O Deus Janos

O final de ano sempre tem as festas familiares e as congratulações entre amigos. Hora de fazer a retrospectiva do ano passado e traça as metas do ano seguinte.

 

Dizem que “Janeiro” deriva de Janos, um deus grego que tem dois rostos: um que olha para frente (o futuro) e outro que olha para trás (o passado). Janos é o deus do começo, portões, transições.
 
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Metas para o ano novo
Quanto às metas para 2016, uma boa dica é que estas devem ser SMART:
Specific – bem definidas, claras
Measurable – possíveis de mensurar
Attainable – possíveis de serem atingidas
Relevant – esses objetivos são mesmo relevantes? Porque?
Time-related – com um cronograma de entregas parciais ao longo do tempo

 

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Análise de Feedback
 
Quanto à retrospectiva, é  interessante traçar o que Peter Drucker chamava de “Feedback Analysis”.

 

Consiste em pegar as metas do ano passado e apurar o que foi atingido ou não, e analisar os motivos. Depois, arquivar essas metas de modo organizado.
 
Pode-se descobrir muita coisa sobre si mesmo, sobre suas forças e fraquezas. Pode-se conhecer desejos que sempre estão na lista mas nunca são alcançados, ou coisas que eram apenas fogo de palha. E em contraste, pontos muito fortes.

 


 
Conclusão 

 

Metas SMART e Feedback Analysis são ferramentas poderosas para planejar o ano que vem e terminar o ano atual. Sempre faça uso destes.

 

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Arnaldo Gunzi
Dez 2015
Mapa do site

Porque há tantas pessoas fiéis à Apple? Ou a confiança na marca.

Um amigo meu comprou há pouco tempo um celular (marca asiática) com especificações aparentemente muito boas: processador forte, câmera boa, última versão do Android, etc. Entretanto, desde o começo dava um monte de probleminhas. Alguns apps não rodavam, às vezes o celular aquecia muito. A câmera parou de funcionar depois de algumas semanas. Ou seja, um celular bom por fora e ruim por dentro, algo como uma Mercedes por fora, mas cheia de peças de Gol 1.0, ocultas lá no meio dos motores, para baratear o custo.

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Usuários não são especialistas em hardware e software. Quem melhor conhece todas as coisas boas e ruins do produto é o próprio fabricante. É o fabricante que pode fazer alianças com os melhores fornecedores e fazer os testes de qualidade. E é aí que entra o poder da marca, que é o poder da confiança.
É por coisas assim que o consumidor (tendo dinheiro suficiente) prefere comprar um produto de uma marca de confiança: ele sabe que está adquirindo uma Mercedes com peças de Mercedes, sem pegadinhas.

Depoimento pessoal
Tive um monte de celulares fajutos e mp3 players descartáveis. A primeira vez que comprei um produto Apple (que eu achava desnecessariamente  caro) foi em 2009, quando estava na Austrália.
Naquela época o iPad 1 tinha acabado de ser lançado. Como a Austrália é um país desenvolvido, a carga tributária era justa. E o Real brasileiro ainda valia alguma coisa. Ou seja, o iPad estava barato, e o comprei.
A minha expectativa era de que fosse apenas mais um dispositivo como qualquer outro. Mas a realidade superou em muito a expectativa. Era o produto mais bonito que já tinha visto na vida, com um monte de funcionalidades espertas. Era algo extremamente bem projetado, perfeito em todos os detalhes.
A partir daí, troquei o mp3 por um iPod, o celular por um iPhone, e assim em diante.

Quebra de confiança
Uma vez que uma marca ganha a confiança da pessoa, é difícil alguma outra marca ocupar esta posição. Principalmente quando é muito caro ficar testando toda hora alternativas diferentes.
Após ganhar a confiança de alguém, o maior perigo não é a concorrência, mas sim a si mesmo. É relativamente fácil quebrar a confiança. Basta o cliente se sentir sacaneado uma única vez.
Por exemplo, ninguém em sã consciência tem fidelidade a operadoras de telecomunicações: Vivo, Telefônica, Claro. Isto porque todo mundo já se sentiu enganado por elas, com algum serviço inútil sendo cobrado todos os meses, com horas perdidas falando com um operador de telemarketing que nada resolvia, com celular bloqueado.

O que posso aprender com isto?
 
Seja como uma marca que inspire confiança. Produtos e serviços de excelente qualidade, tanto por fora mas principalmente no lado de dentro, são extremamente valiosos e muito raros no mundo.
É difícil conseguir a confiança das pessoas, mas é fácil quebrar. Cuidado com isso. Não vale a pena obter ganhos de curto prazo e estragar uma relação de confiança de longo prazo.
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Terceiro: design as Apple. Desde 2009, tento estudar e me inspirar na Apple ao projetar soluções centradas em pessoas, que funcionem efetivamente, que tenham um número mínimo de botões.

“Os botões do novo iMac ficaram tão bonitos que dá vontade de lamber!”
Steve Jobs, após meses gastos projetando os botões da interface do novo computador.

Steve Jobs: “Deixe sua marca no universo”


Arnaldo Gunzi
Dez 2015
Mapa do site

 

Outros links

Sobre o surgimento ipod

Pense diferente

Criar do zero

 

 

 

O Quadro do Inferno – Parte 2

O Quadro do Inferno – Parte 2

 

Uma terceira história é a de um aprendiz que foi chamado ao estúdio. Yoshihide tinha um pedaço de carne crua e alimentava um pássaro desconhecido, que era do tamanho de um gato, e tinha olhos grandes, redondos e coloridos como âmbar. Os olhos também pareciam de um gato.
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Yoshihide era um homem que simplesmente odiava ter alguém espiando suas coisas, e ele nunca deixaria seus aprendizes saberem das coisas que ele tinha no estúdio. Dependendo do assunto que ele estivesse pintando no momento, ele poderia ter um crânio humano sobre a mesa, ou fileiras de vasilhas de prata. Este era certamente uma razão do rumor de que Yoshihide era o beneficiário de uma milagrosa ajuda de um deus da sorte.

 

Então, o humilde aprendiz, assumindo que o pássaro estranho era um modelo que Yoshihide precisava para o quadro do inferno, ajoelhou perante o pintor e perguntou humildemente, “Como posso ajudá-lo, Mestre”?

 

Quase como se não tivesse ouvido o rapaz, Yoshihide lambeu seus lábios e sacudiu seu queixo em direção ao pássaro. “Nada mau, hein? Olhe quão manso ele é”.

 

“Por favor, diga-me, Mestre, o que é isto? Nunca vi nada assim antes”, o garoto disse, olhando fixamente o pássaro parecido com um gato com orelhas.

 

“Nunca viu nada assim? É o que você consegue crescendo na capital! É um pássaro, uma coruja com chifres. Um caçador me trouxe do Monte Kurama. Normalmente não são tão mansos.”

 

Enquanto falava, Yoshihide levantou sua mão e bateu de leve nas costas da coruja que tinha acabado de engolir um pedaço de carne. A coruja soltou um guincho e pulou da mesa, mirando suas garras no rosto do aprendiz. Se o garoto não tivesse se protegido, não tenho dúvidas que ele teria alguns cortes no rosto. Ele gritou e mexeu as mangas numa tentativa de tirar o pássaro, o que apenas deixou o ataque mais furioso. O aprendiz correu selvagemente pela sala, tentando ficar de pé para se defender, se agachando para se livrar da ave. O monstro, é claro, o seguiu, voando para cima quando ele ficava de pé, e voando para baixo quando ele se agachava. Ele ficou tão assustado, disse depois, que parecia que o estúdio era um vale assombrado nas profundezas das montanhas, com cheiro de folhas podres, o spray de uma cachoeira, a fumaça azeda de frutas escondidas por macacos, e a iluminação fraca da lâmpada de óleo do mestre parecia uma luz da lua nas montanhas.

 

Ser atacado pela coruja não foi o que mais o assustou, e sim o jeito com que Yoshihide acompanhou sua comoção, com seu olhar frio, usando o seu tempo para capturar a terrível imagem do garoto delicado sendo atormentado por uma ave horrível. Por um momento, ele achou que o mestre iria matá-lo.

 

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E você realmente não pode dizer que isto estava fora de questão. Parece que o único propósito de Yoshihide chamar o aprendiz era ver a coruja sobre ele e desenhá-lo tentando escapar. Portanto, quando o aprendiz viu seu mestre trabalhando, ele sentiu suas mãos se levantarem para proteger sua cabeça e ouviu um grito incoerente escapar de sua garganta. No mesmo instante Yoshihide gritou e pulou, e houve o barulho de algo caindo. O aprendiz coberto de terror se levantou novamente para ver que a sala tinha ficado completamente escura, e ele ouviu a voz zangada de Yoshihide chamando outros aprendizes.

 

Alguém respondeu, e logo um aprendiz correu com uma lanterna. Ele viu a coruja, batendo uma asa aparentando dor. No outro lado da mesa, Yoshihide estava se levantando e murmurando algo incompreensível. E não é para menos! Aquela cobra preta estava firmemente enrolada na coruja, do pescoço até o rabo. Os dois aprendizes interromperam a cena bizarra e, com um gesto do mestre, eles saíram da sala. O que aconteceu depois com a coruja e a cobra, ninguém sabe.

 

Estes não foram os únicos incidentes. Yoshihide continuou a aterrorizar seus aprendizes continuamente. Chegou num ponto, entretanto, que algo parecia interferir no trabalho do quadro. Uma camada ainda maior de melancolia se estabeleceu sobre ele, e ele falava com seus assistentes em tons cada vez mais duros.

 

O quadro estava talvez oito décimos terminados, mas não mostrava nenhum sinal adicional de progresso. Ninguém sabia o que ele estava achando tão difícil no quadro, e mais ainda, ninguém queria perguntar. Perturbados por aqueles incidentes, seus aprendizes sentiam como se estivessem trancados numa cela com um tigre ou um lobo, e tentavam manter distância de seu mestre.

 

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Por esta razão, tenho pouco a contar sobre este período. A única coisa unusual foi que o velho excêntrico de uma hora para outra se tornou choroso. Um aprendiz me contou que um dia ele andava no jardim e viu o mestre de pé na varanda, olhando vazio para o céu, com olhos cheios de lágrimas. Não é estranho que este homem arrogante, que foi tão longe que rascunhou um defunto na beira da estrada para seus Cinco Níveis de Renascimento, poderia chorar como uma criança apenas porque a pintura do quadro não estava indo tão bem quanto ele queria?

 

De qualquer forma, enquanto Yoshihide estava trabalhando loucamente no quadro, sua filha começou a mostrar sinais incrementais de melancolia, estando sempre em lágrimas. Uma pálida, reservada, triste garota, ela adquiriu um aspecto pesaroso com cílios pesados e sombras ao redor dos olhos. Isto deu origem a vários tipos de especulação – que ela estava preocupada com o pai, ou que ela estava sofrendo as dores do amor – mas logo estavam dizendo que era tudo porque Sua Majestade estava tentando dobrar a sua vontade. Então os rumores pararam, como se todos tivessem se esquecido dela.

 

Um evento ocorreu neste período. Eu estava descendo um corredor quando o macaco Yoshihide veio do nada voando para mim e começou a puxar minha calça. Senti um misterioso calafrio que era apenas três partes, outras sete partes eram raiva de ter minhas calças novas estragadas deste jeito, e considerei chutar o animal e continuar o meu caminho. Mudei de ideia rapidamente, me lembrando do caso do samurai que caiu no desgosto do Jovem Mestre por ter atormentado o macaco. Além disso, pelo modo com que o macaco estava se comportando, havia algo errado.

 

Quando o corredor chegou numa esquina, ouvi sons frenéticos, porém abafados do que parecia uma briga numa sala por perto. Se fosse um intruso, resolvi, eu iria ensinar a ele uma lição, e segurando a minha respiração, cheguei próximo à porta deslizante.

 

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Minha aproximação, entretanto, era obviamente devagar e cautelosa demais para o macaco. Yoshihide correu ao meu redor em círculos, uma, duas, três vezes, então pulou no meu ombro com um grito. Agora não poderia mais hesitar. Abri a porta. Neste momento algo bloqueou minha visão. Era uma mulher. Ela veio em minha direção como se alguém tivesse a arremessado. Ela quase se chocou comigo, mas ao invés ela foi para frente e – por que, não consigo dizer – se abaixou com um joelho na minha frente, tremendo e sem fôlego, e me olhando como se olhasse algo terrível.

 

Tenho certeza de que não preciso contar que era a filha de Yoshihide. Mas ela parecia outra pessoa. Seus olhos eram grandes e brilhantes. Suas bochechas pareciam vermelho flamejante. Suas roupas desarrumadas davam a ela um aspecto erótico que contrastava bastante com sua inocência infantil normal. Poderia mesmo ser a filha de Yoshihide?

 

Olhei para pegadas apressadas retrocedendo a distância e perguntei a ela, Quem era este? Ela mordeu os lábios e balançou a cabeça em silêncio. Dava para vê-la se sentir mortificada.

 

Quanto tempo isto levou, não sei, mas fechei a porta e falei para a garota, “Vá para o seu quarto”. Tomado por um sentimento de que vi algo que não deveria ter visto, e um sentimento de vergonha, começou a pegar de volta o meu rumo no corredor. Mal andei uns 10 passos, porém, senti um puxão – tímido – na minha calça. Olhei para baixo para vero macaco Yoshihide se prostrando a mim, como um ser humano, agradecendo, com seu sino de ouro tocando.

 

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Talvez duas semanas depois, subitamente Yoshihide chegou à mansão solicitando uma audiência pessoal com Sua Majestade. Ele provavelmente ousou fazer isto apesar de sua situação humilde porque ele estava nas graças de Sua Majestade por muito tempo.

 

“Venho em sua honorável presença, Meu Senhor, com relação ao quadro com imagens do inferno que Sua Majestade ordenou que eu pintasse. Apliquei tudo de mim dia e noite, e estes esforços começaram a dar fruto, e está quase finalizado”.

 

“São excelentes notícias.”

 

“Não, Meu Senhor, temo que as notícias sejam tudo menos excelentes”, disse Yoshihide, “O trabalho pode estar largamente finalizado, mas há uma parte que não consigo pintar”.

 

“O que? Não consegue pintar?”

 

“Sim senhor. Como uma regra, consigo pintar apenas o que eu já vi. Mesmo se for bem sucedido em pintar algo desconhecido, não consigo ficar satisfeito com isto.”

 

Enquanto Sua Majestade ouvia as palavras de Yoshihide, sua face gradualmente tomou um sorriso de escárnio. “O que significa que, para pintar um quadro do inferno, você tem que ter visto o inferno”.

 

“Exatamente, meu Lorde. No grande incêndio de alguns anos atrás, vi chamas com os meus próprios olhos que eu poderia usar no Inferno do Calor Lancinante.”

 

“E sobre os pecadores? E os guardiões do inferno? Você nunca os viu, não?” Sua Majestade questionava Yoshihide com uma pergunta atrás da outra.

 

“Vi uma pessoa presa em correntes de ferro, e fiz um rascunho detalhado de alguém sendo atormentado por um pássaro monstruoso. Não posso dizer que nunca vi pecadores sendo torturados. Quanto aos guardiões, meus olhos viram muitas vezes entre o dormir e o despertar. Os com cabeça de touro, os com cabeça de cavalo, os de três faces: quase todas as noites eles vêm me torturar. Não, não são esses que tenho dificuldade em pintar.”

 

Suspeito que isto chocou Sua Majestade. Depois de um longo tempo em que ele apenas olhou Yoshihide, ele perguntou “Tudo bem. O que é que você é incapaz de pintar”?

 

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“No centro da tela, caindo do céu, quero pintar uma carruagem de aristocrata, com sua cabine feita da melhor folha de palma”. Enquanto falava, Yoshihide levantou-se para olhar diretamente para Sua Majestade pela primeira vez – com um olhar penetrante. Eu sabia que Yoshihide poderia ser como um louco enquanto pintando, para mim o olhar naquele momento era assustador.

 

“Na carruagem, uma voluptuosa mulher da nobreza se contorce em agonia, seus longos cabelos pretos sacudindo nas chamas ferozes. Sua face… bem, talvez ela contorça sua testa e lance seu olhar no teto da cabine enquanto desmaia nas nuvens de fumaça. Suas mãos se rasgam no tecido flamejante da carruagem. Cega enquanto ela tenta repelir a chuva de faíscas caindo nela. Ao seu redor uma revoada de aves carnívoras, talvez uma dúzia ou mais, estalando os bicos em antecipação – Oh, Meu Lorde, é isto, esta imagem da nobre na carruagem, que sou incapaz de pintar.”

 

“E portanto…?”

 

Sua Majestade parecia ter um tipo estranho de prazer nisto, já que urgiu Yoshihide a prosseguir, mas Yoshihide mesmo, lábios vermelhos trêmulos como se febris, apenas conseguia repetir, como se num sonho, “É isto que sou incapaz de pintar”.

 

Subitamente, ele exclamou, “Eu imploro, Meu Lorde: faça seus homens prepararem uma carruagem em chamas. Permita-me assistir as chamas devorando a cabine. E, se possível – ”

 

Uma nuvem negra atravessou a face de Sua Majestade, mas tão logo ela passou que ele respondeu. Ele ainda estava rindo quando falou: “Possível? Farei tudo o que você pediu. Não perca o seu tempo se preocupando sobre o que é possível”.

 

As palavras de Sua Majestade me encheram de um terrível pressentimento. E de fato sua aparência naquele momento era tudo menos comum. Espumas brancas se formaram nos cantos da boca. Era como se Sua Majestade tivesse a loucura de Yoshihide. E logo que ele terminou de falar, risos explodiram de sua garganta novamente.

 

“Queimarei uma carruagem para você, e haverá uma mulher voluptuosa nela, vestida com roupas de uma nobre. Ela morrerá se contorcendo em agonia nas chamas e fumaça negra. Tenho que saudá-lo, Yoshihide. Quem poderia pensar em algo assim senão o maior pintor dessa terra?”

 

Yoshihide ficou pálido quando ouviu isto, e por um tempo a única parte dele que moveu eram os seus lábios: parecia tomar fôlego. Então, se moveu novamente.

 

“Mil agradecimentos, Meu Lorde”. Talvez o horror completo de seu próprio plano tenha ficado claro para ele quando Sua Majestade recitou-o.

 

Foi a única vez na minha vida que senti pena de Yoshihide.

 

 

 

16.

Duas ou três noites depois, Sua Majestade chamou Yoshihide como prometido para presenciar a queima da carruagem. Ele realizou o evento não na mansão Horikawa, mas fora da Capital, num lugar conhecido como “Palácio da Neve Derretendo”.

 

Ninguém estava morando neste “palácio” por um longo tempo. Os jardins se tornaram selvagens, e a visão desolada deu vida a rumores, muitos sobre a irmã de Sua Majestade, que teria realmente morrido ali. Pessoas diziam que viam Sua Senhoria deslizando pelo corredor, sem nunca tocar o solo.

 

A queima da carruagem ocorreu em uma noite bastante escura, sem lua. Sua Majestade sentou com os pés cruzados na varanda. Sua posição era acima de meia dúzia de atendentes que o cercavam. Um deles parecia ansioso por estar a serviço de Sua Majestade, um corpulento samurai que tinha se destacado na campanha contra os bárbaros do norte alguns anos atrás. Dizem que ele sobrevivera à fome comendo carne humana.

 

Então havia a carruagem. Mesmo sem um boi, sua alta cabine feita com as melhores folhas de palmeira repartida, exatamente como Yoshihide tinha solicitado: na verdade um transporte digno da Majestade Imperial ou os mais poderosos ministros do estado.

 

Yoshihide estava em algum lugar retirado, ajoelhado em posição oposta à varanda. Ele vestia o usual robe vermelho marrom. Do seu lado estava alguém com vestimenta parecida – provavelmente um aprendiz.

 

 

 

 

17

A meia noite estava se aproximando, acredito. Senti como se a escuridão envolvendo o jardim estivesse silenciosamente nos observando, o único som sendo a brisa noturna. Sua Majestade permaneceu em silêncio por alguns momentos, mas então, gritou:

 

“Yoshihide!”

 

Yoshihide pode ter dito algo, mas para meus ouvidos parecia um rugido.

 

“Nesta noite, Yoshihide, irei queimar uma carruagem para você, como você requisitou”.

 

Sua Majestade olhou para os homens ao seu redor. Vi um sorriso entre eles.

 

“Quero que você olhe isto”, Sua Majestade disse. “Esta é minha carruagem, a que eu uso todos os dias. Você a conhece, certamente. Irei agora colocar fogo para que você veja o Inferno do Calor Lancinante aqui na terra diante de seus olhos. Acorrentada dentro da carruagem há uma mulher pecadora. Quando colocarmos fogo, sua carne será queimada, seus ossos serão carbonizados: ela morrerá agonizante. Nunca mais você terá um modelo tão perfeito para a sua tela. Não falhe em assistir sua carne branca entrar em erupção em chamas. Veja e lembre-se de seu longo cabelo preto dançando no turbilhão de chamas!”

 

Sua Majestade ficou em silêncio novamente, mas agora ele estava rindo alto.

 

“Nunca mais haverá uma visão como esta, Yoshihide! Irei observar também. Homens, abram a janela. Deixem Yoshihide ver a mulher dentro da carruagem!”

 

 

Um dos homens, carregando uma tocha, esticou seu braço livre e abriu a cortina. Na carruagem, sentava uma mulher acorrentada – e oh, quem poderia deixar de reconhecê-la? Seu cabelo preto e longo numa banda voluptuosa e belo robe refletiam belamente a luz da tocha. Aquele perfil pertencia a nenhuma outra pessoa senão a filha de Yoshihide. Não pude deixar de soltar um grito de horror.

 

Então o samurai ajoelhado se levantou e posicionou sua espada ameaçadoramente, olhando para Yoshihide. Assustado com este movimento súbito, virei o meu olhar para Yoshihide. Sua aparência era de alguém que estava ficando louco com este espetáculo.

 

Então, quando Sua Majestade ordenou “Queime”, os auxiliares pegaram as tochas, e a carruagem, com a filha de Yoshihide dentro, queimou no fogo.

 

18.

O fogo engolfou a carruagem toda. O teto púrpura colapsou, então nuvens de fumaça rodopiaram, um branco forte contra a escuridão da noite. Ainda mais horrível era a cor das chamas na abertura da cabine, como se o sol mesmo tivesse caído na terra, espalhando seu fogo em todas as direções.

 

Mas e o pai da garota?

 

Nunca me esquecerei da face de Yoshihide naquele momento. Ele tinha tido um impulso de ir em direção à carruagem, mas parou quando as chamas se espalharam. Então ele ficou parado com os braços esticados, olhos devorando a fumaça e chamas que envelopavam a carruagem. Com a luz do fogo que o banhavam da cabeça aos pés, pude ver todos as características de sua face feia, cheia de rugas. Seus olhos esbugalhados, seus lábios contorcidos, a pele de seus lábios contraídos: tudo descrevia uma pintura vívida do choque, do terror, e da tristeza que corria no coração de Yoshihide. Tal desolação, suspeito, não poderia ser vista nem no rosto de um ladrão condenado prestes a ter a cabeça guilhotinada, ou o mais culpado pecador pronto a enfrentar o julgamento dos Dez Reis do Inferno. Até o poderoso samurai ficou pálido com a visão e lançou um olhar medonho a Sua Majestade sobre ele.

 

Mas e quanto à Sua Majestade? Mordeu seus lábios e sorrindo estranhamento de vez em quando, ele olhava diretamente à frente, nunca tirando os olhos da carruagem. E a garota na carruagem – ah, não acho que tenho coragem de descrever em detalhes o que ela parecia. O branco pálido de sua face em transformação enquanto ela se asfixiava na fumaça, o comprimento embaraçado de seu cabelo enquanto ela tentava tirar as chamas nele, a beleza de seu robe de cerejeiras floridas que queimavam nas chamas: era tudo tão cruel, tão terrível!

 

 

 

 

 

 

 

Outro grito se sucedeu, depois mais um, até que todos nós estávamos gritando também.

 

E, embora tenha sido deixado preso na mansão Horikawa, o que vimos subindo nas costas da garota contra as chamas flamejantes era o macaco Yoshihide.

 

19

Pudemos ver o macaco por alguns momentos apenas. Uma fonte de faíscas caiu do céu como poeira dourada em um fundo preto, e então não apenas o macaco, mas a garota também, foram engolfados numa fumaça negra.

 

Agora no meio do jardim havia apenas uma carruagem queimando em chamas com um rugido terrível.

 

 

Mas oh, quão estranho era ver o pintor agora, de pé absolutamente rígido ante a coluna de chamas. Yoshihide – que apenas alguns momentos antes parecia estar sofrendo os tormentos do Inferno – permaneceu ali com seus braços travados no peito como se tivesse esquecido até da presença de Sua Majestade. Poderia jurar que seus olhos não mais viam a moça em chamas, mas as belas cores de chamas estavam dando a ele alegria imensurável.

 

A coisa mais extraordinária naquela noite não era que ele assistia à morte de sua filha com aparente alegria, mas que Yoshihide possuía uma aura de autoridade ao seu redor que parecia a fúria do Rei das Bestas.

 

Tremendo por dentro, respirando pouco e cheios de um sentido bizarro de adoração, mantivemos os olhos em Yoshihide como se estivéssemos presentes no momento decisivo em que um pedaço de madeira ou pedra se tornasse a imagem sagrada de Buda.

 

Mas entre nós apenas um, Sua Majestade, parecia como se transformado em outra pessoa, sua nobre expressão drenada de cores, o canto de sua boca cheio de espuma, mãos nos joelhos como uma besta precisando de água…

 

20

A notícia de que Sua Majestade queimou a carruagem no palácio das Neves Derretidas logo se espalhou, e havia muitas pessoas altamente críticas ao evento.

 

A primeira questão era por que a filha de Yoshihide? O rumor mais frequente era de que foi por causa da rejeição de seu amor. Estou certo de que ele não fez isso para punir a personalidade perturbada de um artista que chegaria tão longe a ponto de queimar uma carruagem e matar uma pessoa a fim de completar um quadro.

 

E havia Yoshihide, cujo coração de pedra foi aparentemente alvo de muitos comentários negativos. Como, após ver a própria filha queimada viva, ele poderia querer finalizar o quadro? Alguns o amaldiçoaram como uma besta em forma humana que teria esquecido o amor paternal por conta de uma pintura. Um dos que tinham esta opinião era o Abade de Yokawa, que sempre dizia, “Ele pode ser excelente em sua arte, mas se não souber as cinco virtudes, só poderá acabar no Inferno.

 

Um mês passou, e o quadro com as imagens do Inferno foi enfim finalizado. Yoshihide trouxe o quadro para a mansão no mesmo dia e humildemente apresentou-o para inspeção de Sua Majestade. Sua Reverência Abade de Yokawa estava visitando na hora, e estou certo de que ele estava chocado com a visão das labaredas de chama queimando no quadro. Até ver o quadro, ele estava criticando Yoshihide, mas então ele exclamou “Que trabalho magnífico!” Ainda posso ver o sorriso amargo no rosto de Sua Majestade quando ouviu estas palavras.

 

 

Quase ninguém falou mal de Yoshihide depois disso – pelo menos não na mansão. Poderia ser que todos aqueles que viram o quadro foram tomados por sentimentos estranhos enquanto testemunharam as torturas do Inferno do Calor Lancinante?

 

Nisto, entretanto, Yoshihide era mais um dos que não estavam mais neste mundo. Na noite após finalizar o quadro, ele amarrou uma corda numa viga em seu quarto, e se enforcou. Suspeito que, tendo enviado a filha para o outro mundo, ele não poderia viver como se nada tivesse acontecido. Seu corpo jaz enterrado nas ruínas de sua casa.

 

 

Akutagawa Ryunosuke, 1918

 
Veja também:
 

A Teia de Aranha

 

 

 

 Links desta publicação
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/16/pesadelo-em-um-conto
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/16/o-quadro-do-inferno-parte-1
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/27/o-quadro-do-inferno-parte-2
 

 

 

 

 

O Quadro do Inferno – Parte 1

Tradução livre da versão em inglês, da Penguim Modern Classics.

1.
Estou certo de que nunca houve alguém como o nosso grande Lorde Horikawa, e duvido que haverá um dia. Sua Majestade parece ter qualidades inatas que o distinguem de seres humanos comuns. E, por causa disto, seus feitos não páram de nos surpreender.

Em face de tal majestade esplendorosa, não é surpresa que todos os residentes da Capital Horikawa reverenciem Sua Majestade como reencarnação de Buda. Sua Majestade estava retornando de um banquete de florescer de cerejeiras no palácio quando o boi puxando sua carruagem se soltou e machucou um homem velho que estava passando. O velhinho se ajoelhou e juntou as palmas das mãos e agradeceu por ter sido pego pelos chifres do boi de Sua Majestade!

Há muitas histórias. Uma vez, quando a construção da Ponte Nagara parecia estar indo contra a vontade de um deus local, Sua Majestade ofereceu um garoto ajudante favorito como um sacrifício humano no pé do pilar. Oh, não há fim para estes contos! Mas em termos de puro horror, nenhum deles se compara com a história do quadro mostrando cenas do Inferno, que é agora uma relíquia de família valiosa.

Até Sua Majestade, normalmente tão imperturbável, ficou aterrorizado com o que aconteceu. Eu mesmo servi como um dos servos de Sua Majestade por vinte anos completos, mas o que testemunhei foi mais terrível que tudo que tinha experimentado.

Para contar a história do Quadro do Inferno, devo contar sobre o pintor que o criou. Seu nome era Yoshihide.
2.
Yoshihide era famoso como o maior pintor da nossa terra, mas tinha chegado à idade de talvez cinquenta, e ele parecia um pequeno velho desagradável, pele e osso. Ele se vestia suficientemente normal quando aparecia na mansão de Sua Majestade – em marrom avermelhado, robe de ceda com mangas largas, e um chapéu preto alto com uma dobra sutil à direita – mas como pessoa ele era tudo menos normal. Dava para ver que ele tinha um vestígio de avareza, e seus lábios, anormalmente vermelhos, davam uma impressão perturbadora, bestial. Alguns diziam que a vermelhidão vinha de misturar sua tinta com os lábios, mas não se sabe. Línguas más falavam que ele parecia e se movimentava como um macaco, e chegaram a dar a Yoshihide o apelido de “Macacohide”.

Ah, este apelido me lembra de um episódio. Yoshihide tinha uma filha, sua única criança – uma garota doce, amável bem diferente do pai. Ela tinha ido à mansão Horikawa como uma serva júnior da própria filha de Sua Majestade, a Jovem Senhorita. Talvez por ter perdido sua mãe muito cedo, ela tinha uma natureza unusualmente madura e profundamente compreensiva além de sua idade, e todos de Sua Senhoria abaixo gostavam da garota por sua rapidez em notar a necessidade dos outros.

Nesse meio tempo, alguém da província de Tamba presenteou Sua Majestade com um macaco domesticado, e o Jovem Mestre,que estava no auge de sua perversidade infantil, decidiu chamá-lo “Yoshihide”. O macaco era por si mesmo uma criatura cômica,mas associar com este nome fazia todos na casa rirem alto. Oh, se eles apenas ficassem satisfeitos por rirem! Mas o que o macaco fizesse, as pessoas encontravam uma razão para atormentá-lo, e sempre com um grito de “Yoshihide”!

Um dia, a filha de Yoshihide estava andando por um longo corredor, e o macaco Yoshihide entrou pela porta deslizante, em fuga de algo. O animal estava mancando e não conseguia subir no poste como sempre fazia quando assustado. Então quem apareceu procurando-o era o Jovem Mestre, com um chicote e gritando: “Volte aqui, seu ladrão de tangerina!”

O macaco se agarrou às saias da filha de Yoshihide com um choro de dar dó. Isto deve ter aumentado a sua compaixão, porque ela escondeu o macaco na manga macia de ser vestido. Então, fazendo uma pequena reverência ao Jovem Mestre, ela disse com claridade firme, “Desculpe-me por interferir, meu jovem lorde, mas ele é apenas um animal. Por favor o perdoe”.

Com temperamento ainda da caçada, o Jovem Mestre franziu e bateu o pé várias vezes. “Por que você está protegendo-o?” “Ele roubou minha tangerina!”

“Ele é apenas um animal” ela repetiu. “Ele não sabe”. E, sorrindo tristemente, ela adicionou, “O nome dele é Yoshihide. Não posso ficar parada e apenas assistir ‘meu pai’ ser punido”. E isto foi aparentemente suficiente para dobrar a vontade do Jovem Mestre.

“Então tudo bem”, ele falou com relutância óbvia. “Se você está suplicando pela vida do seu pai, deixarei ele ir desta vez”.

3.
Depois deste incidente, a filha de Yoshihide e o macaco se aproximaram. A garota tinha um sino de ouro que a Jovem Senhorita tinha dado, e ela colocou no pescoço do macaco. E ele, quase nunca deixa de ficar ao lado dela. Uma vez, quando ela estava acamada com um resfriado, o macaco ficava horas no travesseiro, mordendo suas unhas, e juro que com uma expressão preocupada.

Estranhamente, as pessoas pararam de atazanar o macaco. Um pouco depois disto, a Sua Majestade pessoalmente ordenou que a garota aparecesse a ele com o macaco nos braços – tudo porque ele tinha ouvido falar do acesso de fúria de seu filho e de como a garota veio a tomar conta do macaco.

“Admiro o seu comportamento filial”, disse o Senhor. “Aqui, pegue isto”. E ele a presenteou com um fino robe escarlate. Dizem que Sua Majestade ficou especialmente satisfeita quando o macaco, imitando a expressão de gratidão da garota, se curvou diante dele. A parcialidade de Sua Majestade pela garota se dá inteiramente pela sua devoção filial ao pai, e não, como diziam os rumores, pela atração física que ele poderia sentir por ela. Por ora, é suficiente dizer que Sua Majestade não é o tipo de pessoa que gasta sua atenção pela filha de um mero pintor, por mais bela que seja.

Chega da moça por ora. Vou continuar a história do seu pai, Yoshihide. Como eu disse, o macaco Yoshihide rapidamente se tornou querido de todos, mas o Yoshihide mesmo permaneceu objeto de escórnio universal, chamado pelas costas de “Macacohide” por todos. E não apenas na mansão Horikawa. Até um eminente budista como o monge de Yokara odiava Yoshihide, tanto que a mera mênção do seu nome era suficiente para fazê-lo ficar púrpura como se tivesse visto um demônio. (Alguns dizer que foi porque Yoshihide desenhara uma caricatura ridicularizando certos aspectos do comportamento do monge, mas isto era um mero rumor que circulava entre as classes baixas).

4.
Yoshihide era terrivelmente avarento, ele era rude no trato com pessoas, não tinha vergonha, era preguiçoso e ambicioso. Pior de tudo, ele era insolente e arrogante. Ele nunca deixava você esquecer que ele era o “maior pintor da região”. Um homem que foi seu aprendiz por muitos anos uma vez me contou esta história: Yoshihide estava presente na mansão de um certo cavalheiro quando surgiu uma mulher com espírito possuído. A mulher entregou uma mensagem horrível do espírito, mas Yoshihide não estava impressionado. Ele pegou um pincel e fez um rascunho detalhado da expressão selvagem dela como se ele visse a possessão como um mero truque.

Não impressiona que um homem como este cometesse sacrilégios no seu trabalho. Até os aprendizes estavam chocados. Conheço vários que, temendo por sua punição após a morte, imediatamente deixaram o trabalho.

Seu traço e cores eram muito diferentes dos demais. Tome como exemplo seu “Cinco níveis de renascimento no portão do templo Ryuogaiji”. “Quando eu passei pelo portão à noite”, uma pessoa disse, “Pude ouvir os celestiais mortos suspirando e chorando” “Isto não é nada”, clamou outro, “Eu pude sentir o cheiro da carne dos mortos apodrecendo”. “E sobre o retrato das serviçais que Sua Majestade pediu para Yoshihide pintar? Toda mulher que ele pintou caiu doente e morreu em três anos. Foi como se as suas almas tivessem sido sugadas pelo quadro”. De acordo com os críticos mais ferozes, esta era a prova final que Yoshihide praticava a Arte do Demônio.
Mas mesmo o Yoshihide, em toda a sua incrível perversidade, mostrava afeto humano quando se tratava de uma coisa.

5.
Yoshihide era verdadeiramente maluco pela sua filha única, a jovem serviçal do castelo. A garota era, como já dito antes, uma criatura bondosa muito devotada ao pai, e seu amor por ela não era menor que dela por ele. Ele provia a ela todas as necessidades sem objeção. Isto não é incrível para alguém que nunca fez uma única contribuição ao templo?

Quando Sua Majestade honrou ela com a posição de serviçal júnior em sua casa, Yoshihide estava longe de ficar feliz com isto, e por um tempo ele estava sempre com uma expressão ácida quando na presença de Sua Majestade. Não tenho dúvidas que as pessoas que testemunharam isto foram as mesmas que começaram a especular que Sua Majestade estava atraída pela beleza da garota.

Lembro da vez que Sua Majestade ordenou Yoshihide a fazer uma pintura de Monju (um buda) quando criança, e Yoshihide deixou-o muito feliz com um trabalho maravilhoso que usou um dos garotos favoritos de Sua Majestade como um modelo. “Você pode ter tudo o que quiser como recompensa”, disse Sua Majestade. “Qualquer coisa”. Você imagina o que ele pediu? “Se isto agrada a Sua Majestade, eu imploro que retorne a minha filha à posição antiga” Que impudência deste homem! Esta não era uma casa comum.
“Isto não acontecerá”, respondeu Sua Majestade.

Este não foi o primeiro nem o último incidente. Acho que foram quatro ou cinco. A cada incidente, Sua Majestade olhava Yoshihide com crescente frieza. A garota, por outro lado, parecia temer pelo bem-estar do pai. Frequentemente ela podia ser vista chorando encolhida em seu quarto, com os dentes apertados em sua manga. Tudo isto reforçava o rumor que Sua Majestade estava enamorado pela garota. Também diziam que o comando para pintar o quadro tinha algo com a rejeição dela aos avanços de Sua Majestade, mas isto, certamente, não pode ser possível.

De qualquer forma, este era um período em que Yoshihide estava em grande desfavor com Sua Majestade. Subitamente um dia, por qualquer razão, Sua Majestade ordenou que ele pintasse cenas dos oito infernos budistas.

6

Oh, aquele quadro! Quase posso ver as terríveis imagens do inferno na minha frente agora!

Outros artistas pintaram o que eles chamaram de imagens do inferno, mas nenhum de seus trabalhos era como o de Yoshihide. Ele colocou os 10 Reis do Inferno num canto e todo o resto – o quadro todo – estava envolvido em uma tempestade de fogo tão terrível que pareciam derreter a Montanha de Sabres e a Floresta de Espadas.
Os pecadores se contorcendo no fogo do inferno da pena poderosa de Yoshihide não tinham nada em comum com pinturas normais do Inferno. Yoshihide incluiu pecadores desde o mais brilhante círculo de Sua Majestade até o mais pobre mendigo. Um cortesão em vestimentas cerimoniais magníficas, uma dama jovem em robes, um monge entoando o nome sagrado de Amida: eles eram seres humanos de todo tipo, tormentados pelos demônios do Inferno, e em todas as direções como folhas de outono espalhadas. E todos eram os tormentos: um chicote de aço, uma rocha gigante, um pássaro monstruoso, uma serpente venenosa…
Mas certamente a imagem mais horrível de todas era de uma carruagem andando no espaço. Os ventos do Inferno levavam a carruagem, e havia uma moça tão linda nela que só poderia ser uma das consortes favoritas da corte. A alvura pura de seu pescoço nu enquanto agonizava nas chamas. Todos os detalhes da moça e da carruagem enchem o espectador de sentidos aterrorizantes dos tormentos do Inferno. Todo o horror do quadro estava concentrado nesta única cena. Todos os que viam o quadro podiam ouvir em suas mentes os gritos mortais da moça retratada.

Deixe-me contar como Yoshihide fez para pintar o Quadro do Inferno.

7
Por quase seis meses após receber a ordem, Yoshihide colocou todas as suas forças na tela, sem ser chamado uma única vez à residência. De acordo com o aprendiz mencionado anteriormente, Yoshihide sempre abordava o seu trabalho como se estivesse possuído por um espírito de raposa. Algumas pessoas diziam que Yoshihide só era capaz de fazer o seu nome em arte devido a ter dado a sua alma a algum deus da fortuna, e a prova era que sempre que ele estava pintando, era possível ver espíritos sombrios de raposa ao seu redor. Ele poderia passar dias e noites trancado em seu estúdio, e sua concentração parecia especialmente intensa para este trabalho.

Um dia, um de seus aprendizes estava ocupado dissolvendo pigmentos quando Yoshihide disse subitamente, “quero tirar uma soneca mas recentemente tenho tido sonhos ruins. Quero que você continue trabalhando ao meu lado enquanto durmo”. Yoshihide deitou e entrou no sono profundo de um homem bastante exausto. Nenhum tempo se passou quando o aprendiz começou a ouvir um som que ele não poderia descrever. Era uma voz, estranha e misteriosa.

8
A voz começou a murmurar, “O q-u-e-e-e? Você quer que eu vá junto contigo?… Onde? Onde você vai me levar? Para o inferno, você diz. Para o inferno do calor lancinante. Quem… quem é você, maldito? Quem pode ser você a não ser…”

O aprendiz, dissolvendo pigmento, sentiu suas mãos pararem. Ele olhou com medo para o rosto do seu mestre. Não apenas a pele ficou branca, mas gotas grandes de suor escorriam, e a boca seca ficou bem aberta como se preparasse para respirar. Ele viu algo se movendo, e era a língua de Yoshihide. A voz vinha de sua boca.

“Quem pode ser você – você, maldito! O que é isto? Você veio para me mostrar o caminho? Você quer que eu te siga. Para o Inferno! Minha filha está me esperando no inferno!”

O aprendiz desesperado, tentou acordar Yoshihide, e até jogou água em seu rosto, mas ele continuou, “Estou esperando por você. Depressa, pegue a carruagem. Venho junto ao inferno!”
Yoshihide acordou, e um tempo depois voltou a si. Sem uma palavra de gratidão, ordenou ao aprendiz, “Estou bem agora. Saia daqui”.

Isto não foi o pior de Yoshihide. Um mês depois ele chamou outro aprendiz. Yoshihide disse, “Desculpe, preciso que você fique pelado. Quero ver uma pessoa acorrentada. Lamento por isto, mas vai demorar só um pouco”.
O aprendiz me contou depois, “Achei que o mestre tinha ficado louco e que iria me matar”. Yoshihide arrastou um cadeado estreito de ferro e colocou nas costas do aprendiz, puxando os braços para trás e colocando-os na corrente. Depois deu um empurrão e jogou o jovem ao chão.

9
O aprendiz ficou jogado no chão como um barril de saquê caído. Estava com braços e pernas contorcidos. A corrente estava bloqueando a circulação sanguínea e em todo lugar – face, torso – ele ficou com a pele inchada e vermelha. Yoshihide não estava nem um pouco preocupado com o rapaz, ele apenas circulava observando de todos os ângulos e esboçando. Se nada tivesse interrompido, esta provação teria se estendido por mais tempo, mas felizmente (ou infelizmente) uma cobra começou a se mover no canto do quarto. Ela se rastejou na escuridão até quase chegar ao nariz do aprendiz, que gritou “Cobra, uma cobra!”. Até Yoshihide, em toda a sua perversidade, deve ter sentido o horror desta ocorrência. Ele pegou a cobra pelo rabo, e gritou “Você me custou uma boa pincelada, maldito seja”. Então, colocou a cobra numa jarra. Daí, com uma óbvia relutância, libertou o aprendiz das correntes sem dizer uma palavra de simpatia. Ouvi dizer que ele tinha guardado a cobra para rascunhá-la também.

Uma terceira história é a de um aprendiz que foi chamado ao estúdio. Yoshihide tinha um pedaço de carne crua e alimentava um pássaro desconhecido, que era do tamanho de um gato,e tinha olhos grandes, redondos e coloridos como âmbar. Os olhos também pareciam de um gato.
Continua…

 

Links desta publicação
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/16/pesadelo-em-um-conto
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/16/o-quadro-do-inferno-parte-1
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/27/o-quadro-do-inferno-parte-2
 

Pesadelo em um Conto

Este blog busca trazer para o seu público-alvo um conhecimento diferente, não convencional e interessante, um Forgotten Lore (conhecimento esquecido). Este post é sobre o conto “Hell Screen” de Akutagawa Ryunosuke, um dos mais talentosos escritores japoneses de todos os tempos.
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Akutagawa nasceu em Tóquio em 1892 e faleceu em 1927. Escreveu cerca de 150 contos. Ele é mais famoso no ocidente por uma adaptação para o cinema da obra “Rashomon”, por Akira Kurosawa. Já publiquei um trabalho dele aqui.
A história a seguir é uma tradução livre e resumida do conto “Hell Screen”. É sobre um pintor, que cria quadros tão aterrorizantes que parecem reais. Este pintor é convidado a pintar um Quadro do Inferno, e ele dá tudo de si para criar o quadro perfeito.
Confesso que já tive pesadelos por causa deste texto perturbador.
Talvez este conto seja um auto-retrato do próprio Akutagawa, escritor capaz de pintar um Quadro do Inferno com palavras.
Será em duas partes, nos dois posts a seguir.

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/16/o-quadro-do-inferno-parte-1
https://ideiasesquecidas.com/2015/12/27/o-quadro-do-inferno-parte-2

Uma única lição sobre administração

Se este Blog pudesse transmitir uma única lição aos seus leitores, esta lição seria sobre a importância de ser Eficaz.

 

Eficácia e Eficiência são duas palavras muito parecidas, mas com conceitos bastante diferentes. Saber a diferença entre elas pode resultar no sucesso ou no fracasso de um projeto, no trabalho útil ou em seguir ordens que não levam a nada.
 


Qual a diferença entre eficácia e eficiência?

 

– Eficácia é saber qual é o trabalho a ser realizado.
– Eficiência é fazer bem algum trabalho.

 

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Embora a eficiência seja importante, a eficácia é dezenas de vezes mais importante.
 


Eficácia
Eficácia é parar para pensar e tentar responder a duas perguntas. O que deve ser feito? O que é o correto?

 

Ser Eficaz é fazer um trabalho que realmente agregue valor ao cliente. Não é o número de horas trabalhadas que importa, mas sim o resultado útil que saiu deste trabalho.
 


Exemplos

 

Eficiência é padronizar trabalho, de modo que o conhecimento fique explícito ao processo, e todos o possam executar da mesma maneira. Eficácia é analisar se o trabalho realizado realmente é o que interessa à pessoa que vai receber o resultado.

 

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Eficiência é vender exatamente o que o cliente pediu, nos prazos e na qualidade desejada. Eficácia é entregar o que realmente vai resolver o problema dele, mesmo que ele tenha pedido algo diferente, ou que seja mais barato do que ele tenha pedido. Não é porque o cliente pediu algo que o administrador deve dar isto, até porque o cliente pode não ter tanto conhecimento. Além de ser um vendedor, também ser um consultor. Hoje em dia isto tem até um nome, o Vendedor Consultivo.

 

O digitador mais rápido do mundo é muito eficiente, porque entrega um ótimo trabalho em menos tempo e com menos erros do que os outros. Mas isto não quer dizer que ele seja eficaz, se o que estiver digitando não servir para nada.

 

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Note que o melhor digitador do mundo pode ser substituído por uma máquina, um scanner, ou um macaco treinado. O vendedor pode ser substituído por um catálogo e tecnologia de venda on-line. E o processo automatizado pode ser feito por uma rotina computacional, ou pode ser terceirizado para ser feito por um indiano que recebe um terço do salário.

 

Mas o escritor que dita o trabalho, o Vendedor que também presta consultoria e o administrador que cria os processos não podem ser substituídos por máquina alguma, porque são eles é que programam as máquinas. Máquinas não tem criatividade.
 


Uma última analogia, com o esporte de tiro ao alvo. Eficácia é ter um tiro com uma média próxima ao alvo, independente do desvio padrão. Eficiência é ter um desvio padrão baixo, independente do tiro estar acertando ou não ao alvo.

 

MediaDesvio

 

Primeiro deve-se ter a eficácia de conhecer  o alvo a ser atingido e descobrir o caminho para chegar até lá. Depois, vem a padronização, a melhoria, o ganho de eficiência.
 


TI Bimodal

 

 

Em termos da ideia de TI bimodal, primeiro é o modo rápido, da prototipagem e da adequação de processos – o modo eficaz. Depois, é o modo pesado, dos padrões fixos, estruturados, robustos – o modo eficiente.
 


 
São conceitos simples, mas é impressionante a quantidade de projetos furados e trabalhos que não agregam valor, focando a eficiência de projetos não eficazes.

 

Antes de fazer algum trabalho porque alguém mandou, que tal perguntar: qual o problema a ser resolvido? O que estou fazendo vai ajudar? O que mais deve ser feito? Este processo realmente precisa existir?

 

Eficácia é fazer a coisa certa, e eficiência é fazer certo alguma coisa, segundo o Mestre Peter Drucker.

 
Arnaldo Gunzi
Set 2015
 
Mapa do site


Lição de casa, também inspirada em Drucker: o que você vai fazer de diferente na segunda-feira, após ler este post?
 


Leitura recomendada:

Livro: O Gestor Eficaz

Livro: Introdução à Administração

Strawbees, canudos de construir

O terceiro representante da série de “Prototipagem rápida”, que conta com o Zometool e o Little Bits, é o Strawbees.

É uma ideia genial, fantástica.

São conectores de plástico, em vários ângulos.
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Esses conectores encaixam certinho em canudinhos de refrigerante, ficando bem fixos. Não precisa de cola nem nada.

 

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O legal é que é muito mais simples de se mexer do que o Zometool.

Infelizmente, não tem no Brasil…

http://www.strawbees.com/shop/

Alguns trabalhos com o Strawbees:

 

Strawbee3.jpg

 

strawbee4.jpg

 


 

O Strawbees também me foi apresentado no curso da Escola de Design Thinking. A prototipagem rápida é um dos pilares do Design Thinking. Um protótipo é algo que passe para as pessoas uma primeira sensação do que é o projeto ou o produto. A pessoa tem que tocar, sentir alguma coisa.

A ideia de um protótipo rápido e barato é de não perder muito tempo elaborando alguma coisa sem obter o feedback dos clientes. Diminui o risco e custos de desenvolver algo que não vai funcionar, ou não vai ser aderente ao processo real.

Antigamente, a prática de projetos era de ficar um tempão especificando a solução, o que gerava um documento de centenas de páginas*. Meio ano de trabalho depois, saía o produto, que normalmente não era o que o usuário desejava. Após vários anos assim, surgiram as chamadas metodologias ágeis de projeto,que têm a linha de criar trabalhos junto ao cliente final, e ir validando os protótipos e ideias parciais.

*Uma história curiosa: uma vez, li uma dessas especificações. Tinha umas 100 páginas, sem nenhuma figura, gráfico, nada. Tudo texto, pesado, incompreensível. Perguntei para o autor se não era melhor ilustrar as ideias de alguma forma. Ele respondeu que o documento só textual era a prática da área dele, para evitar ambiguidades. Não preciso dizer que o resultado não teve ambiguidade nenhuma: demorou, atendeu mal à demanda, desgastou um monte de gente, etc.

Como sempre dizia Steve Jobs, as pessoas não sabem o que querem. Só descobrem o que querem depois que o produto ou serviço já estiver pronto.

 

Arnaldo Gunzi

Dez 2015

 

Mais Design Thinking:

Embrace

Ressonância magnética pirata

Mapa do site

O melhor trabalho 

Compartilhando um pouco da sabedoria de Peter F. Drucker.

 

Sempre que alguém perguntava “qual o seu melhor trabalho”, ele respondia: “o meu melhor trabalho será o próximo”.

 

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Isto porque os trabalhos devem evoluir, devem sempre ser melhores. Um grande profissional não deve viver de trabalhos do passado. Um grande profissional deve tentar alcançar a perfeição.

 

Alcançar a perfeição é impossível, mas sempre devemos buscá-la em nossos trabalhos.

 

Drucker era um perfeccionista. Cada frase tinha um significado, cada afirmação tinha um objetivo.
 


 

Outro exemplo de perfeccionista é o Josep (ou Pep) Guardiola. Sempre muito chato, extremamente exigente, cobra perfeição em cada passe, em cada posicionamento, estuda exaustivamente os adversários.

 

Resultado: assombrou o mundo com um Barcelona imbatível, revolucionou o estilo de jogo do futebol mundial, e indiretamente ajudou a Espanha a ser campeã do mundo.

 

O grande jogador Xavi (outro que fez história como jogador e vai fazer como técnico), dizia: “Se o Guardiola fosse um músico, seria um excelente músico”.

 

É extremamente, muito mais difícil fazer um trabalho perfeito do que um bom trabalho. Um trabalho bom vai ter uma boa vida útil. Mas um trabalho perfeito vai durar para sempre. 

 

Arnaldo Gunzi
Dez 2015

 

Outros perfeccionistas:

 

Sudoku

O Sudoku é um puzzle em que cada quadrado menor deve ser preenchido com números de 1 a 9, sem repetição. E, cada linha e coluna do quadrado maior tem que ter números de 1 a 9, sem repetição. O desafio é encontrar os números para tal.

 

Sudoku_1

Achei o Sudoku legal para brincar algumas vezes. Mas o procedimento para encontrar a solução é repetitivo. E tudo o que é repetitivo é possível de ser automatizado. E tudo que pode ser automatizado pode virar uma rotina computacional.

Teve um dia, há muitos anos, em que fiz um resolvedor de Sudokus. Isto dá um bom exercício de VBA.

 

Sudoku_2.JPG

Basta acionar macros, preencher os campos iniciais, e clicar em “Resolver”.

https://drive.google.com/file/d/0B7qV4XXADYw2aERBRlJoNllTeWs/view?usp=sharing

Fica como presente para os leitores deste blog.

 

Arnaldo Gunzi

dez 2015