Experimento sobre evolução

Karl Sims é um cientista da computação e artista gráfico.

Ele usou seus conhecimentos em computação e animação para criar um ambiente que simulava a evolução.

A simulação começa com uma séries de bloquinhos com articulações montadas aleatoriamente. Cada indivíduo pode sofrer uma mutação. A função objetivo é ter movimento. Os indivíduos que conseguirem se movimentar melhor tem maior probabilidade de se reproduzirem. Os filhos herdam algumas das características dos pais, e também podem sofrer mutações.

A evolução é cega, sem um plano, sem um guia, sem um formato final correto. A gigantesca maioria dos seres que se formaram foi eliminada, por não obter sucesso. Mas alguns conseguiram evoluir, para os mais diversos formatos possíveis. Alguns pareciam animais já conhecidos, como cobras e peixes. Outros, de forma não tão óbvia, se movimentavam dando cambalhotas.
O vídeo é fascinante. Vale a pena assistir.

Em outro experimento, o objetivo era tomar posse de um cubo verde. Então, surgiram algumas estratégias diretas, como ser o mais rápido a chegar. Teve um que largou mão de procurar o cubo, e foi direto bloquear o adversário. Mas o melhor foi um que usou uma estratégia indireta, de fazer inveja a Sun Tzu: dois braços longos, que simplesmente cercavam a bola. Qualquer ataque do inimigo simplesmente fazia com que a bola ficasse presa em um dos braços longos.

Dr Livingstone e o homem na rede

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Uma das histórias mais simples e instigadoras que já ouvi foi a seguinte.

O Dr. Livingstone, famoso explorador da África, uma vez encontrou um homem deitado numa rede, em pleno dia. Ele perguntou:
– Você não deveria estar trabalhando?
– Mas para que trabalhar?
– Para juntar dinheiro
– E para que dinheiro?
– Com dinheiro você pode comprar uma boa casa
– E para que uma casa?
– Você pode montar uma rede e descansar tranquilamente na sua casa, quando estiver de férias
– Mas já estou numa rede, descansando na minha casa!


Guardadas as devidas proporções, as vezes me sinto na posição do Dr. Livingstone, e outras, na do nativo.

Já participei de alguns trabalhos, no passado, onde a exigência em termos de dedicação era muito alta. Num desses trabalhos, passei três semanas saindo no mínimo as 10 da noite, e fiquei na madrugada duas vezes neste período. Obviamente isto não é bom, e nem sustentável. Eu parecia o nativo, dizendo ao Livingstone que não vale a pena viver este tipo de vida.

Mas, na maioria das vezes, faço o papel de Livingstone. Vejo pessoas que nem estudam nem trabalham, a geração “nem-nem”. E fico criticando-os, cobrando produtividade.

Como tudo na vida, não há resposta fácil, e a verdade (que desconhecemos) está no meio destes extremos.

Por eu ter uma tendência a ser mais Livingstone do que o nativo, tento entender e respeitar o outro lado. Tendo a ser analítico, lógico, determinístico. Histórias como estas me fazem mais ilógico, humano, flexível.

Captchas

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 Captchas
Certamente quem mexe na internet já se deparou com um captcha: é uma imagem, com números e letras aleatórias, e o usuário deve digitar o que lê numa caixa. Se acertar, ele tem acesso. Se não, ele não consegue avançar.

 

Para que serve essa coisa irritante?

 

Serve para distinguir um robô de um ser humano. É relativamente simples criar um programa para visitar páginas da internet e ficar vasculhando o conteúdo. Mas o que gera receita de verdade para o dono da página são seres humanos, e não programas de computador. Um robô pode inclusive roubar o conteúdo valioso de um site e divulgar para o mundo inteiro.

 

Por que o captcha tem que ser tão difícil, cheio de letras distorcidas e traços que atrapalham? Porque existem outros programas de computador, os OCR, que pegam uma imagem e reconhecem o que está escrito. Portanto, o captcha tem que ser suficientemente difícil para um OCR não conseguir transcrever. E, por isso, os captchas são difíceis de entender. Tão difíceis, que nem os humanos entendem… Eu odeio esse negócio. Uma vez, errei três vezes seguidas a transcrição desse negócio, e desisti de acessar o site. Mesmo quando consigo, tenho que fazer um enorme esforço de concentração para isto.

 

Se somar a quantidade de energia mental gasta nesta porcaria por milhões de pessoas no mundo inteira, questiona-se se o captcha foi mesmo uma boa invenção.

O Re captcha

 

O criador do captcha, ao notar o quanto estava dificultando a vida de milhões de pessoas, bolou um jeito de usar esta enorme energia mental para algo produtivo.

 

O google tem uma iniciativa de escanear livros de bibliotecas, e vem gastando um esforço considerável nisto: escaneres extremamente velozes e alta definição, tempo e dinheiro com funcionários para escanear, servidores para armazenar a informação, especialistas em OCR, etc. Mas, mesmo assim, ainda tem um monte de palavras que o OCR não consegue entender. Aí, o google tinha que pagar pessoas para fazer a desambiguidade.

 

A ideia foi brilhante: pegar essas palavras que o OCR não conseguiu entender, jogar no captcha um milhão de vezes. A palavra que for assinalada mais vezes tem grande probabilidade de ser a palavra correta. E todos aqueles que respondem a um captcha estão ajudando a digitalizar um livro.

 

Mas, se ninguém sabe exatamente qual a palavra correta, como usar a palavra escaneada como captcha?

 

Simples, no recaptcha aparecem duas palavras: uma de controle, e a outra com a palavra escaneada. O ser humano só tem que acertar a primeira palavra.

 

Menos mal saber que o tempo gasto para provar que não sou um robô contribui para a digitalização de livros.
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Alternativas
 

 

Para mim, a responsabilidade e o ônus de saber quem é computador ou não deveria ser do dono da página, e não do usuário.

 

Surgiram outras formas de filtrar robôs, que são muito mais humanas que o captcha.
  • Fazer perguntas literais simples: do tipo “Quanto é dois somado a três?”
  • No ipad, pedir para fazer gestos simples: “Por favor, arraste dois dedos de baixo para cima” (no caso, é para filtrar adulto de criança)
  • Colocar joguinhos simples: arrastar um bloco para um buraco, por exemplo
  • Rastrear a velocidade com que o usuário acessa links e aperta botões.

Unir o útil ao agradável
 

 

A principal razão de eu contar esta história toda não é falar sobre captcha. Mas sim, mostrar que dá para achar utilidade em algo que parecia não ter.

 

Todos os dias, milhões de pessoas gastam tempo, energia e processamento computacional navegando na internet, jogando os mais variados tipos de jogos, acessando facebook, twitter. São formas de entretenimento, não há nada de errado nisto.

 

E se, de alguma forma, quem jogasse um jogo ou lesse uma notícia num site qualquer ao mesmo tempo estivesse contribuindo com alguma coisa, como pesquisa de combate ao câncer?

 

E se fosse possível quebrar um problema em milhões de problemas pequenos e a resolução deste problema for codificado como um pedaço de um jogo?

 

Seria unir o útil ao agradável, e aproveitar um pouquinho do tempo e da energia coletiva de milhões de pessoas.

 

Arnaldo Gunzi

Março 2015


Siglas
Captcha: Completely Automated Public Turing test to tell Computers and Humans Apart
OCR: Optical recognition character
Teste de Turing: concebido por um dos criadores do conceito de computação, o teste de Turing serve para distinguir humano de computadores. Pegue um humano e coloque numa sala. Este humano faz perguntas e recebe respostas de alguém de fora da sala. Se o humano não conseguir distinguir se está falando com um outro humano ou uma máquina, a máquina passou no teste.

Killer application

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Hoje participei de uma reunião, com vários diretores da empresa discutindo cenários e fazendo contas de vários milhões de reais (numa grande empresa, é fácil esses cenários passarem de milhões). E qual o software que este pessoal utilizou? Matlab para cálculos numéricos multidimensionais? R, para modelagem estatística pesada? Java ou C++? É claro que não. Eles usaram o bom e velho Excel. E este fato se repete em TODOS os níveis de uma empresa, desde o analista que necessita de algum controle até o CEO.

É impressionante como um software pode ser tão onipresente.
O Excel tem duas características principais: 1 – É extremamente intuitivo para o ser humano trabalhar em duas dimensões, acrescentando a complexidade que quiser e modelando conforme a sua cabeça mandar; 2 – É um software extremamente poderoso, permitindo funções extremamente elaboradas e macros para automação de processos.


Mas o Excel não é a primeira planilha eletrônica da história. Esta honra cabe ao Visicalc, feita para o Apple II.
O Visicalc é o que podemos chamar de “Killer application”: a melhor aplicação, a melhor faixa do disco. Como não poderia deixar de ser num mundo onde a lei de Pareto impera, o killer app sozinho já justifica todo o investimento. Muitas empresas compraram o Apple II só por causa do Visicalc.

Dizem que o cara que criou o Visicalc teve a inspiração numa aula. O professor fez uma série complicada de relações financeiras na lousa. Após fazer o modelo, ele mudou um parâmetro, e teve que recalcular a tabela inteira, com apagador e giz.

Sendo o criador do Visicalc mais um cientista da computação do que um empresário, ele não teve a ambição de dar passos muito maiores, dando espaço para concorrentes melhores surgirem pouco tempo depois: Lotus 1, 2, 3, e, é claro, o Excel.


Dica: em todos os trabalhos que você for entregar, descobrir qual o “killer app”. Não apenas fazer o trabalho que foi encomendado, mas procurar responder: Qual a principal função deste trabalho? Que gargalo ele vai resolver? O que o cliente (ou o chefe) quer de verdade?

Arnaldo Gunzi
Março 2015

Ensinando pássaros a voar

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Teoria x Prática

Durante a minha infância e em toda a minha juventude, pensava que primeiro deve-se saber a teoria, estudar na faculdade, para depois fazer as coisas na prática, do modo “correto”. A teoria deveria guiar a prática. Entretanto, esta afirmação é incorreta.

 

No livro “Microeconomia”, de Pindyck e Rubinfeld, um dos exemplos dados é um lançamento de um carro da Ford: diz o autor que a empresa fez diversos estudos macroeconômicos sobre o mercado e que isto foi fundamental para o seu sucesso. Ou seja, para o autor, a teoria precedeu a prática, e o sucesso derivou da teoria.

 
Ora, este foi o exemplo mais infeliz possível. Henry Ford, o fundador da empresa de automóveis com o seu nome, era um homem eminentemente prático.
Se Ford lesse isto, rolaria de dar risadas. Ford nunca fez faculdade. Aprendeu engenharia na prática: soldando fios, emendando cabos. A Ford Motors foi fruto de muita prática, muitas tentativas, muitos erros, muito trabalho. Ford não inventou o carro nem a linha de montagem, mas ele inovou, fazendo na prática carros melhores com linhas de montagem mais eficientes. A teoria é que surgiu depois, explicando o ganho de efiência de uma linha de montagem, o efeito positivo de se ter funcionários com salários mais altos que a média, as formas de gerenciamento de Ford, etc.

 
Esta apropriação indevida do sucesso da prática para validar a teoria é o que Nassim Taleb chama de “Efeito ensinar os pássaros a voar”. Os pássaros não vão para a faculdade estudar aerodinâmica para aprender a voar. São os teóricos que estudam como os pássaros voam e formulam as teorias.

 


Dançando em torno da fogueira da verdade
Durante o mestrado, vi aulas sobre filtros adaptativos, e li vários trabalhos sobre como melhorar o grau de convergência do mesmo. Teses cada vez mais complicadas e implementações em matlab, aproximando-se cada vez mais do abstrato e fugindo da realidade.

 
Em consultoria, um cliente grande precisava de uma solução. Montei uma planilha Excel com o filtro adaptativo mais básico possível. Eles usam a planilha até hoje. O mundo real precisa de soluções boas que sejam rápidas, não de soluções ótimas que demandem muito tempo ou recursos. O mundo real tem condições de contorno que não são modeláveis. O matlab funciona no meio acadêmico, mas o fulaninho que opera a planilha na empresa não tem phD para debugar um matlab (e a empresa também não vai pagar uma fortuna para ter a licença, ou instalar Linux para rodar Octave).

 
Peter Drucker diz mais ou menos assim: se a verdade é um fogueira, estamos eternamente girando em torno dela, sem saber exatamente como ela é. Não há tempo para aprender toda a verdade. Devemos entregar resultados hoje, com o que sabemos, com o que temos.

 

Arnaldo Gunzi.

Março 2015.

A estratégia barbell e a TI bimodal

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Estratégia Barbell

O que é melhor, arriscar muito, arriscar pouco, ou ter um risco médio?
 

A maioria das pessoas intuitivamente escolhe o caminho médio. Exemplificando com finanças, trabalhar com opções na bolsa de valores é muito arriscado, gerando ganhos e perdas gigantes. Colocar na poupança é o que tem menor risco, mas gera pouco retorno. Então, as pessoas escolhem algo entre esses extremos.
 

A estratégia barbell é o oposto desse caminho médio. Barbell é um haltere de exercícios, aquele que tem dois pesos em cada ponta e uma barra no meio. A estratégia consiste em deixar a maior parte dos recursos em algo muito conservador, e colocar a parcela restante em algo extremamente volátil, ou seja, apostar nas pontas e evitar o caminho do meio.
 

Este termo foi criado por Nassim Taleb (Black Swan, Antifragile). Colocar-se na parte conservadora garante que, aconteça o que acontecer, você não quebre, sobreviva a imprevistos. Colocar uma parte dos recursos na parte arriscada te expõe aos riscos positivos, se algo der certo, impulsiona tudo.

 


 

TI bimodal

A área de TI (tecnologia da informação) é tradicionalmente lenta, pesada, cheia de processos amarrados num ERP chato.
 

Bimodal é algo que tem dois modos, dois picos em locais opostos. Teria o modo tradicional da TI, chato, lento, pesado, estruturado. Mas também teria um modo rápido: prototipagem rápida, teste de conceitos, modelos simples feitos em excel, flexíveis, desestruturados. Mais ou menos assim: a TI ágil entrega soluções simples e rápidas, testando conceitos até que o processo rode bem. Depois de alguns meses, chega a TI tradicional, para implantar soluções mais estruturadas. Um é o que abre caminho na estradas, e o outro é o que pavimenta com asfalto.
 

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O conceito de TI bimodal se encaixa bem na estratégia barbell. É um bom conceito.


 

Ágil

No começo, os trabalhos de desenvolvimento não tinham muita metodologia. Alguém sentava do lado de quem desenvolvia, pedia algo e isto era feito. O problema era que o escopo mudava, as ferramentas evoluiam, e dava um retrabalho enorme modificar tudo.
 

Aí surgiu o conceito tradicional de desenvolvimento de projetos. Havia a especificação do que deveria ser feito. Com base nessa especificação entrava o desenvolvimento. Mas o problema é que escrever a especificação demora muito, e o cliente NUNCA sabe o que quer. E não é por culpa do cliente, mas devido às circunstâncias: ele pode enxergar outras oportunidades ao longo do projeto, ou o escopo pode mudar, ou o mundo pode mudar. E, então, temos hoje a TI amarrada, que demora meses para dar uma solução que não resolve o problema do usuario.

 
Com o tempo, surgiram as metodologias ágeis: um escopo não tão especificado assim, maior interação entre quem usa e quem desenvolve, etc. Voltou a ser como era no começo de tudo, mas com um nome mais bonito e parecendo mais sofisticado.

 


 

Como implementar
 

Na prática, o que vejo atualmente é que embora o conceito de TI bimodal seja bom, a TI não vai conseguir mudar no curto prazo. A parte ágil tem muito mais características de consultoria ou de uma área de projetos, totalmente desvinculadas de TI tradicional. A TI bimodal é um bom conceito, mas na prática só vai funcionar se a parte ágil da TI tiver características muito diferentes da TI atual. A parte ágil da TI não pode ser igual a TI.

 

 

E-readers e a importância de um Steve Jobs

 

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Ganho de produtividade

Comprei um e-reader novo, o Kobo Aura HD.
 

Sou completamente fissurado em livros, artigos e ideias, das quais me baseio na minha vida profissional.

 

Antes dos e-readers, eu tinha que adquirir livros em papel, ou imprimir (dá ler na tela de computador um livro de 10 páginas, mas não um de 500 páginas). Livros são caros, pesados, e limitados à oferta das livrarias locais – ou a importar um livro e ficar 3 meses esperando. Dava para ler no máximo uns 20 livros por ano.

 

Tenho um Kindle DX desde 2009. O Kindle permitiu que eu tivesse acesso on-line à uma quantidade quase ilimitada de livros. Um título como “Computational Complexity” poderia ser comprado e baixado pela internet. Com o Kindle, consegui dar um salto de produtividade para uns 50 livros por ano.

 
Mas o Kindle DX tem limites tecnológicos. Para arquivos pdf, cada página demora muito para carregar (uns 20 s). Parece pouco, mas isto inviabiliza uma leitura dinâmica. Além disso, o recurso de zoom era tosco – dava tanto trabalho e tanto tempo dar zoom que simplesmente não conseguia ler muitos arquivos. A formatação de páginas salvas pela internet também ficava pouco legível, e o zoom não ajudava.

 
Hoje, em 2015, o Kobo HD é supostamente o melhor e-reader do mundo. É mais rápido que o e-reader antigo, mas mesmo assim demora uns 7 segundos para carregar (ou mais se o arquivo for pesado). Ele tem um recurso de zoom excelente – o que permite que eu leia artigos científicos. E tem recursos espertos, como o Pocket, que permite que eu marque uma página da internet (no computador, ipad, qualquer browser) e esta é automaticamente baixada no e-reader. Com tudo isto, é possível ler por volta de 80 livros e uns 200 artigos por ano, algo completamente impossível na era do papel impresso.

 


 

Sinto falta de Steve Jobs
 
O Kobo Aura HD tem uma peculiaridade que lembra Steve Jobs: tem só um botão, o de ligar. Toda a navegação é por touch screen. E este é o principal defeito dele.
 
Certamente o design bonito e os inúmeros truques de navegação do iPhone inspiraram o Kobo HD. Mas pegar um conceito de uma área e colocar em outra pode não ser a melhor solução.
 
No caso de e-readers, o touch screen não funciona bem, porque há um delay (de 5 a 10 segundos). Imagine um tablet onde a cada toque, ele trave por 5 segundos.
 
Na leitura de arquivos baseados em texto (epub, txt, mobi), a solução cheia de botões do antigo Kindle DX é muito mais eficiente do que o touch screen do Kobo – porque neste caso, a leitura é sequencial, não tem fórmulas matemáticas, a formatação não importa muito.
 
Resolver um problema não é copiar e colar uma solução, é encontrar a solução que melhor se adeque às condições de contorno.
 
Fico imaginando como seria se a Apple de Steve Jobs lançasse um e-reader. A velocidade ainda é boa, então poderiam melhorar este aspecto. Se não fosse possível, então colocar botões a mais e funcionalidades que permitissem navegação rápida de conteúdo. Atalhos configuráveis para opções da tela. Também poderiam lançar uma mega loja de livros no itunes, com o dobro do tamanho da Amazon e metade do preço. Outra ideia seria a de universidades terem a sua própria página no itunes, onde poderiam disponibilizar apostilas dos cursos. Há infinitas possibilidades não exploradas.

 


Ganho de Produtividade e custo dos produtos
 
Paguei caro pelos e-readers que tenho – mais de R$ 1000 pelo DX que não existia no Brasil, e R$ 700 pelo Kobo. Além disso, tinha um Sony PRC (que era horrível) e um Kindle 3 (modelo barato e pior).
 
Eu pagaria o triplo por um e-reader muito melhor, um e-reader nível Apple que ajudasse a dar um salto de produtividade maior ainda.
 
Acredito fortemente que o recurso escasso do ser humano é o Tempo, e não o dinheiro. Se eu puder usar o dinheiro para aumentar exponencialmente a minha produtividade, não vou poupar esforços para isto.
 
Sinto falta de um Steve Jobs, para iluminar o caminho dos e-readers. O resto da história se repetiria: alguns anos depois do sucesso do iReader, os concorrentes começariam a copiar as funcionalidades, lançando aparelhos genéricos, mais baratos e de arquitetura livre. Depois de mais alguns anos (e nadando a favor da lei de Moore), esses concorrentes conseguem chegar no nível da Apple, que passa a ficar cara, o que a obriga a se reinventar. Mas a contribuição de um Steve Jobs adiantaria em 10 anos a evolução dos readers eletrônicos, e triplicaria a minha produtividade na área.

 

Arnaldo Gunzi.

Março/2015

 

O problema do peru

 

“The turkey problem” é um termo provocativo de Nassim Taleb, que ilustra a incapacidade de se prever o futuro e a falsa confiança que dados históricos podem trazer.
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Um peru passa mil dias sendo alimentado por um humano. Cada dia a mais é uma evidência adicional de que o humano é alguém que foi feito para cuidar do peru.

 

Se tivesse um peru com doutorado em estatística, ele poderia fazer um gráfico plotando uma linha crescente nos 1000 dias. E qual seria a projeção (forecast) estatística dele para o dia 1001? A projeção seria a de que o dia 1001 seria igual a todos os outros, com o humano dando comida e cuidando da vida boa do peru.

 

Exceto que o dia 1001 é o dia de ação de graças, festa tradicional norte americana cujo prato predileto é o peru.

 

O peru foi para o forno, e o gráfico dele passou a ser algo assim:

 

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O peru tinha um conhecimento limitado do mundo e uma massa de dados históricos de 1000 dias.

 

O ser humano tem um conhecimento limitado do mundo, e tudo o que se tem são dados do passado (e projeções para o futuro). Somos todos perus.

 

Somente depois que um grande evento acontece é que surgem profetas e sabidões falando que tinham previsto isto. Foi o caso, por exemplo, do ataque às torres gêmeas, um evento ímpar que mudou completamente o mundo após ocorrer.

 

Algumas implicações para não ser um peru: assumir que não é possível prever o futuro e se precaver caso algo aconteça, considerar também os riscos ocultos que não podem ser mensurados e não confiar que novas ferramentas da moda são melhores que as existentes.

 
Não é possível adivinhar o futuro. Pode-se ter projeções, pode-se trabalhar em cenários prováveis, mas um evento extremo sempre pode ocorrer. O que é possível de ser feito é assumir proteção a risco, no caso de algum evento extremo. Por proteção a risco entende-se hedge, stop loss, seguros, estoques estratégicos.

 

Seguros como o de vida, carro, plano de saúde podem ser caros, mas podem evitar problemas ordens de grandeza mais caros no futuro.

 

Estoques são cada vez mais considerados como custos, num mundo otimizado. Mas é bom ter uma gordura, um estoque do mais importante. O próprio corpo humano é assim. Qualquer alimento sobrando vira estoque de energia, a gordura, que é tão difícil de eliminar. Temos dois pulmões, dois rins, cabelo e unhas nunca param de crescer, um monte de sistemas backup redundantes. Somos projetados para viver num mundo instável.

 


Os riscos ocultos podem ser piores que os riscos visíveis. Porque somos perus, e não conseguimos enxergar além de um limitado alcance.

 

Qual a aplicação financeira com menor risco? É quase unânime dizer que é a poupança ou títulos da dívida do governo, enquanto a bolsa de valores é o lugar de alto risco. Na verdade, o que interessa é o risco futuro, e ninguém sabe o que pode acontecer.  Colocar todos os ovos na mesma cesta é ruim, confiar somente na poupança e nos títulos do governo é ruim. Por isso, diversifico comprando outros ativos, inclusive na bolsa de valores – não busco ganhos imediatos, mas proteção e diluição de riscos a longo prazo.
 


Tem algumas palavras chave da moda, que de tempos em tempos aparecem, como Big Data, Analytics, etc.  O tal do Big data não vai servir para nada. Não é com mais dados (do passado) que vamos saber mais do futuro.

 
Não é porque o cara que inventou o método “Super Big ABCD” tem phD em Harvard e escreveu um artigo bonito (com monte de palavras complicadas, citando um monte outros caras famosos) que isto vai funcionar mesmo. O nosso peru do exemplo também tinha doutorado em estatística. Todas estas metodogias e ferramentas dão a ilusão de que se tem o mundo sob controle (riscos visíveis), quando vivemos num mundo em que há cada vez mais  eventos ocultos que não previsíveis.

O mundo é e sempre será muito maior do que a soma de todo o conhecimento da humanidade.

Dividir para descascar laranjas

 

Conta Shigeo Shingo, o grande engenheiro industrial do Japão dos anos 60.

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Havia um processo numa fábrica de sucos de laranja, em que cerca de 20 operadores tinham que tirar caule e depois descascar a fruta. A parte crítica do processo era a de tirar o caule, que exigia mais habilidade do que descascar. As perdas neste processo eram de cerca de 30% das frutas.

 


Sugestão:
Dividir os operadores em dois grupos, um grupo menor com mais habilidade para retirar somente o caule, e o segundo grupo apenas para descascar. Com essa sugestão simples, as perdas diminuiram pela metade.
 

De uma forma mais geral, o caminho a ser seguido foi o de dividir o processo em dois subprocessos menores. Cada subprocesso é otimizado de seu jeito, e o processo original passa a ser a soma dos subprocessos otimizados.


Separar – melhorar – recombinar
 

Em meus projetos de consultoria, noto que todas as vezes em que o pessoal em nível de diretoria (ou gerência) quer uma solução que faça tudo ao mesmo tempo, ela acaba com um fantástico sistema (em power point ou num SAP ou numa outra linguagem inflexível) que não resolve nada na vida real, para o operador que mete a mão na massa. Uma solução simplesmente Top-Down só funciona na teoria, é um engana que eu gosto.
 
Uma forma de se trabalhar que eu gosto muito é a de separar – melhorar – recombinar, que nem a das laranjas. Quebrar o processo em diversos subprocessos menores, que podem ser atacados isoladamente. Para cada subprocesso desses, melhorar ou automatizar ou otimizar, mesmo que seja apenas numa planilha excel esperta. Deixar rodar esses subprocessos melhorados por um tempo, a fim do processo ganhar maturidade. Finalmente, juntar essas soluções menores em algo mais completo, atingindo enfim um resultado bom no todo.
 
Este método não gera PPTs bonitos, nem tem marketing para o Diretor se gabar para outros por ter implantado o SAP módulo XYKD. Mas “separar – melhorar – recombinar” funciona, gera valor real. É efetivo, é o que interessa no final das contas.

A dança de Afrodite

Planets2013 No ensino fundamental, é bem comum um diagrama do sistema solar, com o Sol no meio, depois Mercúrio, Vênus, Terra, etc.   O que não é dito é que há milênios de conhecimento de dezenas de astrônomos e físicos embutidos neste modelo simples.


Grécia antiga   Imagine-se há 2000 anos atrás, olhando para a noite e tentando descobrir como os planetas se comportam.   Não haviam telescópios. Tudo o que se poderia fazer era olhar para o ponto no céu e anotar a posição.   Se alguém fizer este trabalho meticuloso e paciente de anotar a posição dos planetas, depois de 8 anos teria dados para montar um diagrama como o seguinte, que é o percurso de Vênus visto da Terra.   Porém, com 8 anos de observação não dá para saber se Vênus vai se comportar assim para sempre ou não. Também não dá para saber se teve erro de medida, uma vez que não tinham instrumentos. Portanto, somente com uns 36 anos de medições daria para começar em pensar em modelos. earth-venus-rose-pattern-orbital-resonance-300x291   Mas, o que a órbita acima parece? Parece uma órbita circular, com várias subórbitas menores. Aí, os gregos antigos criaram um modelo que descrevia exatamente isto: círculos maiores e subcírculos menores. Com essas fórmulas, dava para prever a posição dos planetas no céu, vista da Terra, que estaria no centro do universo.   E, porque Vênus faz uma dança tão maluca no céu? Não se sabia. A fórmula do modelo antigo apenas descrevia o resultado, e não explicava mais nada. E, para o pessoal da época, era suficiente.


Galileu, Kepler, Newton   Foram precisos séculos para que os grandes nomes da Física que conhecemos, Galileu, Kleper, apoiados em milênios de dados, reescrevessem o modelo antigo. Faria muito mais sentido que todos os planetas girassem ao redor do Sol, inclusive a Terra. E a órbita de Vênus era tão esquisita porque tanto Vênus quanto a Terra giram com velocidades diferentes em órbitas elípticas diferentes ao redor do Sol.   E foi preciso mais um gênio, um dos mais geniais de todos, Isaac Newton, para formular três leis (Inércia, ação e reação, força =massa * aceleração) que realmente explicassem a dança dos planetas. O surpreendente é que a força da gravidade que faz cair a maçã na cabeça de Newton é a mesma que faz os planetas orbitarem ao redor do Sol, é a mesma lei que rege a dança sensual de Vênus no céu.   Talvez por causa desta dança sensual nos céus, o planeta tenha sido chamado de Afrodite, a deusa do amor, pelos gregos (e Vênus pelos romanos, posteriormente)

Arnaldo Gunzi

Março/2015.


Recomendações Quadrivium: Livro com belíssimas ilustrações geométricas e planetárias. http://www.livrariacultura.com.br/p/quadrivium-42269624 http://www.takayaiwamoto.com/Earth_Moon_Sun/Harmony_Planets.html


“O Binômio de Newton é tão belo quanto a Vênus de Milo, embora haja poucos para dar com isto” – Fernando Pessoa


Bônus. Órbita de Mercúrio visto da Terra         earth_mercury     Órbita de Júpiter vista da Terra earth_jupiter

Falácia das cerejas escolhidas

O cérebro do ser humano foi feito para entender padrões e criar narrativas. Por isto, acaba errando na relação entre causas e consequências, criando falácias narrativas, criando heróis falsos. O ser humano não consegue olhar para probabilidades de forma isenta, sempre lineariza um mundo não-linear.

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Quando se olha para cerejas que alguém comprou no supermercado, só se vê cerejas boas, já que alguém escolheu as mesmas. Daí, pode-se pensar que todas as cerejas são boas, mas isto é um erro. Daí vem o nome Falácia das cerejas escolhidas, conceito popularizado por Nassim Taleb.

Um caso é o de superestimar as probabilidades de sucesso. Alguém vê que os médicos têm uma alta remuneração. Digamos que 80% ganhem acima de um patamar elevado. Então, ele acha que tem 80% de probabilidade de se dar bem, se for médico. Mas este não é o problema real. O problema real é que, para o cara se tornar médico, 10 outros não conseguiram. Ele deveria olhar para a amostra toda, e não somente a amostra que deu certo, as cerejas escolhidas.

Também pode acontecer do sujeito subestimar o esforço de outros.
Teve um projeto que fiz, em que consegui um resultado muito bom, depois de vários árduos meses de trabalho. Mas, para o cliente, ele simplesmente contratou algo e isto foi entregue. Para ele, a probabilidade de acerto tinha sido de 100%. E ele achava que qualquer consultor que ele contratassse teria entregue um bom trabalho. Na realidade, em qualquer projeto a taxa de sucesso é de menos de 50%, mas o cliente se enganou ao ver as cerejas escondidas.
Já que as cerejas escolhidas estão bonitas, qualquer outra pessoa poderia ter escolhido cerejas tão bonitas quanto.

Há monte de exemplos desta falácia: em livros, filmes, boatos. Qualquer lugar em que tenha um Herói, tem algo assim.
Um livro sobre o Messi vai dizer que ele penou na vida, treinou muito, tem força de vontade, etc. Mas, e todos os outros milhares de jogadores que também treinaram muito, tinham força de vontade e não chegaram onde ele chegou? Não é mais lógico dizer que Messi nasceu com um talento extraordinário?
kÉ fácil pegar a cereja escolhida e falar dela, o difícil é olhar para todo o universo de cerejas e descobrir qual será a escolhida.

Como evitar o efeito das cerejas escolhidas?

1 – Lembrar que o mundo é não linear. O mundo tem as suas regras próprias, curvas exponenciais, distribuições Pareto.
Fazer probabilidades a partir de experiências passadas é igual a lineariazar o mundo. Na verdade, você pode ter 9 fracassos consecutivos, mas a 10a tentativa pode dar tão certo que compensa em muitas vezes as tentativas anteriores.

2 – Os herois da vida real (os esportistas preferidos, os top escritores, etc) devem ser analisados junto com todos aqueles que não conseguiram chegar no mesmo lugar. Além de toda a competência, sempre há uma grande dose de sorte (ou destino, sei lá) em tudo na vida.

3 – Tudo o que existe hoje ao seu redor foi criado por heróis anônimos. Digamos que houve um encanador da Sabesp que consertou o cano da rua, ou um caminhoneiro que viajou 800 km para entregar castanhas no mercado. Qualquer um poderia ter feito este serviço? Talvez sim, talvez não. O cano poderia estar vazando até hoje. O que importa é que alguém fez, e este alguém merece os créditos por isto.

Ao mesmo tempo em que não se deve supervalorizar quem está no topo da pirâmide, não se deve desprezar quem está na base.

Arnalso Gunzi

Marco 2015