Veneno e remédio

Paracelsus disse que diferença entre o veneno e o remédio é a dose.

Estendendo o raciocínio, há coisas destrutivas que servem para construir.

raio X(1)

Depois que o raio X foi descoberto, notou-se que o local sujeito a uma forte exposição do mesmo sofria queimaduras, degradava.

Pesquisadores de câncer do início do século passado não tinham remédio nenhum à disposição. Mas eles notaram que, nos casos em que o câncer começa em um alguns pontos concentrados, era possível aplicar o raio X somente neste ponto, causando uma destruição controlada. Foi o início da radioterapia.

No processo de inovação, também é importante ficar atento ao que deu errado.

Dica de leitura. O imperador de todos os males. Siddhartha Mukherjee.

George Soros e o seu verdadeiro método

Redesigning the International Monetary System: A Davos Debate: George Soros
George Soros é um dos maiores investidores de todos os tempos. Ficou famoso após ganhar 1 bilhão de dólares em um dia, em um ataque especulativo contra a libra esterlina.
Há dezenas de livros sobre ele, e milhares de páginas na internet a seu respeito. Ele mesmo tem um site, onde conta algumas de suas ideias e opiniões.
Ele mesmo diz que queria ser filósofo, mas não foi bem sucedido. Ninguém levou a sério suas ideias.  Conta que saiu em busca da verdade e encontrou o dinheiro.
Mas qual o seu verdadeiro método de atuar?
A resposta: ninguém sabe.

Nessas dezenas de livros e sites, sua principal (e única) ideia é uma tal de Reflexividade do mundo.
Imagine que o mundo está funcionando atualmente. Os atores que compõe o mundo não apenas observam o mundo, mas o comportamento desses atores mudam o jeito do mundo funcionar, afetando os fundamentos do mundo.
Então, se todo mundo acha que a Vale vai ficar ruim, a Vale realmente fica ruim, seja por conta de baixa produtividade, baixa de preços do minério, etc. Note que a teoria dele não diz que o preço na bolsa vai cair, e sim que os fundamentos vão ficar ruins, e por isso o preço vai cair.
E é só isso. Sua única grande ideia filosófica é esta. Todo o resto das ideias é recorrente a esta primeira ideia, ou é apenas opinião e blá blá infinito. São 2 páginas para colocar a ideia principal e 200 de lero-lero.  Lembre-se do lado filósofo dele, muito discurso com pouca aplicabilidade.
A ideia central de Soros é tão geral, e de certa forma tão óbvia, que é até decepcionante. É por isso que nenhum filósofo o leva a sério, não há nada novo ou diferente nessas ideias.

O Soros paradoxal
Mas o parágrafo acima não que dizer que filosofia de Soros não sirva para nada. Há muito a aprender com ele.
Nassim Taleb, em Fooled by Randomness, descreve Soros como um homem paradoxal, cheio de ideias e atitudes contraditórias.
Um vez, Soros estava jogando tênis com um amigo, e contou porque achava que haveria uma grande queda na bolsa de Nova Iorque na semana seguinte. Ele citou argumentos detalhados, com muitos raciocínios abstratos que o amigo não conseguiu entender.
Na semana seguinte, a bolsa subiu fortemente. No outro domingo do tênis, o amigo perguntou se a subida da bolsa o tinha afetado. Soros respondeu: “Fiz uma grana alta. Estava desconfortável com a posição que tinha assumido. Mudei de ideia”.
Soros é capaz de colocar uma grande verba sob responsabilidade de alguém e na semana seguinte simplesmente abortar a ideia. Tomar um posição extremamente crítica para depois apoiar veementemente.
Algumas de suas ideias têm viés socialista, o que é totalmente contraditório com alguém que pode ser descrito como o maior tubarão do capitalismo selvagem.

Conclusão
No final das contas, ninguém sabe o método verdadeiro de Soros, mas há algumas lições a extrair:
1 – Ele estuda muito aquilo que é do seu interesse, e embora a decisão seja meio técnica meio feeling, com certeza o inconsciente dele absorveu todo este conhecimento.
2 – Ele realmente acredita na ideia de Reflexividade, no sentido de que ele pode ajudar a mudar o mundo, e ele pode ganhar no mercado. Por isso, Quando é para ganhar dinheiro, ele joga para ganhar, quando é para falar de coisas como política, ele quer ajudar a mudar o mundo para melhor,  e não ficar falando o que todo mundo já sabe.
3 – Soros não teme tentar um monte de coisas. Se depois que ele tentar, ele acha que está errado, muda de ideia e ponto final. Nisto, ele é diferente de 99,9% das pessoas do mundo, que por teimosia, vaidade, ou só para não perder uma discussão, não querem mudar de ideia. No mundo financeiro, mudar de ideia significa perder o investimento que foi feito. Soros não teme aplicar o stop loss, perder alguns milhões para estancar um sangramento de dezenas de milhões, abortar uma ideia que deu errado para investir em outra que pode dar certo. Visto de fora é paradoxal, mas Soros não está nem aí para a sua ou para a minha opinião.

Epílogo: uma vez comprei um carro, e passado alguns meses, vi que ele não era tão legal assim. Mas, como tinha feito um certo investimento, continuei teimando em utiliza-lo. O resultado foi que este carro continuou dando dor de cabeça, e quanto mais eu colocava dinheiro e tempo nele, mais difícil ficava trocar. Fiquei quatro anos com este.
Fosse eu um Soros, teria trocado logo no terceiro mês, assumindo um prejuízo imediato, mas evitando um prejuízo maior ainda no longo prazo.
Perdeu valor, parte para outra.
Arnaldo Gunzi
Fev 2015

Pouco tempo? A solução é ter menos tempo ainda

Hourglass depicting what time really means.

Uma das maiores reclamações de todo mundo é a falta de tempo. Faltou tempo para terminar o trabalho, falta tempo para estudar, etc.

Mas o tempo nunca vai ser suficiente. Se o ser humano tiver 10 horas, vai usar as 10 horas. Se tiver 1000 horas, vai usar as 1000 horas. Se tiver a vida toda para fazer, nunca vai fazer. Esta regra é chamada de “Lei de Parkinson”

Ao invés de reclamar e pedir mais tempo, dinheiro ou recursos, que tal fazer exatamente o oposto? Que tal restringir ainda mais os recursos e, com isso, procurar soluções criativas?

Alguns exemplos: uma força tarefa de uma hora para resolver o problema. Um mini projeto de uma semana com orçamento zero. Um protótipo funcional no final do dia. É a lei de Parkinson ao contrário. Por mais contraditório que possa parecer, problemas que não podem ser resolvidos em um ano podem ter a solução em uma hora.

Na matemática, é muito comum restringir problemas. Digamos que eles queiram provar alguma propriedade sobre os números primos, mas não conseguem. Mas se restringirem o problema somente aos primos da forma 4k+1, às vezes eles conseguem tirar conclusões. Sair do lugar. E depois, resolver o problema principal.

Na TV e jornais, é comum assistir a algum burocrata do governo dizer que vai “aumentar as verbas da educação”, ou “aumentar o número de viaturas da polícia”. Ou reclamar de cortes no orçamento. Mas, se eles quiserem mesmo resolver alguma coisa, a solução é dar algo, mas restringir por outro lado. Dar mais dinheiro no orçamento, mas com menos prazo e escopo mais definido. Criar projetos com muitos recursos, mas em pouco tempo. Tirar recursos que estão a mais e obrigar a focar somente no que é estritamente necessário, e assim por diante.

Ter recursos e tempo infinitos não é o ideal. O ideal é ter a quantidade necessária de recursos e tempo, não mais do que isto.

Arnaldo Gunzi

02/2015.

Ressonância Magnética divertida

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Quem tem crianças pequenas sabe como é difícil lidar quando elas não querem fazer algo.

Por outro lado, basta alguma coisa ser lúdica para que todas as crianças se interessem. Por exemplo, em alguns lugares  há carrinhos de supermercado que imitam um carro, com volante e tudo. É 100% de certeza que a minha filha quer andar num desses, quando vê. E normalmente é muito concorrido, porque um monte de crianças também quer andar num simples carrinho de mercado lúdico.

Doug Dietz era designer de produtos da General Eletric.

Ele tinha orgulho das máquinas de ressonância magnética que ele tinha projetado, eram as mais avançadas do mundo. Mas, acompanhando alguns procedimentos reais, ele notou que as crianças ficavam aterrorizadas com o equipamento. Era um túnel frio, sombrio, estranho. 80% das crianças tinham que ser sedadas para fazer os exames.

Doug resolveu testar outra solução. Procurou pessoas da área educacional, e transformou a máquina de ressonância magnética em uma aventura na ilha pirata, conforme as fotos acima.

Funcionou. A taxa de crianças sedadas passou a ser de 10%. Algumas até achavam a aventura divertida, e queriam voltar outro dia.

Este é o valor de entender o cliente.

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Há outro princípio do Design Thinking envolvido aqui, o de Empatia.  Isto significa ir à campo, ver como as pessoas interagem com o seu trabalho e se colocar no lugar delas, ao invés de simplesmente entregar um trabalho. Pode até parecer algo óbvio, mas na prática as pessoas não fazem – e por isso, há tantos produtos e serviços mal projetados neste mundo.
A história da ressonância divertida foi contada no livro “Creative Confidence”, de Tom e David Kelley.


 

Veja também:

Design de Serviços

Little Bits

Mapa do Site

 

 

Moneyball x Muricyball

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O filme Moneyball conta a história do time de baseball Oakland A, que utilizou estatística para ajudar a definir as contratações.
O Oakland A era um time muito menor do que os concorrentes, com um orçamento minúsculo. O gerente geral, Billy Beane, contou com a ajuda de um economista para analisar as estatísticas de vários jogadores (número de rebatidas corretas, quantidade de vezes que alcança a primeira base, etc) para definir quais jogadores estavam subavaliados pelo mercado e qual jogador é melhor para começar a jogar em qual posição e em qual momento do jogo.
O Oakland fez as contratações gastando pouco, e acabou quebrando o recorde histórico de 20 vitórias seguidas, impressionando os EUA. Depois disso, praticamente todos os times de baseball passaram a ter algum grau de análise estatística.
Não entendo nada de baseball, mas desconfio que haja alguns exageros no filme. A estatística pode ter ajudado, mas tem todo o trabalho do treinador, o esforço dos jogadores, os treinamentos, etc.

Pergunta: uma abordagem estatística para contratar jogadores, definir posições e funções faria sentido no nosso futebol?
Resposta: não. Um moneyball futebolístico não pegaria agora. Mas, com certeza será uma peça importante num futuro mais ou menos distante.

Justiificativas
1 – Independência de funções: no baseball, há funções bem definidas em momentos bem definidos: o arremessador, o primeiro batedor, o segundo batedor, etc. Portanto, é mais fácil analisar as médias para cada uma dessas funções.
 No futebol, não. Principalmente no futebol moderno, cada vez mais todo mundo faz a sua parte dentro do todo: o atacante volta para marcar, o zagueiro compõe o ataque. Tem até goleiro que faz gol! Portanto, é extremamente mais difícil analisar jogadores por desempenhos médios: será que é melhor tem um zagueiro rápido que ataca com bom passe, ou outro que tem como forte a jogada aérea? A resposta certa não existe isoladamente.
Outro item é a significância estatística. O arremessador joga umas 200 bolas no jogo, portanto há significância nas médias. Já no futebol, o atacante chuta a gol poucas vezes. Médias em amostras pequenas fazem pouco sentido.
2 – Gênio não tem estatística: tanto no baseball quanto no futebol ou em qualquer lugar, o gênio extrapola todas as estatísticas.
Estatísticas são para os não-gênios, são para identificar médias e tendências um pouco acima ou abaixo delas.
3 – Amadorismo administrativo: o futebol brasileiro não tem administração profissional. O que se vê são feudos de dirigentes, tentando se eternizar no poder. Clubes gastando muito mais do que arrecadam. Dívidas enormes com o governo. Negócios sendo fechados em conluio com empresários. Não dá nem para pensar em aplicar métodos estatísticos sérios onde não se tem administração séria.
Conclusão:
Um moneyball futebolístico não pegaria agora. Mas, com certeza será uma peça importante num futuro mais ou menos distante.
Há domínios onde a estatística pode sim ajudar. Mas deve-se desenvolver maturidade sobre onde a estatística funciona e onde não funciona no futebol.
E, mais ainda, deve-se ter uma gestão realmente profissional no futebol.

Bônus: Economista x Muricy Ramalho
Economista: Você deve escalar o Pato na esquerda, como segundo atacante, ao lado do Luís Fabiano. Esta é a combinação que deu mais resultados estatísticos.
Muricy: A torcida paga ingresso para ver o time vencer, não para ter aula. Quem gosta de estatística tem que ir para a faculdade. Vai para Harvard. Ou para a Federal do Rio de Janeiro. Tem uns cursos bons lá.
Economista: Mas os números não mentem. Fiz simulações computacionais, e qualquer outra combinação apresentou resultados piores contra o adversário do próximo domingo.
Muricy: Hoje fiquei 40 min, debaixo do sol fazendo trabalho tático com o time. Depois, teve o trabalho físico. E você acha que a gente estava lá brincando de jogar video game, comendo bolacha e bebendo cafezinho? Aqui não tem essa não. Quem estiver melhor joga. Aqui é trabalho, meu filho.
 Arnaldo Gunzi
02/2015