentido de que pode ser completamente abstrata, sem relação alguma com a realidade. Há ramos da matemática tão abstratos que é difícil sequer fazer uma analogia com o mundo real.

O russo Grigori Perelman (1966 – presente) é um homem solteiro, que vive com a mãe num apartamento infestado de baratas. Não tem emprego, fica a maior parte do tempo no pequeno apartamento (das baratas), usa as mesmas roupas, não corta os cabelos nem as unhas. Esta pessoa perturbada é um dos maiores gênios de nosso tempo.

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Perelman resolveu um dos problemas mais difíceis de todos os tempos, a Conjectura de Poincaré. Esta conjectura foi proposta há 100 anos, por um matemático chamado Henry Poincaré. Tem haver com topologia, que é uma espécie de geometria elástica: não se importa com a posição absoluta dos pontos, mas sim em como os pontos se conectam. Eles podem ser torcidos, esticados, encolhidos, mas o que interessa são as propriedades que se mantém invariantes entre os pontos.

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Se você puxar, comprimir, esticar uma caneca, ela se transformará numa rosquinha, é o que dizem os topologistas…

Não sei direito o que diz a Conjectura de Poincaré, mas sei que é difícil. Tão difícil que ninguém tinha conseguido resolver em 100 anos. Tão difícil que virou um dos Problemas do Milênio.

 

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No ano 2000, o Instituto Clay escolheu 7 dos problemas mais impossíveis e importantes da Matemática: os Problemas do Milênio. O Instituto criou um prêmio de 1 milhão de dólares para cada um dos problemas. O objetivo do Instituto foi o de chamar a atenção para estes problemas importantes e estimular a produção de novas técnicas, ideias e soluções.

Pois bem, Grigori Perelman publicou uma série de papers, até resolver este problema do milênio em 2003. Após vários anos tendo a solução dissecada e analisada por todos os ângulos, finalmente a comunidade matemática aceitou que a mesma estava correta. Em 2010, o Instituto Clay declarou que Grigori Perelman  resolvera oficialmente o problema, e o nomeou como o vencedor do prêmio de 1 milhão de dólares.

Só que Perelman recusou o prêmio. Disse “não” a 1 milhão de doletas.

 


 

Fama e Dinheiro

Perelman desde cedo apresentou grande aptidão com a Matemática. Ganhou uma série de prêmios e conseguiu uma posição acadêmica na Rússia. Mas logo abandonou esta posição, talvez por se sentir desajustado neste meio. Perelman é alguém desajustado no mundo real.

Como eu coloquei no primeiro parágrafo, a Matemática é abstração pura. Resolver um problema desses requer uma capacidade de abstração acima da abstração, uma cabeça fora do normal. É algo tão descolado da realidade que não se pode medir alguém como Perelman pelos padrões normais de fama, dinheiro, bens. Perelman tem a sua própria régua de medida. Conseguir o que ele conseguiu já é suficiente, pelo amor ao conhecimento, à Matemática.

A maioria dos acadêmicos briga por publicações, chegando a cometer atos no mínimo imorais, como colocar o nome na publicação de outras pessoas, fatiar publicações em várias partes para parecer que tem mais trabalhos, fazer citações cruzadas (eu cito o trabalho do meu amigo, e ele cita o meu). Isto tudo é cosmético, só encheção de linguiça, “Ciência salame”:  http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,darwin-e-a-pratica-da-salami-science-imp-,1026037. Há uma dependência grande de verbas do governo, o que faz com que política e ciência muitas vezes se misturem. Ciência não é quantidade, é qualidade.

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O que Perelman faz é Ciência de verdade, e muitos dos acadêmicos, principalmente no Brasil, deveriam se inspirar nele.

 

Arnaldo Gunzi

Mai 2016

 

Alguns links de referência:

https://en.wikipedia.org/wiki/Millennium_Prize_Problems

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1259863/Worlds-cleverest-man-turns-1million-prize-solving-mathematics-greatest-puzzles.html

 

http://www.huffingtonpost.com/2010/03/24/grigori-perelman-reclusiv_n_511938.htmlhttp://www.independent.co.uk/news/world/europe/shy-maths-genius-leaves-million-dollar-prize-money-on-the-table-1928032.html

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Grigori_Perelman

 

 

 

 

 

 

Um clique de distância

Recebo um informativo semanal por e-mail, que é mais ou menos assim:
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Acontece que clicar no relatório abre um pdf. Isto pode demorar, dependendo da conexão. E, muitas vezes, quando recebo e-mail estou no celular. Não vou gastar o plano de dados do celular para abrir um pdf que é péssimo para ser visualizado na tela pequena de um celular.
Ou seja, quase nunca vejo o informativo.

Enviei uma pergunta para os editores do informativo.
“Por que vocês não incorporam o conteúdo do relatório no e-mail? É muito mais fácil para abrir e ler. Não precisaria clicar em nada.”
A resposta foi assim: “É que quando o usuário clica no link, conseguimos monitorar quantas pessoas estão lendo o relatório”.
Ou seja, é mais importante para eles contar o número de pessoas do que fornecer um conteúdo direto, transparente. O foco deles está em si mesmos, não está em facilitar a vida e prover um serviço útil ao usuário.
Um clique de distância pode parecer pouco. Mas é bastante coisa. Significa mais uma barreira a ser vencida, mais tempo carregando, mais memória.
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É como chegar num restaurante em que as portas estão fechadas. Temos que apertar a campainha. Por mais que seja simples tocar a campainha,  talvez demore para abrir, talvez as portas não se abram.
Steve Jobs era mestre na arte de se preocupar com o usuário. É por isso que o iPhone tem um único botão: simples, enxuto, fácil.
Antes de Steve Jobs, o Design era fazer algo bonito. Depois de Steve Jobs, o Design é fazer algo funcional, para o usuário, além de simples e bonito.
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Cheguei à conclusão que não vale a pena perder tempo com o tal informativo, que não se preocupa comigo mesmo.
Arnaldo Gunzi.

Pavimentos de Concreto e Estruturas de Dados

Há principalmente dois tipos de pavimentos usados em ruas e pátios de estacionamento: o de concreto e o de asfalto.
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Estrada de concreto
O pavimento de concreto é chamado de “pavimento rígido”, porque este é muito duro, não “dobra”. Quando passa um caminhão em cima do piso, por exemplo, ele distribui igualmente toda a tensão na placa de concreto.
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Pavimento asfáltico
Já o pavimento asfáltico é dito flexível, porque ele se deforma ao suportar o peso de um caminhão.
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Pavimentos rígidos constumam ser muito bons, pela sua resistência. Uma vez feitos, duram muito mais que os pavimentos flexíveis, que em poucos anos têm que ser restaurados.
Note que todos os pátios de aeroportos são de placas de concreto. Se fossem de asfalto, um Boing 747 iria afundar no mesmo.
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Placas de concreto são fantásticas, mas têm um ponto fraco. Elas dilatam com o calor e encolhem com o frio.
Se a placa for muito grande, a dilatação – contração vai causar rachaduras aleatórias na placa de concreto. As rachaduras são péssimas, porque vai entrar água pela rachadura e com o tempo vai quebrar o pavimento.

 

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Para evitar isto, os engenheiros fazem as suas próprias rachaduras: as juntas de dilatação.

O pavimento de concreto é feito de placas, que não podem ser muito grandes. Entre as placas, há um espaço para dilatação. Mas não é um espaço vazio, mas sim um espaço preenchido com um material impermeável, evitando assim que a água estrague o piso.

Estrutura de dados
As grandes companhias de hoje têm uma quantidade monstruosa de informação a respeito de tudo: volumes de compras, níveis de estoque, consumo de materiais, produção de cada produto, percentual de rejeição, custos, etc.
E estas também costumam possuir um ERP para conter tal informação, e um setor de tecnologia para tomar conta disto.
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Esta combinação ERP, estrutura de dados gigante parece muito com o piso de concreto: grande, pesado, duro. Certamente a informação vai ser consistente do início ao fim, certamente será muito forte.
Mas certamente também ocorrerão rachaduras. Justamente por ser grande, pesado e inflexível, o ERP não consegue calcular facilmente novos produtos, novos indicadores, novas ideas, ajustes de processo, inovação.
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Essas rachaduras se traduzem em números paralelos, normalmente em planilhas de Excel. Os profissionais de tecnologia costumam odiar planilhas de Excel, que geram uma infinitude de números, indicadores, controles, fora do sistema principal: dois números diferentes para o mesmo indicador, números sem rastreabilidade, etc. Entretanto, não é possível inovar sem agilidade, sem testes, sem amadurecimento de conceitos.
Para se ter uma grande empresa, é necessário um ERP, da mesma forma que um Boing precisa de um pavimento rígido. Mas por maior que seja a empresa, ela precisa de juntas flexíveis: precisa dar poder ao usuário para ele gerar os próprios indicadores, amadurecer e controlar os próprios processos, inovar em sua forma de gerenciar, tudo isso num famigerado e onipresente Excel.
Arnaldo Gunzi

The girl from Ipanema

O Brasil é um gigante deitado em berço esplêndido que parece nunca acordar.

 

Um reflexo disto é que o volume de trabalhos escritos em inglês e traduzidos para o português é infinitamente maior que os na direção oposta. Dificilmente algo nascido no Brasil conquista o mundo.

 

Uma exceção é a música “Garota de Ipanema”. Esta foi composta por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, e é um ícone de nossa cultura. Foi traduzida para inglês nos anos 60.

 

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A versão em inglês é muito mais pobre que a original.
 
Começa assim:
“Tall and tan and young and lovely the girl from Ipanema…”

 

Algo como “alta, bronzeada e jovem e amável, a garota de Ipanema…”

 

Não chega nem perto de “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa…”.
 


https://www.youtube.com/watch?v=NldPFVKYmiw

Outro trecho “When she walks, she’s like a samba” – “Quando ela anda, é como samba”.

 

Também não tem nem comparação com “o seu balançar é mais que poema, é a coisa mais linda que já vi passar”.
 


A sonoridade da versão em inglês é a mesma, mas não a letra. A letra em inglês é uma tradução. O original em português é um poema, escrito com o coração de Vinícius e a genialidade de Tom.
 
No bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, há uma rua chamada Vinícius de Moraes e um bar, onde ele e Tom Jobim se encontravam. Um dia, fiquei ali, olhando os transeuntes, o sol, o calor e o mar, e imaginado a dupla compondo a canção: “moça do corpo dourado do sol de Ipanema”, “num doce balanço a caminho do mar”, “se ela soubesse que quando ela passa o mundo todinho se enche de graça”.
 
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“The girl from Ipanema” foi cantado por Frank Sinatra e vários outros artistas. Alcançou sucesso mundial graças a esta tradução para o inglês.

 

Entretanto, se “Girl from Ipanema” é mundial, temos o privilégio de ser o único povo que consegue compreender “Garota de Ipanema” em sua essência, no original em português bem brasileiro.
 

Negativo X Negativo = Positivo. Por quê?

No ensino fundamental, me ensinaram que -1 * -1 = +1, negativo vezes negativo dá positivo. Ninguém me explicou o motivo, o máximo que tinha era uma tabela assim:

 

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Digamos que o meu inimigo seja o Corinthians. E o Corinthians pega o Tolima na Libertadores. Então, vou torcer para o Tolima.

 

Mas esta analogia é falha. E se o Corinthians jogar contra o Palmeiras e o Palmeiras também for meu inimigo? Por que não posso dizer que negativo vezes negativo é negativo?

Significado de negativo
Os números ajudam a contar as grandezas existentes no mundo: 1 carneiro, 5 pessoas, João empresta 10 reais a Alfredo.

 

A linha dos números Naturais é assim:
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Com o tempo, as pessoas viram a necessidade de criar números negativos: estou devendo 2 carneiros, faltam 5 pessoas para fechar o pacote, Alfredo deve 10 reais a João.

 

A linha dos números Inteiros é assim:
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Se multiplico o número 2 pelo número 3, ando 3 vezes seguidas um vetor de tamanho 2 na reta dos inteiros.
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Se multiplico o número -2 pelo número 3, ando 3 vezes seguidas um vetor de tamanho 2 na reta dos inteiros, mas na direção oposta.
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Note que a reta positiva é igual à negativa, exceto que espelhada no zero.

Multiplicação de números negativos

 

 Tomando a reta dos inteiros como base, podemos interpretar a multiplicação por -1 como uma reflexão em torno do zero, uma rotação de 180 graus.

 

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É como se chegasse um rei e dissesse: a partir de agora todos os créditos viram débito e todos os débitos viram crédito. Se Alfredo estava devendo R$ 10,00 para o João, agora João é que está devendo  R$ 10,00 para Alfredo.

 

Note a simetria: as coisas se invertem na direção oposta, sem perder a magnitude.

Propriedade distributiva

 

Olha só como fica a conta -3*(2 – 2)

 

Represento 2 e -2 na reta:

 

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A soma deles é zero, porque é como se duas forças iguais puxassem um pacote: não sai do lugar.  Multiplicando zero por -3, tenho zero de resposta.

 

Por outro lado, -3*(2 – 2) = -3*2 + -3*-2, pela propriedade distributiva.

 

-3*2 significa que
Distr2.JPG

 

-3*-2 significa que
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E -6 + 6 = 0. Portanto, fazer a conta das duas formas dá o mesmo resultado.

 

A definição -1 * -1 = +1 permite que a álgebra tenha a propriedade distributiva. E a  álgebra contém simetrias. Ela é consistente com a matemática como um todo, e existe até um ramo da Matemática que estuda isto: a Teoria de Grupos. E foi com esta matemática que a humanidade calculou áreas, resolveu equações, projetou edifício, barragens, máquinas, chegou a Lua e construiu a bomba atômica.

Interlúdio: Números complexos
O mais legal é esta noção de rotação se encaixa no corpo dos números complexos.

 

Multiplicar por i (imaginário) significa rotacionar 90 graus:
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Números complexos combinam com rotações e rotações combinam com funções periódicas.

 

Uma função periódica importante é a eletricidade. A rede elétrica de todas as casas do mundo é em corrente alternada, e números complexos são a ferramenta ideal para descrevê-las.

 

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A Tabajara Álgebra?

 

Num outro universo, -1 * -1 não precisa ser igual a 1. Podemos definir  -1 * -1 = -1. Mas isto não é álgebra normal.

 

Vamos chamar a álgebra que define negativo * negativo = negativo de Tabajara Álgebra. Algumas consequências: esta álgebra não teria simetria em torno do zero nem propriedade distributiva.

 

Por exemplo.
-3*(2 – 2) = -3*2 + -3*-2, propriedade distributiva.

 

-3*2 = -6, pela Tabajara álgebra
-3*-2 = -6, pela Tabajara álgebra (lembre-se que negativo * negativo = negativo)
Portanto,  -3*2 + -3*-2 =-12, ao passo que -3*(2 – 2) =0.

 

Não tem nada de errado na conta, a única coisa esquisita é que a propriedade distributiva não vale mais.

 

Poderíamos tentar descobrir quais os teoremas válidos na Tabajara álgebra e escrever uma tese de doutorado. Seria o Teorema de Pitágoras válido? A fórmula de Bháskara?

 

Provavelmente nenhum teorema útil seria válido na Tabajara álgebra. E, além disso, esta nova álgebra não teria aplicação na vida real, sendo apenas um exercício de imaginação.

Resumo final 

 

-1 * -1 = 1 porque multiplicar por -1 é como rotacionar um vetor em 180 graus.
Isto permite que os inteiros sejam um grupo, e que a álgebra tenha   propriedades de simetria consistentes, como a propriedade distributiva. Toda a matemática existente está fundamentada nisto.

 

Arnaldo Gunzi

Maio 2016

 

Audiolivros, livros e epistemologia

 

Muita gente me pergunta como consigo escrever sobre tantas coisas. O segredo é simples, estudar muito, ler muito, conversar com pessoas qualificadas.

Mas como ler muito, estudar muito se passo a maior parte do tempo trabalhando ou cuidando da família?

Algumas dicas são o uso de audiobooks, livros digitais e ensinar outras pessoas.

 


 

Audiolivros

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Audiolivros são livros lidos e gravados em áudio digital. O Audible (ww.audible.com) tem um catálogo grande sobre diversos assuntos. Ouço quando estou indo trabalhar de transporte público (e por outro lado me forço a andar de transporte público para estudar), andando na rua ou quando estou sem paciência para ler. Os audiobooks são em inglês, e isto é melhor ainda, para treinar o idioma.

 


Livros digitais

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Livros digitais, via Kindle, Kobo reader ou qualquer outro, baixaram o custo de comprar um livro pela metade ou menos do custo do livro em papel. Uso e abuso de livros digitais, carregando comigo uma verdadeira biblioteca nele. Tudo em inglês, é claro. Leio numa fila de espera do consultório médico, no aeroporto, no avião, em casa. É claro que o livro em papel ainda é superior, mas o digital tem evoluído demais.

 


Ensinar

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Mas a mais poderosa dica é a de ensinar. A melhor forma de aprender é ensinando. Porque quem ensina tem que saber o que está fazendo. Vejo diversos erros em argumentos quando estou explicando ideias para outras pessoas. E este espaço é basicamente isto, estou ensinando muitas coisas, mas também estou aprendendo muito. E, quanto mais qualificada é a pessoa com quem dialogo, mais eu ganho.

Numa fórmula, ficaria assim:

Ensinar = Aprender^2

 

Leitura e estudo são a base de conhecimento, sobre a qual acrescento ideias próprias baseadas em vivência e teste das ideias apresentadas, aceitando ou rejeitando ideias e gerando novo conhecimento. Esta é a minha epistemologia.
O mundo é um ciclo. Quanto mais conheço, mais fácil fica conhecer ainda mais. Quanto mais tenho ideias próprias, mais capacidade tenho de gerar novas ideias. Vide post relacionado.

 
Tudo o que escrevi é simples de se explicar, mas muito difícil de fazer. Que tal começar a praticar agora?

 

Mortimer Mouse, e branding

Mortimer Mouse é um ratinho simpático: preto com calções vermelhos, sorriso no rosto, orelhões e nariz de bolinha:

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“Mas este não é o Mickey?”, pergunta o leitor atento.

Sim, este é o Mickey. Mas o nome original do ratinho era Mortimer.


 

Mortimer Mouse

Imagine se, Walt Disney mantivesse o nome Mortimer. É um nome de três sílabas, pronúncia difícil e lembra a palavra “Morte”, em línguas latinas. Com este Branding, Mortimer nunca faria sucesso: não haveria Mickey, Pato Donald, Disneylândia, Dumbo, Nemo, Frozen.

Mickey é de fácil pronúncia, muito mais simples e simpático. Somando a isto a enorme competência em animação e historytelling de Disney, Mickey tornou-se um enorme sucesso. O ratinho tornou-se a marca da companhia.

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Nomes e Marcas

Quando eu era adolescente, eu tinha a opinião de que o Conteúdo tinha todo o valor, e o Nome era apenas um rótulo sem valor.

Entretanto, hoje tenho a opinião de que o Nome vale muito, principalmente se este evoluir para uma Marca.

Mas, por que uma marca vale tanto?
Os economistas têm um conceito, chamado de informação incompleta.

Não temos toda a informação do mundo, entretanto temos que viver e tomar decisões todos os dias, todos os momentos.

Obter conhecimento é um processo demorado e que requer esforço. Não temos tempo para ficar investigando a fundo tudo no mundo, então recorremos a regras simples, chamadas Heurísticas, para tomar decisões rápidas. Imagine um homem das cavernas que encontra algo simétrico, parecido com um gato grande e cheio de listras. Ele não pode ficar analisando o que é aquilo, ele tem que reconhecer um tigre e sair correndo.

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Tigre, Tigre, que flamejas nas florestas noturnas, que mão que olho imortal poderia enquadrar a sua terrível simetria? (William Blake)

 

Um exemplo, que peguei emprestado de Peter Drucker. Quero comprar um carro de ótima qualidade. Para isto, a rigor eu teria que saber a qualidade do motor: força, consumo, manutenção. Teria que saber a qualidade da carroceria: resistência à corrosão, flexibilidade, etc. Teria que conhecer os fornecedores de pneus, dos faróis, vidros, partes elétricas, etc. Teria que conhecer os funcionários e maquinário que fazem a montagem de tudo isto. E muito mais. É muito mais fácil eu saber que a Toyota é uma marca excelente e confiável, e a Toyota se preocupa em gerenciar fornecedores, testar a qualidade, gerenciar funcionários e colocar a sua marca apenas nos carros em que realmente são de uma qualidade ímpar. É muito, muito difícil uma marca conseguir a confiança do consumidor, e muito fácil perder a confiança. Mas, uma vez que se ganha a confiança, temos não um consumidor, mas um fã. Vide a Apple, por exemplo.

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Julgar um livro pela capa

Nós somos preconceituosos na nossa essência, no sentido em que temos pré conceitos e pré julgamentos sobre tudo na vida.

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Julgamos sim um livro pela capa. Julgamos uma pessoa pelas roupas que veste, um carro pela marca, um relógio pelo preço.

Compramos revistas pela foto e pelo título, clicamos em links com palavras que chamam a atenção, e gostamos de Mickey ao invés de Mortimer. Tudo isto por causa da informação incompleta.

Steve Jobs chamava o ato de julgar um livro pela capa de impute. Por isso, os produtos deles eram de uma qualidade visual fantástica, aliados a uma qualidade interior e usabilidade sem par.

Fica a lição: caprichar na forma e também no conteúdo. Transformar um nome numa marca.

 

Arnaldo Gunzi

 

Colaboração de Antenor Luiz de Souza

 

Continuem famintos, continuem tolos

Steve Jobs fez um discurso de formatura em Stanford, em 2005, onde contou três histórias bonitas, fortes e marcantes.

 


Ligar os pontos

Eu não tinha ideia do que queria fazer na minha vida. E lá estava eu gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado. E então decidi largar a faculdade
e acreditar que tudo ficaria bem.

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Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava isto.

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Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.

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Amor e perda.

Tínhamos acabado de lançar nossa maior criação – o Macintosh – e eu tinha 30 anos. E aí fui demitido.

 

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Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses. Eu até mesmo pensei em deixar o Vale do Silício. Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia.

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Ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo.

 

Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama.

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E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar.

 


Morte

Olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.

 

Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.

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A morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento,
o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se
tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso
é a verdade.

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O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro
alguém. Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da
vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros
cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de
seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira
já sabem o que você realmente quer se tornar.

 

Continuem famintos. Continuem tolos. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e são o novo, eu desejo isso para vocês.

 

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Steve Jobs 1955 – 2011

 


Links:

 

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

http://pursuitist.com/iconic-images-of-steve-jobs-by-photographer-norman-seeff

Rare Pics Of Steve Jobs Show His Love Of Yoga

Tofu, ração e picanha

Quando a gente passa pelas estradas do interior do Paraná, há soja por toda parte: à direita da estrada, à esquerda da estrada, por infindáveis quilômetros.

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Segunda a Embrapa, o Brasil produz 95 milhões de toneladas de soja por ano. É o segundo maior produtor do mundo.

Mas, para que serve tanta soja?

O meu almoço normalmente tem arroz, feijão, uma carne ou frango, salada. Não tem soja.

Comida japonesa tem um pouco de soja. Tofu, missoshiro (sopa à base de soja). Mas quem vai comer 95 milhões de toneladas de tofu?

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Tofu

 

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Arroz e Missoshiro

O Brasil produz muito mais soja do que arroz, feijão, trigo, mandioca.

 

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Para onde vai tanta soja?

 


Soja = Proteína

A soja é um alimento rico em proteína e em óleo. Aliado à grande produtividade das nossas  terras do Mato Grosso do Sul e do Paraná, ela se torna a plantação ideal para produção maciça de proteína.

A ideia é alimentar o mundo em larga escala, plantando um grão altamente produtivo em terras bastante férteis, num clima favorável e com grande disponibilidade de água. Note que poucos lugares do mundo têm condições semelhantes de terra, sol, clima e água.

Tudo bem, a soja é uma fonte valiosa de proteína. Mas, proteína por proteína, prefiro comer um churrasco de picanha do que um hambúrguer vegetariano de soja (eca).

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A gente reclama da carne de soja, mas os animais não conseguem reclamar do gosto da soja. E é para eles que a soja é empurrada goela abaixo, quase que literalmente, sob a forma de ração.

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O grão do soja viaja em caminhões pelas estradas do Paraná, até chegar aos moinhos onde ela é armazenada e moída. 20% se transforma em óleo vegetal, o óleo de cozinha que a gente compra no supermercado. Os 80% restantes viram ração animal, especialmente para galinhas, porcos e gado. O milho também tem boa parcela destinada à ração.

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Portanto, há soja sim no meu prato. A minha carne é feita de soja. Aquele churrasco do fim de semana só é possível devido à alta produtividade da soja. E é muita soja.

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.

Há uma perda energética quando a soja é transformada em carne. A galinha precisa crescer e viver, e vai consumir uma parte considerável da energia com que é alimentada. É a mesma coisa com o porco, que gasta muito mais energia. Apenas uma fração de toda a soja consumida pelos animais vira a fabulosa picanha

 

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É por causa desta ineficiência da conversão de soja em carne que é necessário plantar 97 milhões de t de soja e apenas 12 milhões t de arroz e 3 milhões t de feijão.

O gráfico a seguir, de uma fonte ligada à conservação ambiental, demonstra o impacto da produção animal nos terrenos agrários.

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Portanto, dê o devido valor ao que come. O preço do quilo de carne é alto, mas ambientalmente, custou muito mais do que isto para chegar à sua mesa.

 


 

 

Fonte:

Embrapa: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/agropecuaria/lspa/lspa_201603_5.shtm

 

Cows Are the Real Hogs: The IPCC and the Demand Side of Agriculture

Uma ideia sua = 1000 ideias de outros

Ter ideias próprias é muito difícil.

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Normalmente, as pessoas “Originais” criam as ideias, e as pessoas “Refletoras”, que são a grande maioria da população, apenas as repetem.

 


 

Uma pessoa original cria um novo tipo de sorvete, digamos a tal de paleta mexicana. Pouco tempo tempo, começam a surgir em todo lugar concorrentes desta paleta, e pululam na internet receitas do mesmo. É como um vírus, um vírus de ideias, que é criado por alguém e se espraia por todo lugar.

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O teórico de evolução Richard Dawkins chamou este pedacinho de ideia que se reproduz de “meme”, em analogia ao “gene”. O criativo marketeiro Seth Godin chamou o meme de “ideiavírus”, décadas depois.

 


 

Senso comum?

Aliás, o pessoal de marketing e de ideologia é muito bom em criar argumentos fortes que servem para influenciar os outros. O que é senso comum hoje pode ser sido formado pela opinião de meia dúzia de pessoas.

Vide o fenômeno recente que vem ocorrendo no Brasil. Um partido, que não quer deixar o poder, repete à exaustão algumas ideias, como “não vai ter golpe”, “Impeachment é golpe”. Depois, eles perceberam que não colou, porque o impeachment está na constituição. Remendaram a frase: “Impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, para ficar mais difícil alguém contra-argumentar. Esta é uma “Zika IdeiaVírus”.

Definição

Zika IdeiaVírus: Argumentos criados por ideologia e repetidos à exaustão, que podem ou não ter lógica.

 

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O próprio sistema de ensino induz as pessoas a não pensar. Num livro didático, há a sua resposta e a “resposta correta” no final do livro. Então, a sua resposta nunca vai ser a correta, a menos que seja igual ao que está no livro. Com o tempo, o aluno já olha direto para as respostas, sem nem questionar.

Num mestrado acadêmico, primeiro temos que ficar meses estudando a bibliografia de dezenas de pessoas antes de começar a escrever nosso próprio trabalho. Proponho que seja o contrário, primeiro desenvolvemos a ideia, e se der tempo, damos uma olhada nas respostas existentes.

A Internet piorou as coisas. Agora é muito mais fácil procurar as “respostas corretas”, sem pensar. E ficou muito mais fácil para “formadores de opinião” profissionais criarem ZikaIdeiaVíruses.


 

Dicas para forçar a criação de ideias originais:

  1. Não “Ver a resposta”. Primeiro, procurar resolver por si só.
    Ex. Todos os algoritmos dos cubos mágicos aqui deste site foram desenvolvidos por mim. Vide post: Dodecaedro mágico e X-Cube. Certamente não são os mais eficientes do mercado, mas são originais.
  2. Tente criar novas palavras e conceitos, isto é bem divertido. Há algumas novas palavras e conceitos neste texto.
  3. Criar a sua própria arte: poesia, música, desenho, um blog na internet…
  4. Fazer, ao invés de teorizar. Quanto a isto, vide post: 1 Kg ação = 1 ton de teoria

 

Megaminx

Arnaldo Gunzi